Entre Arco-íris Noturnos e Chapeuzinhos

Por Dilvo Rodrigues

Era um domingo de trabalho. Uma tarde de domingo ensolarado, se tornando em um final de tarde de domingo chuvoso. Um dia que tinha tudo para ser maravilhoso, até mesmo para quem trabalha, como esse sujeito aqui. A chuva chega esvaziando as ruas e ninguém sai de casa. Ninguém vai se arriscar a sair de casa para tomar uma expresso ou uma xícara de chocolate quente. Eu já esboçava planos mirabolantes para tornar o fechamento da loja mais rápido e eficiente, ao mesmo tempo em que confeccionava chapeuzinhos de papel para eventuais pedidos de lanche, se alguém eventualmente decidisse aparecer.

De repente, alguns passos se fazem ouvir, uma voz feminina arrebenta minha quietude.
-Vocês estão servindo ainda?

Sem olhar diretamente para o ser que ia se aproximando de onde estava, envolvido na minha aparente brincadeira de criança, respondi que sim. Mas, não foi só isso. Entre o “sim” e a complementação da resposta, resolvi olhar para a criatura de Deus. Quando olhei, fui dizendo meio que soletrando.

P o d e  s e  s e n t a r  o n d e   q u i s e r , j á  l e v o  o  c a r d á p i o  p r a  v o c ê.

Que criatura!

Havia 10 mesas limpas no salão e outras duas sujas. Ela resolveu sentar logo na suja. Acho que 90% dos clientes praticam essa atitude de endoidar o garçom. Mas naquele momento, a mesa suja era lucro.

-Oi,tudo bem?

Cardápio entregue.

-Meu nome é Dilvo, mas as pessoas também me chamam de Rodrigues por aqui. Bom, fique a vontade.
-Dilvo é um nome diferente,mas não é difícil assim!, disse ela sorrindo,enquanto os olhos verdes olhavam a página do hambúrguer de costela.
-Sim, soa melhor que Rodrigo. Posso passar um pano na sua mesa?
-Sim, por favor.

Fui lá na correria buscar o material pra limpar a mesa. Como se todas as mesas estivessem ocupadas e todas quisessem fazer pedidos ao mesmo tempo.Havia só ela e a mesa quatro no salão. Mas, voltei disfarçando uma calma mineira.

-Não entendi a parte do Rodrigo.,ela emendou antes que eu passasse o pano na mesa. Daí fui limpando e explicando aquela história que muita gente já conhece.
-Meu nome seria Rodrigo e me consola saber que não me chamo Rodrigo Rodrigues, me sentiria um parente do Alberto Roberto.

Ela sorriu. sorriu bem, não tanto. Tenho uma amigo que diz que esse povo aqui do sul é comedido por demais. Daí até para rir eles ficam se controlando. Ao invés de soltar a gargalhada,eles soltam um “Haha” de dentes trancados. Mas independente disso, um sorriso bem dado é a melhor gorjeta que alguém pode receber. Já havia conquistado a minha então. Ainda que eu tenha me sentido um bobo 30 segundos depois.

Terminei de limpar a mesa e ela fechou o sorriso ao mesmo tempo. Tirei o bloco de pedidos do bolso, olhei nos olhos verdes e e…deu branco. Isso por que a beldade também olhava nos meus castanhos e eu me sentia do lado de um pote de ouro iluminado por um arco-íris. É o que dizem que acontece quando a chuva passa. Bom, a chuva ia parando, mas eu nunca tinha visto um arco-íris à noite. Só em festa de criança mesmo. A página do hambúrguer tava lá aberta ainda.

– Vai ser o de costela mesmo?
– Não, não. Não como esse tipo de lanche. Quero um expresso e uma torta de amendoim com doce de leite. Quero uma água também.

Levei o pedido da moça e voltei para minha confecção de chapeuzinhos. Do balcão, olhava meio de rabo de olho para mesa quatro até me esquecer. Na verdade, esqueci daquela figura no mundo exterior porque ela havia ultrapassado a linha que divide a realidade da minha “Matrix”.

Minutos se passaram, a chuva havia voltado com mais força e uma voz feminina me chegou outra vez, bem próxima.

-O que é isso?. Meio que retirado do sono disse:

-Oi!? Ah, são os chapéus para os lanches. Eles vão aqui dentro, funcionam como se fosse um guardanapo, não deixam sua mão sujar ou molhar.
– Ah sim. Quanto é a minha conta?

Na maior parte das vezes,eu fico muito feliz com essa pergunta. O Cliente tá saciado, você atendeu bacana e já ta na hora de ir para casa. Não fiquei feliz dessa vez.

-Vocês não tem guarda-chuva aí,né!? Eu disse que não. Passei o valor da conta. Ela pagou no cartão.
-Obrigado, volte sempre!

Ela se dirigiu até a porta, estendeu o braço até onde era possível sentir a intensidade da chuva, cruzou os braços por uns segundos, se virou e deu um tchau com um outro sorriso lindo. Um sorriso que acabou logo quando tocaram a sineta da cozinha.

-Rodrigues, anda rápido com esse chapéus.

O loja estava cheia novamente e mesa quatro como se, naquele dia, não houvesse sido ocupada.

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