Jaider Batista: “É Preciso Aprender a Conviver.”

por Dilvo Rodrigues

A primeira vez que conversei com Jaider Batista foi durante a minha primeira graduação, em jornalismo. O ano deveria ser 2008 ou 2009. Depois da palestra dele, naquele dia, fiquei com uma frase na cabeça que ele repetia constantemente na fala: “É preciso aprender a aprender!”. Em Janeiro, Jaider, que é Secretário de Educação de Governador Valadares, professor e jornalista, aceitou receber o Meras Cronicas para uma entrevista despretensiosa sobre internet, jornalismo, comunicação e política.

Meras Crônicas – Você escreveu uma série de crônicas a respeito da sua última viagem a Angola. E o que me chamou atenção foi a dificuldade e a engenhosidade necessária para se conseguir uma conexão de internet por lá. O que você acha que vai acontecer mais rápido: A internet banda larga chegar a Angola com força total ou o jornalista brasileiro ser mais valorizado?

Jaider – Acho que o caminho da internet é chegar a qualquer canto, não tem mais condição dela não chegar. As pessoas buscam janela de conexão com o mundo. Se os governos não dão conta disso, os indivíduos vão buscando por si. Eu saí daqui [do Brasil] com um celular simples, apenas para ter a agenda de endereços, por que eu não cuidei da possibilidade de usar telefone daqui lá em Angola. Quando eu cheguei, o meu “motorolazinho” estava em tudo quanto é canto. Os laranjinhas, como são chamados por lá, estavam a três dólares americanos. Ou seja, essa popularização dos aparelhos celulares em toda África, a preços bem baixos, é uma massificação que se dá na perspectiva do uso de Internet. E já há outras maneiras de conseguir uma conexão com a rede. Por exemplo, em alguns lugares da Amazônia brasileira, eu tive dificuldade para conseguir uma boa conexão dentro do hotel. No meio da floresta, em uma aldeia, já conseguia um sinal através da internet por satélite. Então, há maneiras de se conectar que não passam pelas operadoras ou governos, como é convencionado hoje.

Em Angola, estive em uma midiateca do governo. Todas as mídias digitais estão ali, concentradas nesse espaço. Eles estão construindo várias unidades em todo paí. Essa é uma maneira de, primeiramente, aproximar as pessoas com bons níveis de educação ao uso da internet e das mídias digitais. É claro que você tem um aparato de país de primeiro mundo na midiateca, enquanto do outro lado da rua não tem um sinal se quer. Hoje Angola é um dos países que mais crescem economicamente no mundo, então há a possibilidade de eu chegar lá no ano que vem e o quadro ser bastante diferente.

Agora, sobre os jornalistas, eu penso que eles não são valorizados em Valadares. Em muitos lugares, eles o são. A usura e a obtusidade dos donos de jornais estrangula qualquer possibilidade de reconhecimento do valor do jornalismo. Até por que eles não querem fazer jornalismo, eles querem empregados servis que reproduzem releases e garantam que o jornal esteja no forno para sair no dia seguinte. Não interessam em manter quadros e desenvolver profissionais, reter gente inteligente nas redações. Eles sabem que podem dispensar, já que haverá outros. Nós precisamos constituir outra rede de comunicação em Valadares e, ao invés de as pessoas formadas ficarem esperando aparecer um patrão iluminado e com a compreensão adequada do valor do jornalismo para a democracia, que elas se juntem e disputem o mercado.

Nós poderíamos ter cooperativas de jornalistas, de doze ou dez profissionais capazes de colocar um jornal na rua. Por que só programa de buraco de rua e de crimes é que consegue espaço na nossa televisão local? Acho que nós falhamos na formação do jornalista, falhamos na capacidade de formar pessoas capazes de gerar seu próprio emprego. Temos um monte de gente com diploma na mão, mas que está perdendo a capacidade de fazer jornalismo. Isso por que as empresas são ruins, os empregadores são péssimos, mas que também não conseguem fazer por conta própria, não são capazes de chegar e dizer: “Eu não preciso me submeter a esse patrão ou a essa empresa. Vou fazer meu emprego. Vou disputar o espaço, comprar um horário na TV e fazer um programa interessante.”. É improvável que a população tenha gosto pelos péssimos programas livres de TV que nós temos por aqui. O mais provável é que a população não conheça outra alternativa devido à preguiça dos jornalistas, que não estão oferecendo algo diferente.

