por Dilvo Rodrigues
Estava sentado na varanda, passando tempo contando as flores que iam caindo do ipê amarelo do quintal.
– Pai, por que na lua não tem água e sol é de fogo?
Uma pergunta e tanto. Eu vivia um momento poético e bucólico ali, então pensei em responder a Bia no mesmo tom. Mas, ao mesmo tempo, fiquei encucado com a pergunta inesperada de uma criança de 5 anos. Sempre estive preparado para perguntas sobre o nascer dos bebês ou coisa que o valha. É verdade que a criança estava um pouco pensativa e quieta durante os últimos dias. Acreditava eu serem motivos terrenos, mas a cabecinha dela estava além das nuvens.
– Eu não tenho uma resposta certa, minha filha. Mas tenho uma teoria, quer ouvir?
-Sim!
– No primeiro encontro, o sol e a lua eram dois astros quaisquer, que nem se chamavam sol e lua. Eles eram tão distantes um do outro, era impossível pensar que se encontrariam um dia. Mas os dois iam se aproximando e, a medida que isso acontecia, o sol acabou se enamorando da lua e ela ficou perdidamente apaixonada pelo sol. Frente a frente, no primeiro encontro, os dois acabaram se beijando. A emoção foi tão forte que a lua secou quando soltou uma lágrima no momento do beijo. O Sol ficou muito radiante.
– Uhum, Entendi! Papai, e o que aconteceu com a lágrima da lua?
– Enquanto a lágrima ia caindo espaço afora, a parte dela que estava voltada para o sol acabou secando e se tornou terra. O Outro lado continuou água. A Lua e o sol continuaram seus caminhos orbitais, se separando. Porém, vez ou outra eles se encontram, seja por iniciativa do sol, seja por esforço da lua. Mas nunca mais foi como da primeira vez. Misteriosamente, a lágrima parou em um ponto entre a lua e o sol. O Astro Rei queria manter sua porção viva naquilo que nasceu de um beijo rápido e passageiro, a terra. A lua, sistemática, não iria deixar por menos e começou a exercer influência sobre as águas. Às vezes a terra avançava sobre as águas, muitas vezes as águas cobriam grande parte do chão.
– Uhum!
Ela ficou em silêncio durante uns segundos e soltou outra pergunta irrespondível.
– Papai, por que quando o senhor beija a mamãe, ela não seca e senhor fica brilhando, feito o sol e a lua?
Eu achava a história do sol e da lua linda, mas agora eu havia caído na minha própria armadilha. Eu precisava pensar rápido!
– Papai e Mamãe não querem viver distantes e se encontrar só de vez enquando como acontece com o sol e a lua. Lembra que tinha uma força que afastava o sol da lua?
– Sim, lembro!
– Então, quando papai e mamãe se beijam tem uma força, sopra um vento em cada um de nós que nos mantem juntos. A força que separou o sol a lua não age sobre nós, mas pode atuar sobre outras pessoas até que o vento surja na vida delas.
– Por isso a tia Joana separou do tio Joaquim?
– Sim!
– Por isso ela chorou?
– Também!
– Mas ela não vai secar, né?
– Não, meu amor! Ela vai ficar bem.
Depois de um tempo, pensei comigo. Eu acabei percebendo que eu havia me enrolado todo na explicação poética do problema infantil. E o pior, que ela não tinha guardado a história toda. Ela apenas fazia ligações e relações entre palavras. Beijo e lágrimas é ruim. Beijo com vento, tudo bem.
– Papai, o vento vai vir em mim?
– Um dia.
– Promete que não vai ter lágrima depois?
Meu Deus, vou arruinar a vida dela quando nada disso acontecer. Eu pedia para Deus levar minha voz, colar meus lábios ou me fazer falar numa língua incompreensível. O que eu faria agora? De repente uma voz chegou:
– O que você está fazendo ai atoa, que cara de assustado é essa?
– Não é nada!
– Nada? Nada é o que você faz o dia inteiro. Por que você não levanta desse sofá e vai procurar um emprego, arranjar uma esposa, quem sabe ter uns filhos? Virar gente de verdade, sabe?
– Não tô preparado ainda, Mãe.