por Dilvo Rodrigues
Parece um típico pagode de laje, desses que acontecem nas favelas cariocas. Mas o lugar é um antigo lava-car situado um pouco pra cima do Largo da Ordem, em Curitiba. Da praça, a gente já escuta o som do tam tam e do pandeiro. Uma voz se destaca em meio a outras vozes em coro – “Eu te quero só pra mim, como as ondas são do mar. Não da pra viver assim.” – E se vê também um movimento de gente alegre na entrada da festa. São pessoas rindo, pessoas dançando, pessoas beijando, pessoas bebendo e conversando. Um rapaz cobra a entrada de cinco reais e entrega um ticket. A gente já desce as escadas balançando a cabeça, com a mão pra cima e o sorriso nas orelhas.
Lá embaixo é o povo todo se balançando, o povo todo bebendo sua cervejinha, o povo todo conversando alto, alguns com um espetinho na mão, alguns só olhando. Outros, sentados na antiga rampa que dá acesso á rua, com o queixo no joelho, ora bebericando uma cerveja que já deve estar quente. Esses devem estar cansados. A rampa deveria ser proibida para os cansados e paras os que beberam mais de cinco latinhas. Por que se um sujeito ou uma sujeita rola de lá, companheiro, é strike na certa. A música muda – “Elevador é quase um templo. Exemplo pra minar teu sono. Sai desse compromisso. Não vai no de serviço.” – A morena fica sem par e resolve pegar o telefone da bolsa. O que é quase um pecado em um lugar desses. Mas, para gente esperta pecado é oportunidade. “Quer deixar o Facebook de lado? Quer dançar?”. Convite aceito!
Não deveria ser inesperado, já que frequentador do Brasileirinho, acostumado às rodas de chorinho aos domingos e sempre com uma esticada à Sociedade 13 de Maio, eu já deveria saber que o São Francisco é sim um reduto de Bambas. Ainda que os chapéus e o gingado seja ligeiramente ofuscados pelos punks, hippies e metaleiros. Ninguém pode negar a diferença, que termina sempre engolida por Garibaldis e Sacis. Ninguém pode negar a diferença. Mas, quando a morena balança a cintura e a saia flutua no ar, meu amigo, todo mundo, sem distinção, se sente um pouco cavalo babão. Coisa que homem só se dá conta depois que a batida para.
A noite cai e a festa vai se encaminhando para o fim. Ninguém está desesperado olhando o relógio, esperando o som da sineta tocar para sair em disparada na direção de casa. Na verdade, todo mundo quer um bis. O bis do povo todo dançando, do povo todo cantando, o bis da cintura da morena, o bis dos lábios da morena. A gente vai se encaminhando para as escadas, triste, olha para trás sem querer acreditar que tudo acabou. E a gente sobe as escadas com uma andar pesado meio que fazendo birra de criança que não quer ir embora do parque de diversão. Retirei o ticket do bolso para o rapaz da portaria – “Não precisa devolver. Isso é para você se lembrar de voltar na semana que vem.”.Voltaremos, eu e o povo todo.
Muito bom Dilvo. Eu nem sou chegada nestas “paradas”, rs, mas vc me fez imaginar claramente as cenas e até achar interessante este ambiente de festa e alegria…
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Acho legal quando o ambiente é divertido e alegre. Acho que os pagodes e os sambas da vida são sempre assim.
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