Meras Crônicas – A alguns anos atrás você esteve na faculdade de jornalismo da Univale. Eu era um dos estudantes que estavam na plateia assistindo sua palestra. Me lembro de uma frase que você dizia muito. “É preciso aprender a aprender.” Olhando para o momento que a gente vive na sociedade atual, pegando essa questão da intolerância e terrorismo, essa frase faz menos ou mais sentido para você?

Jaider – Ela faz todo sentido com a internet. Se você aprende a aprender, sem orientador ou professor por perto você vai fazer sua própria busca do conhecimento. A internet é uma ferramenta que nos permite isso, mas não é a única. Quem gosta de aprender e desenvolver por si mesmo pode fazer isso em qualquer circunstância. A internet potencializa isso. Você pode aprender idiomas, fazer negócios, estabelecer novas relações e, isso sem precisar de um tutor. No livro “O Mundo é Plano” (Thomas L. Friedman), o autor conta uma história muito interessante. Os Mórmons recomendam que suas mulheres não trabalhem fora, aconselham que elas cuidem do trabalho doméstico. Mas todas elas são altamente escolarizadas. Com a Internet, essas mulheres criaram um espaço imenso de trabalho sem sair de casa. Então, elas continuam cumprindo o preceito religioso de não sair de casa para trabalhar, mas conseguem trabalhar a partir de casa no mundo inteiro. Elas podem trabalhar em uma empresa de Cingapura, morando nos EUA. Hoje a questão nesse tipo de família é que as mulheres tem salários muito melhores que os maridos que saem todo dia para trabalhar. No fim do dia, os maridos se relacionaram apenas com os colegas de fábrica, enquanto a mulher viajou o mundo inteiro. Ela participou de uma conferencia no Japão, ela fechou um negócio com pessoas no Uruguai, sem sair de casa. Então a internet é um espaço de abertura de aprendizagem que inverte e cria condições antes não previstas.

Meras Crônicas – Pelo visto, você acredita que a internet é o grande motor da humanidade, o grande motor das mudanças e discussão que se busca hoje no seio da sociedade.

Jaider – A internet pode revigorar a democracia. Eu não tenho dúvida que se não fossem a centenas de grupos e blogs organizados na Internet disseminando informações no último período eleitoral, o projeto que o PT representa hoje teria perdido as eleições. Por que com a grande mídia apoiando o projeto conservador do candidato Aécio Neves (PSDB) e, quando conveniente, ao da Marina ou do Eduardo Campos, o debate e a informação ocorreu nas mídias sociais. Ali é que estava o cidadão comum buscando informação por ele mesmo. O Cidadão mais crítico que não acreditava no que a grande mídia estava reverberando estava no debate nessas redes. E isso “viralizava” o tempo todo. Essas eleições foram decididas nas mídias sociais.

Meras Crônicas – Mas ainda sim com bastante influencia da mídia tradicional. Se a gente for ver a questão da Marina, que estava mudando algumas opiniões dela, mudando de forma até progressista, isso foi usado para dizer que ela não era uma candidata coerente. Como se um candidato tivesse de sustentar um posicionamento e não pudesse mudar durante a carreira política.

