por Dilvo Rodrigues
Nessa manhã, uma borboleta apareceu de repente no quarto. Achei incrível por que a janela e a porta ficaram fechadas a noite toda. Ainda deitado, vivendo minha depressão matinal, vi o bichinho voando desastrosamente para o corpo do violão. O ventilador estava ligado, cheguei a temer que ela fosse cometer a loucura de se aventurar num voo rasante pelas hélices do aparelho. Foi o que ela fez, mas correu tudo bem. Há muito tempo eu não via uma borboleta assim, tão de perto. A última foi na nuca de uma amiga que resolveu bater asas para bem longe daqui.
Depois do voo rasante pelo ventilador, ela veio descendo e descendo, pousou no lençol com o qual eu ainda me cobria. Queria tirar uma foto. Era uma borboleta bonita, pequena, com as asas nas cores preta e laranja. Ela abria e fechava as asas meio que tentando se equilibrar no lençol em meio a ventania provocada pelo ventilador, de uma manhã já bastante quente. Queria tirar uma foto. Peguei o celular, mas ela não se deixou fotografar. Decidiu alçar voo mais uma vez. Talvez fosse tímida ou tenha tido, de proposito, a intenção de ficar apenas na minha memória e nessas palavras.
Nessa semana mesmo outra borboleta apareceu aqui em casa. Não no meu quarto. Essa era daquelas bem grandes, toda de preto. Ficou dois ou três dias paradinha no mesmo lugar da sala de jantar. No escuro, imóvel, como se estivesse petrificada. Não a vi chegar e nem a vi ir embora, nem mesmo tive coragem de me aproximar. Acho que nunca tinha visto uma saída a francesa tão discreta assim, me perdoe a redundância. Bem diferente de uma dançarina que se apresentava em um barraca de praia em Porto Seguro, a Lady Butterfly. Mas, não me passou pela cabeça tirar um foto daquela borboleta estática, apesar de também ter uma beleza. Quando era criança, meu pai sempre me contava para nunca tentar pegar esse tipo de borboleta, isso por que, segundo ele, o pigmento que elas tem nas asas poderia nos cegar. Nunca tentei pegar, por isso. E também, é mais bonito vê-las voando.
A borboletinha então decolou do lençol, rodopiou pela TV e posou na porta do quarto. Eu me senti dando um aperto de mãos a distância, numa despedida conformada. E num piscar de olhos ela se foi, passando pela janela do corredor, a área de serviço e ganhando os céus novamente. Ainda fui lá fora tentar a foto mais uma vez, mas ela tinha ido mesmo. E pensar que esses bichos de Deus pouco antes se rastejavam lentamente entre centímetros de folhas de uma planta qualquer. De repente, criam asas e começam a voar, embelezam os jardins e nossas vidas, ainda que numa manhã quente de depressão aguda. Muita gente inveja a liberdade dos pássaros, a lealdade dos cachorros ou a autossuficiência dos gatos. Acredito que, a partir de hoje, eu admiro muito mais a vida das borboletas.
BENDITA SIMPLICIDADE,ME FAZ APAIXONAR …..
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Pra você ver o que uma borboletinha é capaz de fazer.
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continue…relaxar com meras cronicas é td de bom.
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Bonita,muito bonita esta crônica Dilvo, você tem o olhar dos poetas, vê a beleza que há nos mais singelos bichinhos criados por DEUS. Algo q passaria despercebido por muitos, vcs olham e vêm a beleza. Gosto de borboletas, sua crônica me fez lembrar uma bela cena do filme Patch Adams e de musiquinhas infantis.
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Obrigado pelos elogios, Maracy!
As borboletas e as formigas são bichos fascinantes!
Eu admiro também as abelhas, mas a distância. hehe
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