O Triste fim do Palhaço Leopoldo Part.II

por Dilvo Rodrigues

Eram oito da manhã de uma terça-feira, mas não fazia diferença. Era apenas mais um dia começando. Um dia que logo iria se tornar noite, uma noite que iria se tornar outro dia e assim sempre. Quatro a cada cinco pensamentos eram questionamentos de “por que fazer isso?” ou “por que fazer aquilo?”. O quinto pensamento abarcava todos os outros quatro, sempre dizia: “Isso tudo não faz a menor diferença.” E começava tudo outra vez. Era mais um dia que acordava, olhava o nariz de palhaço em cima da cômoda, que ele jurava ter removido à gaveta antes de ir dormir. O circo havia ido embora, nunca mais nem mesmo o barulho dos sacos de pipoca sendo arrastados pelo vento. Nunca mais!

O Palhaço Leopoldo havia jurado de pés e mãos juntas que nunca mais pisaria em um picadeiro. Ele se sentia como um amante abandonado quando o amor lhe era mais caro. Na noite passada, havia sonhado com um mágico que o obrigava a voltar para o circo. Se Leopoldo tentasse fugir pelas portas dos fundos, o mágico criava uma porta que o fazia voltar novamente ao picadeiro. Se ele se escondesse debaixo de um pedaço de lona qualquer, quando ele fosse bisbilhotar, para ver se a barra estava limpa, dava de cara com a plateia aos risos. Ele sempre despertava desses pesadelos bem cedo, todos os dias, mas o desgaste era tanto que só levantava da cama depois do meio-dia. Ele, então se sentava na beirada do colchão, pegava a blusa esquecida na cabeceira da cama e abotoava calmamente. Depois, colocava os pés numa pantufa velha e mal cheirosa, levantava-se vagarosamente e pensava: “E hoje, o que irei fazer da minha vida?”. Muitas das vezes, a resposta era se dirigir para um banho demorado e gelado.

A água gelada batia nas costas e nos poucos cabelos do palhaço Leopoldo, ele ficava imóvel e por um lapso de tempo e de espaço ele se sentia fazendo travessuras no picadeiro. Era como se cada gota d’água batesse no seu corpo como confetes jogadas por uma plateia admirada e feliz. E saudava a plateia pelo carinho, quando alguém gritava:

– Sorria, sorria, sorriaaaa.

Ao abrir os olhos, não havia nenhuma criança sorrindo com os dentes sujos de bala, de chicletes ou de pipoca. Apesar de jurar ter visto alguns poucos confetes serem sugados pelo ralo, tudo era uma gélida e pálida parede azul e uma cortina velha que fazia as vezes de box. Rodava a torneira rapidamente e decretava o fim do banho.
Quando indo do banheiro para o quarto, passando pela sala, Leopoldo viu um menino com uma cartola na cabela e com a boca toda azul. O garoto segurava um sacola de pirulitos azuis e oferecia um deles ao velho.

-Eu não posso mais. Já sou velho para essas coisas.

O garoto permanecia com o braço estendido, oferecendo o pacote de pirulitos. O palhaço começava a se perguntar: “Afinal de contas, como o garotinho havia entrado na casa, que estava toda trancada!?”

– Como você entrou aqui?, questionava enquanto caminhava até o menino.

O garoto recolheu o braço, olhou fixamente para Leopoldo e disse:

– Sorria, Sorria, sorriaaa.

E Sumiu sem deixar fumaça qualquer, num passe de mágica de verdadeiro mistério. Inexplicável! Leopoldo deu de ombros com a imprevisibilidade de tudo aquilo. “É só uma outra coisa sem importância.”, pensou consigo. Porém, um pensamento novo lhe atormentou: “Estaria eu me tornando um louco? Sonhos com circo, crianças que chegam e que vão do nada, oferecendo pirulitos.”. Ele não acreditou na possibilidade e continuou sua rotina normalmente. Chegou ao quarto e olhou em volta e ficou pensando nas risadas das crianças, no rostinho delas em admiração quando fazia um botão de rosa florescer com suas próprias lágrimas. “Tá faltando sorrisos!”, era fala que sempre repetia para que as mágicas atrapalhadas dessem certo. Ele lembrava de tudo agora e chorava. As lágrimas encharcavam o chão debaixo da cama onde ele estava sentado.

-Acalme-se Leopoldo, dizia a si mesmo.

Depois de calmo, o velho palhaço procurou vestir uma roupa diferente. Abriu as gavetas e encontrou a blusa que mais gostava de usar nas folgas do circo e a calça mais bem costurada e nova. Mas, não achara o sapato que tanto gostava. E procurou dentro das gavetas do guarda-roupa, dentro de um cômoda velha, atrás do guarda-roupa e atrás da cômoda e nada do sapato.

– Onde ele poderia estar?, perguntava a si mesmo.

E foi na sala, procurou embaixo do sofá, atrás da geladeira, na varanda e nada.

– Onde o bendito está?

E aí Leopoldo lembrou que os sapatos e várias outras coisas costumam ficar perdidas debaixo das camas. Ele se achou um tonto, mas foi feliz de volta ao quarto. Abriu a porta, se aproximou da cama e segurou na cabeceira dela. Ia se abaixando com cuidado, já que o corpo não era mais jovem. Ele foi se abaixando, ao mesmo tempo sorria, piscou o olho e quando o abriu novamente olhou para debaixo do móvel; levou um susto.
Parecia ser um outro passe de mágica desastrado, desses que só ele sabia fazer. Ele não achou o sapato. Notou que as lágrimas choradas momentos antes tinham secado. O Palhaço tinha encontrado uma porção de flores desabrochadas bem embaixo da sua cama.

Para conhecer o primeiro capítulo da história do nosso Leopoldo, acesse:

https://merascronicas.wordpress.com/2014/02/19/o-triste-fim-do-palhaco-leopoldo/

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