O Prato Feito Nosso de Cada Dia

Por Dilvo Rodrigues

Arroz, feijão, salada, batata frita, farinha e macarrão. Bife, bisteca ou frango. Ovo frito ou omelete. Uma montanha de arroz e um mar de feijão dividindo uns dos pratos. A salada vem ali, em outro. Duas rodelas de tomate, repolho ralado, cenoura ralada e três folhas de alface. Em um terceiro prato, chega o bife. – Mal passado, por favor, e com bastante cebola. -Bife acebolado! Às vezes, a porção de carioquinha ou feijão preto é que vem separada. Daí, o arroz toma conta de metade do prato, dois bifes com aquela gordurinha de lado e algumas batatas marotas. Pode ser que tudo venha em um prato só. Sal a gosto, azeite a gosto, pimenta a gosto. – Bom apetite, Senhor!

Comercial, Prato Comercial, Prato Feito ou, simplesmente, PF, dizem as línguas mais entendidas da culinária brasileira ou os entendidos do que poderíamos chamar de “Baixa Gastronomia”. Uma refeição rápida e de custo baixo, pensada para alimentar a crescente massa de trabalhadores que chegavam nas grandes cidades, dizem os historiadores mais entendidos da arte do garfo. É o melhor na relação custo/benefício, poderia acrescentar os economistas do ramo alimentício. O que diriam os sociólogos ou os nutricionistas? Talvez um artista de circo dissesse que é preciso certo malabarismo com os talheres, já que o prato chega transbordando comida. Corta um pouco do bife ali, tira um pouco de arroz do cantinho aqui, passa a faca em mais uma tira de bife, depois um bocado de feijão do outro lado. Uma folha de alface para passar o tempo. E assim, o espetáculo se encaminharia sem qualquer acidente para seu desfecho natural, que nesse caso, seria representado por soltar os talheres no prato e relaxar a pança, jogando as costas no encosto da cadeira e, de repente, bate uma tristeza, uma moleza!

O PF poderia ser considerado “politicamente incorreto” pelos ecochatos. Algo que deveria ser levado a sério, já que muita gente não aguenta o tranco e acaba desperdiçando o alimento sagrado. Mas, a expressão “Prato de Pedreiro” continua cada vez mais viva, ainda que seja passível de críticas. E, cada vez mais as mulheres também veem se destacando nesse ramo, o de bater um pratão. Nada melhor do que comer o que quiser, quanto quiser. Quem sabe um dia, passando por uma obra dessas qualquer, um dessas pedreiras lindas e cheirosas não nos diga: – Casa limpa, roupa lavada e PF na mesa, lindão! Quem sabe!?

Outro grupo seleto de pessoas que nosso comercial conquistou foram os bacanas. Sim, a gente tem o costume de achar que os abastados não batem pratão. Eles só arrumaram um jeito de escamotear isso. Como? Colocaram o nome do PF deles de “Prato Executivo”. A montanha de arroz é menor, a de feijão também. O prato vem decorado, arrumadinho e organizado. Tem ali uma opção de molho, uma picanha, um mignon, um frango grelhado, ovo de codorna etc. Da pra comer sem se importar se a comida vai vazar do prato na hora de cortar o bife. É, o executivo tem lá suas vantagens, mas a batata frita continua marota igual.

É aquele tipo de coisa de quem curte comida caseira, de quando o prato é colocado na mesa saindo aquela fumacinha. Aquela coisa bem clichê de propaganda mesmo, mas que a gente adora e é prazeroso sentir e ver, principalmente. E assim como conheço muita gente que não come batata sem bacon, sempre tem aquele que encosta no balcão e fala baixinho no ouvido do atendente – Tem uma porçãozinha de torresmo aí? Algo que soa quase boêmio. Mesmo por que, sempre encontro as mesmas caras e as mesmas bocas, nas cantinas de Curitiba afora. Seja na hora do almoço ou a noite. Na hora do almoço, mais fechadas. Á noite, falastronas, à mil gargalhadas. Pode ser que essa arte do PF seja até prima da boemia. Mas, isso a gente discute mais tarde, de barriga cheia.

2 comentários sobre “O Prato Feito Nosso de Cada Dia

Deixe um comentário