O Vendedor Noturno de Rosas Verdadeiras

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por Dilvo Rodrigues

Quando era jovem Acir não tinha liberdade para presentear sua namorada com flores. Menos ainda pegar na mão, muito menos ainda ficar de agarramento em público. Se alguém visse a filha do fulano abraçada com o filho do ciclano era um Deus nos acuda. Abraçar só era permitido depois do casamento. Em Nacip Raydan, sua cidade natal, aproveitava as noites de lua cheia junto com uma turma de amigos e embalava serenatas nas janelas mais distintas, que tinham sempre algo em comum; flores.

Décadas se passaram e as flores, especialmente as rosas, ainda fazem parte da rotina desse simpático senhor. É que ele vende rosas, rosas de verdade, pelos bares e restaurantes cidade afora. Apaixonado e casado pela mesma mulher há 35 anos, ele oferece rosas para os casais ou pretensos casais sentados na mesa de um bar, tomando cerveja ou caldo de mocotó, comendo torresmo, bêbados ou não, fumante ativos ou passivos. Meio que fazendo às vezes de um cupido inesperado, comportado, oferecendo uma espécie de flecha para ser atirada por um amante diretamente no coração do outro.

Ele chega muitas vezes sem dizer uma palavra, oferecendo no gestual a rosa ao rapaz ou à moça. O homem de gola pólo azul da mesa da esquina disse não, já estava de saída. A bonita morena que o acompanhava olhou atravessado, devia estar pensando: “Isso é motivo para não me agradar?”. Uma loira disse ao Sr. Acir que não compraria a rosa, já que a mesma vai acabar murchando. Ela não parecia saber que uma homenagem dessas faz o sentimento inflar por algumas horas. Porém, quem sabe pensasse que o bonito rapaz sentado na mesa da frente e que a olhava permanentemente não avaliaria uma rosa como um pretenso convite a um passeio dominical. Talvez avaliasse como um autêntico convite para uma chegada na variante 7 de setembro. Certa vez um sujeito chegou a dizer que a rosa era um mero troféu de puta. Isso não é coisa de se dizer para um vendedor de flores que até venceu um concurso de calouros cantando “O Bom Rapaz”, de Vanderlei Cardoso. Isso lá em 1972, na cidade de Jacareí (SP). Na verdade, não é coisa para se dizer nem para quem vive cantando música de piriguete. Indelicadezas a parte!

E olha que eu gostaria de ter alguém para presentear com flores, cheguei a confessar certa vez para o Sr. Acir, antes mesmo de lhe propor ser personagem deste texto.
– A gente tem de aproveitar que hoje é permitido dar flores, pegar na mão, fazer carinho nos cabelos, falar no pé do ouvido, dizer que ama, dizer que ama e que ama muito. Não é mesmo, Sr. Acir? – continuei.
– Sim, claro! E você tem namorada?
– Eu não. Tenho namorada não.
– Quantos anos você tem?
– Eu? 29.
– Já tá na hora, hein? Mas, Deus vai arrumar uma namorada muito boa para você.

Pressas a parte, enquanto a dita cuja não aparece, que deve ter aparecido e já se foi, flores para nossas mães e pais, irmãs e irmãos, tias e tios e adversários políticos.
É claro que admito! Até que seria muito bem vinda uma ajuda divina dessas na resolução dos nossos desejos amorosos menos realizados. Seria de um agrado danado se Deus pudesse colocar no caminho de todo homem uma dessas mulheres (e vice-versa) que a gente precisasse cuidar muito para que se mantivesse vistosa, perfumada e bela, feito uma das rosas autenticas oferecidas por um vendedor de flores. Eu, por exemplo, não iria reclamar se uma dessas aparecesse bem agora, enquanto me vejo sentado numa mesa de bar.

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