Jaider – O Político pode se reinventar, mas é preciso que ele construa uma narrativa coerente. O grande dano a imagem da Marina no processo eleitoral foi relacionado à falta dessa narrativa. Por exemplo, faz falta e fez falta ao Brasil durante as últimas eleições um candidato ou candidata que falasse a partir do Brasil do centro-norte, da Amazônia. Quem poderia ter feito isso? A Marina, que é filha daquela terra. Mas ela resolveu sustentar uma narrativa tomando como referencia a Avenida Paulista. Se tornou, em certo momento, a candidata da banca financista de São Paulo. O Brasil não quer que São Paulo governe o país. Desde o presidente Rodrigues Alves, o Brasil não é governado por paulistas de nascimento. Ou seja, o país teme o que uma hegemonia de pensamento paulista possa causar. E quando eu digo isso, não é o povo paulista. É o sistema financeiro que está ali representado na Avenida Paulista, que representa concentração de riqueza e um país que não exerce a sua hegemonia plena, se submete a ser uma economia periférica. A maior parte do Brasil tem optado pela distribuição de riqueza. Você vê a indústria automobilística em Pernambuco, na Bahia; Vê aeroportos de grande porte na Amazônia; portos e rodovias e ferrovias cortando o país. Então, ha outro país em desenvolvimento que o discurso da Marina não incorporou. Ela deixou de ser representante do que ela sempre foi, que eram os povos da floresta, a Amazônia brasileira e os povos indígenas.

Meras Crônicas – Outro dia assisti uma entrevista do sociólogo Domênico de Masi. Ele é um estudioso do Brasil, da cultura brasileira. Nessa entrevista, ele afirmava que era chegada a hora dos países emergentes contribuírem com o resto do mundo. Segundo ele, o Brasil poderia ser um modelo a seguir devido ao povo ser tolerante às diferenças, amistoso, alegre. Você consegue projetar o Brasil, como uma referencia cultural nesse sentido?

Jaider – A única guerra que o Brasil se meteu contra um vizinho, já tem uns 140 anos. Isso por que o país foi agredido, demorou 15 anos para decidir entrar nessa guerra. Naquela época, D. Pedro II dizia que a entrada no conflito iria atrasar o desenvolvimento do país em trinta anos. Os documentos da época revelavam um arrependimento da participação na guerra. Nas Guerras Mundiais, o Brasil também só participou depois de ter sido agredido, depois de ter navios afundados. Na Segunda Guerra Mundial, o país entrou, mas negociou vantagens. Parte do nosso primeiro parque industrial foi um “ganho de guerra”. Nós votamos contra todas a moções de guerra na ONU e participamos em missões de paz mandando tropas para diversos lugares do mundo. Então, o Brasil se tornando uma potencia econômica e cultural, o fato de nós não sermos fomentadores de conflitos, não termos problemas de fronteira com os vizinhos e não sermos uma ameaça internacional, faz do país um lugar convidativo.

É claro que nossa violência interna ainda não permitiu com que esse papel de atratividade seja exercido com todo potencial. Mas, com um país cada vez mais rico, menos desigual e, quiçá, menos violento, é claro que existe um potencial sim de ser uma referência. E aí, nós vamos ter de nos educar para conviver. Não apenas para aprender. Nós não podemos tomar como inatural o fato de um muçulmano e um judeu trabalharem juntos. É preciso educar as novas gerações, por que ninguém nasce sabendo conviver bem, as pessoas aprendem a conviver bem. Precisamos investir numa educação para o convívio e nessa ideia de um Brasil tolerante, aberto e multicultural.

Eu li hoje no jornal que o fato de nós termos recebido 6 mil refugiados no ano passado é motivo de preocupação de algumas autoridades. Esse país precisa dos estrangeiros. A nossa população tem passado por um processo de envelhecimento e, até para manter o nível de emprego e de produtividade, nós vamos precisar não é de seis mil, é de milhões. Aqueles que queiram vir e vejam na nossa terra um lugar de oportunidades, como aqueles que vieram no período do império ou depois da Segunda Guerra Mundial. Então, o grande desafio deste século é aprender a conviver. Se aquela palestra que fiz para você fosse hoje, eu mudaria a minha fala para: “É preciso aprender a conviver.”

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