Segue outra vez

por Dilvo Rodrigues

Nos bons tempos dos jornais impressos, os cronistas penavam para achar ou descobrir assuntos para construir seus textos. Não é atoa que muitos deles repetiam crônicas aparentemente esquecidas ou há muito tempo publicadas nas páginas dos periódicos. Me lembro de uma história, não me lembro dos personagens, em que um escritor ligava para um colega e dizia assim: “Fulano, você tem aquele trecho de texto ainda? Me passa aqui! E aí o fulano criava um outro texto em cima daquele fragmento do beltrano. A repetição era o salva-vidas.

E é engraçado como a gente gosta da repetição, do bis. Bem, estamos em uma época do ano que pipocam as retrospectivas. Não sei se nos outros lugares do mundo existem esses programas de fim de ano. Mas, como dizem, brasileiro tem memória fraca. Salve a retrospectiva então. Essas coisas todas fazem a gente se lembrar do passado e de tudo que ocorreu lá, porém com um pé e mais dois braços no futuro. Bom, em homenagem à vida dura dos cronistas e em celebração às retrospectivas, gostaria também de me repetir. Então, segue outra vez algo que já foi, que acontece todo dia e que sempre vai acontecer. A questão é que…

A vizinha da frente passa o dia inteiro ouvindo música. Ela acorda sempre ouvindo alguma canção inspiradora, dessas que fazem a gente se sentir mais corajoso pra vida. A dona Rita tem lá seus 50,55 anos. Hoje acordei com aquela voz dormida entoando trechos de Cais, de Milton Nascimento. “Para quem quer se soltar,invento o cais. Invento mais que a solidão me dá.”. E termina o dia sempre com alguma canção sonolenta. Dessas que a letra não faz muito sentido ou não é muito poética,mas que a melodia é quase um embalar de rede com brisa de mar.Uma vez encontrei com ela no elevador. Ela perguntou se me incomodava aquilo o dia inteiro. Eu disse em tom de brincadeira: “Só quando a senhora,todo sábado, coloca arrocha.” Ela me respondeu: “Com a música minha vida é poesia, é dor e alegria. Mas, as vezes a gente precisa mexer o esqueleto também,né!?” Isso com um leve balançar de quadril. “Tá certo,dona Rita!”,disse. Coloquei meus fones de ouvido e fui.

PS* Dona Rita hoje começou o dia ouvindo: “Então é Natal, e o que você fez?”

Um comentário sobre “Segue outra vez

Deixe um comentário