Por Dilvo Rodrigues
Um jovem começa a se barbear no banheiro. Ele liga uma música dançante no celular. A porta está entreaberta, sendo que quem passa pelo corredor em direção à sala pode ver o Joaquim ou Joca, para os mais íntimos, se preparando para a noite de sexta-feira. Laura, irmã de Joaquim, divide a atenção entre a Tv e notebook. No auge dos seus 16 anos é unanimidade entre os amigos do Joca. Ela, por sua vez, dificilmente responde positivamente às investidas dos atrevidinhos. Nesta sexta, não pretende sair de casa. Já que havia marcado de ir com as amigas ao clube no sábado, pela manhã. Então, a mocinha deve passar parte da noite escolhendo os trajes de banho mais capazes de atrair olhares.
Na TV entra uma propaganda de uma nova linha de shampoo. A jovem desvia o olhar da tela do PC para a TV. Ela sempre foi antenada nas últimas tendências de cremes para a pele, cremes para as pernas, para as mãos e olheiras. Sabia qual o tipo de shampoo mais apropriado para o cabelo e também quanto tempo o danado do cabelo poderia ficar exposto ao sol. Porém exagerava na chapinha, o que acabou deixando o cabelo da mini barbie um tanto “passado”. O novo shampoo poderia ser a salvação da lavoura.
Na propaganda da Tv, o quadro é divido em três. Aparecem três mulheres despidas da cintura para cima, uma em cada quadro. As três são vistas de costas e com os cabelos soltos. Muito belas costas, por sinal! A primeira é de cabelos longos, lisos, com pontas duplas e estão soltos. A segunda tem cabelo longo, ondulado e quebradiços. O cabelo dela também está solto. A terceira tem cabelo crespo, rebeldes, ressecados e soltos.
– Chame a atenção no primeiro impacto! Nova linha de Shampoos siliconados Belis Hair. – Diz o locutor.
A jovem deixa o computador de lado e trava o olhar no anúncio publicitário.
No banheiro, o jovem chacoalha ao som da batida da música. A canção é “Moves Like Jagger”, sensação nas festinhas de amigos no cursinho preparatório de medicina que Joca frequenta há dois anos. Ele está enrolado numa toalha de banho e com uma parte do rosto ainda com espuma de barbear. Aos poucos vai passando a lâmina pela face. Um corte quase inevitável no pomo de adão frustra suas esperanças de pelo menos uma vez não se mutilar fazendo a barba. Mas, fazer aquilo, rebolando feito Mick Jagger já era sensacional, para ele.
O comercial continua na TV.
– Mais brilho e vitalidade para os cabelos. Cabelos como você sempre desejou.
Laura puxa alguns fios de cabelos para frente e os analisa.
-Restauração profunda e hidratação fio a fio. Fim das pontas duplas.- se empolga o locutor.
No banheiro o Jovem termina o serviço, desliga o celular e escuta a voz do locutor dizer uma frase.
– Agora é dos siliconados que elas gostam mais!
Ele olha para o próprio peitoral “manchetado” no espelho e faz cara de dúvida. Contrai o músculo do peitoral. A cara de dúvida permanece.
– Eu preciso ver isso! – E sai correndo para a sala, em direção a TV, segurando a toalha no corpo.
A propaganda termina na medida em que Joca se aproxima da sala, ao mesmo tempo em que Laura pega o controle para “zapear”. A jovem não percebe a curiosidade do rapaz e muda de canal antes mesmo que ele chegue à sala. No novo canal, um programa de auditório mostra mulheres apalpando homens musculosos. A moça sorri de lado como se tivesse tido uma boa ideia e sai da sala. O rapaz lança um olhar interrogativo para ela (fica sem entender). O apresentador vira para a plateia, predominantemente feminina e pergunta:
– Vocês gostam?
– Sim! – A plateia aos berros.
– Quem quer pegar?
– Eu, Eu, eu, eu, eu! – Gritavam as mulheres à beira da loucura.
Em direção à porta de saída, Laura grita:
– Vou à farmácia.
Joca só ouviu as palavras da irmã, não olhou a movimentação dela. O rapaz nem mesmo ouviu o barulho da porta batendo e da chave rodando no trinco. Ele não acreditava no que assistia naquele momento. Mas, a partir dali, não se importou mais com cabelos brancos ou ausentes, nem mesmo com barba por fazer. Joaquim começou a suspeitar que as mulheres da atualidade gostam mesmo é dos siliconados. Pensou eu gastar a mesada juntada para comprar o primeiro carro em implantes mamários. De repente, saiu dos pensamentos narcisistas e dialogou consigo mesmo.
– Farmácia!? Humm! Balconista Geraldo Nogueira.Vulgo Alexandre Frota! É minha Irmã, te peguei!
Adorei!
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Essa coisa de ser careca tá ultrapassada, né!?
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demaissss
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🙂
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