O Gato Bebe Leite, O Rato Come Queijo

por Dilvo Rodrigues

“Aqui embaixo do prédio tá passando o bloco dos bêbados.E eu vou me juntar. E eles não vão achar ruim se eu achar que cachaça é remédio que a gente toma sem receita pra anestesiar a dor. Eles não vão achar ruim se eu achar que é besteira essa coisa de beber na folia. Por que em plena quarta-feira, nem triste, nem feliz. Bebo, mas é só para esquecer todas as besteiras que eu fiz.”. O Alberto sempre cantava essa música depois de umas e outras. O sujeito nunca aprendeu uma nota musical se quer nessa vida. Mas, sempre vinha apresentando ou cantando uma letra ou outra, composta por ele mesmo. Eu gostava muito de tudo que ele inventava.

Alberto e eu eramos colegas de repartição pública e amigos do gole. Cada um no seu estilo, claro. Enquanto eu ficava no traçado, no conhaque, o Alberto admirava mesmo era a danada da branquinha. A gente sempre bebia as sextas-feiras no Bar do João, fica ali na esquina da Visconde de Nácar com a Caio Martins. Uma zona boêmia distinta, com clima curitibano e puta valadarense. A gente se divertia, principalmente com as histórias que o Alberto contava. A vida dele era uma coisa que só, bruta, difícil e sofrida. Certo dia, ele tinha saído mais cedo do trabalho e eu fiquei de encontrá-lo no João. Saí correndo e fui. Chegando na porta já dava para ouvir a voz dele, rouca, bêbada e desconcertada.

“Até a empregada me deixou. Foi embora dizendo que lavar roupa de bêbado não condiz com a palavra de Deus. Eu não disse nada. Se Deus disse, o homem acata. Mas, a pinga existe. Será que não foi “por ordi” de Deus? Deus disse, o homem acatou e a pinga existiu. Bêbado não reclama, bêbado bebe. E bebe a tristeza, bebe a alegria, bebe a música, bebe dívida e bebe tudo. “O Gato bebe leite. O rato come queijo…” E eu… “Ô João bota mais uma letra aqui. Ó, Bota um C de três dedos. Um C tipo um bocão aberto assim ó. Aaaaaaa!” – E ele abria um bocão e ficava de perfil para o João, dono do bar. “É ou num é um C? Bota ai!” – E o líquido transparente ia ocupando calmamente o copo de cachaça. Mas, descia queimando pela garganta do sujeito. “Eitaaaa, tremmm!”. Essa história do C eu sempre achei sensacional. Ele abria a boca, ficava de perfil e perguntava se era ou não um Czão, do mesmo formato de quando a gente faz a dose entre o polegar e o indicador. Eu achava isso esperteza de comediante, de Chico Anysio, Didi Mocó, Mussum, João Canabrava e Galeão Cumbica. Era o Alberto, meu amigo, funcionário de repartição pública, divorciado, dono de um fusca azul escuro e de uma coleção sem igual de selos postais.

Se tinha uma coisa que ele tinha um zelo danado era a tal da coleção de selos. Era uma coisa que ele levava muito a sério, mais a sério que o próprio casamento. Quer dizer, quando ele era casado com a Matilde. Eu sempre fui o tipo de bêbado que torrava o dinheiro todo no bar. O Alberto sempre guardava uns trocados para a feira de colecionadores que acontecia todo sábado. Religiosamente, todo sábado de manhã o sujeito marcava presença na localidade. Religiosamente, todo sábado eu só acordava depois do meio dia, isso depois de muita encheção de saco da Rita, minha esposa, e das crianças querendo almoçar no PF da Júlia. Eu ia contrariado, mas sempre achei melhor ter que me importar com a Rita e com os meninos do que com uma coleção de selos. Enfim, “O Gato bebe leite. O rato come queijo…”. Depois, a gente acabava encontrando com o Alberto na feira. Ele era nosso padrinho de casamento e sempre pagava um pastel e um caldo de cana de sobremesa para as crianças, mostrava os selos raros que ele por ventura tinha conseguido. A gente acabava no Bar do João de novo, mas era de leve. A Rita só permitia um porre por semana e beber na frente das crianças não é coisa de pai cuidadoso.

– Ô João traz dois refresco ai!
– Refresco? Isso é uma nova marca de pinga?
– Não, eu acho que não vou beber mais.
– Ahm?
– Isso mesmo. Eu parei.
– E o que aconteceu pra lhe dá nos miolos tal concretude de pensamento?
– Ontem depois que você me deixou em casa, não fiquei satisfeito. Acabei voltando aqui para comprar uma garrafa de pinga.
– Ok, mas todo mundo tem fraqueza. As vezes a gente passa do limite. Não?
– Sim, mas levei a garrafa pra casa.
– Eu sei, não é a melhor companhia do mundo. Ainda existem mulheres por ai e você ainda é homem. Ou será que anda cortando pra outras bandas?
– Deixe de ideia homi! Então,eu levei a garrafa para casa. Cheguei e fui logo abrindo e tomando no gargalo mesmo. Só que ai acabei tropeçando no jarro da samambaia, a cachaça caiu toda em cima da coleção de selos que estava em cima da mesa.
– Perdeu tudo?
– Sim, todos os selos se dissolveram no álcool. Os mais e os menos valiosos.
– Poxa!
– Não vou beber, por que se eu começar agora, não vou parar nunca mais, nenhum segundo. Essa perda eu não aguento. Mais essa!
– Lembra quando a Matilde te deixou?
– Sim, e o que tem isso?
– Foi quando você inventou a história do Czão.

A gente caiu na gargalhada. A Matilde nunca entendeu a história do Alberto nunca mais ter procurado ela. E ficava soltando fumaça pelas venta quando ele passava horas envolvido com a coleção de selos. Esse desastre deve de ser até reza braba dela, deve tá rindo feito o tinhoso em dia de festa. Ele seguiu em frente. Se envolveu com uns rabo de saia da Trajano Reis, andou frequentando uma casa da luz vermelha ali da Ilha. Normal! Sabe como é, a gente sempre tem outras paixões. É um carteado, um poker, uma pelada, uma rodada de purrinha, uma mega-sena, um fusca azul escuro e o rabo de saia. Pena de essas muié não entender!

Eu aqui lembrando disso tudo.
– O João, você coloca um Czão assim de pinga aqui pra mim!?
Fiquei de perfil, daquele jeito. O João e eu nos olhamos meio que inconformados.
– Acho que hoje vou precisar de um três dedos também, amigo!, disse ele.
– Um brinde ao Alberto, que Deus o tenha no céu com um Czão daquele tamanho.

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