Os Raimundos Nonato e Lourenços da Vida

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por Dilvo Rodrigues

Todos os dias ele vai almoçar no mesmo lugar. A comida não é das melhores. Na verdade, para Lourenço, a comida é um lixo. O que leva esse negociador de quinquilharias ao boteco não é mesmo a comida, o motivo é outro. O Lourenço de “O Cheiro do Ralo”(2007), dirigido por Heitor Dhalia, não vai para comer, mas para olhar a bunda da garçonete. No caso dele, nem se poderia utilizar a expressão “comer com os olhos” e, muito menos, o “comer” chulo e sexual que se utiliza por aí, nas ruas. Lourenço quer poder olhar para a bunda da garçonete quando desejar. Não é o tipo de cara que concorda com a proposição psicanalista que diz que a grande tristeza na vida humana é que ver e comer são duas operações diferentes, como descreve Norman O. Brown no livro “Love’s Body”. “Eu não quero casar com essa bunda. Eu quero comprar ela pra mim”. Temos então, alguém que sabe perfeitamente o que quer e como quer possuir.

No último domingo, saí para comprar um jornal. Folheei algumas páginas, ao mesmo tempo em que alguns bocejos saíam do meu corpo como demônios ou fantasmas expulsos durante uma sessão de descarrego. Uma matéria sobre as mulheres que começam a se organizar em movimentos sociais com o efeito de repudiar as investidas, as cantadas masculinas, me chamou a atenção. As mulheres estariam se sentindo desrespeitadas, invadidas na sua intimidade, um mero objeto de desejo sexual. O que é algo que sensibiliza qualquer homem que tenha o mínimo de caráter.

Não sou um expert em cantadas. Mas, uma cantada sempre começa com um olhar. Quero dizer, o olhar sempre precede a cantada. Muitas vezes, o olhar é a própria cantada. Pensando assim, nada diferencia nós, homens reais, desse tal de Lourenço que menciono no começo do texto. Porque o olhar passa a ser a linguagem do corpo e a mensagem da alma. O olhar quer tomar conta do corpo, da bunda, da boca daquela que caminha na nossa direção. E elas leem nossos olhos, pensam e logo chegam a conclusão do que se passa nos nosso miolos algo como: “Eu não quero casar com esse corpo, eu quero comprar ele pra mim.”

Esse tipo de olhar tem tomado conta de tudo, na verdade. Pode ser até que estejamos vivendo o “Vício da ocularidade”, algo que Nietzsche denunciou em “Assim Falou Zaratustra”. A maneira de ver que o filósofo alemão propunha para vida e para tudo incluso nela deveria ser diferente. “Olhar para a vida sem desejo, e não como um cão, com a minha língua pendurada”. Ele continua: “amar a terra da mesma forma como a lua a ama, tocar sua beleza só com os meus olhos”. E ainda: “que eu nada deseje delas, exceto a permissão de ficar prostrado diante delas como um espelho com cem olhos”. É uma maneira filosófica de ver o mundo. Porém, ter esse olhar, que é imaculado e ausente de um sentimento de posse, talvez, represente ser a “cantada” mais eficiente. Mas será que os cem olhos incomodariam as mulheres?

Até mesmo as situações de hostilidade podem levar as pessoas a supervalorizar o que é matéria e, também, a materializar entidades imaterializáveis. Veja só o caso de Raimundo Nonato em Estomago (2007), do diretor Marcos Jorge. Nonato tem toda uma ascensão e conquista do poder proporcionada pelo o dom de cozinhar e preparar alimentos. Ele, um retirante nordestino, que foi muito oprimido pela vida e quando teve chance de alcançar o poder, o fez. Raimundo conquista comida e cama, o respeito dos companheiros de cela, uma garota, um bom emprego por causa dos seus dotes culinários. A vida do sujeito se complica quando ele se apaixona por uma prostituta, que se apaixona pelas coxinhas feitas por Nonato. A garota não rejeitava uma coxinha sequer, nem mesmo durante os momentos mais íntimos entre o casal. Porém, o talentoso cozinheiro pega sua amada na cama com outro, o mesmo que acabara de contratar Nonato para reger a orquestra de sabores de um restaurante italiano. No fim de Estomago, nosso “maestro”, então, mata os adúlteros, tira um bife da bunda da amada e põe para cozinhar. É a cena que parece nos dizer algo como: “É chegada a hora de devorar aquilo que me devorava.” ou, “Possuir a bunda que me possuía.”

Já, em “O Cheiro do Ralo”, Lourenço abraça a bunda tão desejada e chora, como se estivesse no conforto de um travesseiro. Ora, assim como existem carnes melhores para se preparar do que o um bife de bunda, há também lugares mais afetivos para se chorar. Não é à toa que Deus criou o colo de mãe. Mas, não parece incrível que uma coisa tão desejada tenha levado tanto Nonato como Lourenço a um sentimento de derrota ou mesmo ao fracasso? Talvez sim, de alguma maneira. Eu não sei dizer ao certo se a ficção imita a vida ou é o contrário. Mas, começo a acreditar que essa coisa de ficar olhando para bunda de mulher na rua é apenas o começo do surgimento de outros tantos Raimundos Nonato e outros tantos Lourenços da vida.

3 comentários sobre “Os Raimundos Nonato e Lourenços da Vida

  1. Muito legal sua crônica Dilvo; gostei da citação do Nietzsche. Interessante as histórias dos personagens, aliás, tenho 2 colegas de trabalho com estes nomes. Eu prefiro o “olhar que é imaculado e ausente de um sentimento de posse.” esta, acredito ser, a “cantada” mais eficiente.”

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