por Dilvo Rodrigues
Leopoldo pegou as flores debaixo da cama. Olhou cada uma delas cuidadosamente, como se fossem amigas de longa data. Elas estavam perfumadas e vistosas, como se estivessem recentemente colhidas pelas mãos de um jardineiro fiel, gentil e cuidadoso. Acabou achando os sapatos que procurava, estavam bem atrás dos botões de rosa. Colocou as flores sobre a cama, pegou os sapatos com alguma dificuldade e voltou a se sentar na cama para calçá-los, amarrou os cadarços cuidadosamente, se levantou e olhou no espelho na porta do guarda-roupa, posicionado ao lado da cama. Conferiu os poucos cabelos que lhe restavam, o bigode branco que nunca aparava e a camisa desgastada pelo uso ainda lhe caía muito bem. As calças eram novinhas e os sapatos feitos sob medida. Leopoldo enfiou as mãos dentro dos bolsos, precisava de algum dinheiro para a condução. Havia alguns trocados num porta-jóias de madeira improvisado como “porta-dinheiro”. Jogou todas as moedas no bolso, um barulho danado a cada passo que dava, pegou as rosas e foi saindo de casa, esquecendo de trancar as portas e fechar as janelas.
Andou dois quarteirões, chegando no ponto de ônibus. Onde já estavam duas senhoras.
– Que rosas bonitas! O senho é floricultor?
– Não. Elas apareceram debaixo da minha cama, num passe de mágica.
– Rosas não brotam debaixo de camas, meu senhor.
– Aahhh, mais essas sim. Estão até com cheiro de quarto arejado, confortável, roupa de cama limpa, banho tomado.
“Esse homem deve estar louco!”, comentou a segunda mulher com a dita que havia puxado papo com Leopoldo.
– Toma aqui, uma rosa para o dia da senhora fica mais bonito. Uma para a senhora também e outra para você!
O ônibus vinha vindo. Leopoldo se despediu das companheiras no ponto de ônibus e estendeu o braço.
– Boa tarde, seu motorista!
Na roleta, por uma das janelas do coletivo, Leopoldo vê as rosas todas no chão. Quis pedir ao motorista que parasse, mas o sujeito já arrancava com toda velocidade.
– Povo insensível!
O ônibus ia passando pela cidade e Leopoldo revendo a “belezura” da Catedral Central, onde fizeram o primeiro espetáculo na cidade.
– No começo o Padre achou que não era coisa de Deus. Mas, depois ele viu todo mundo se sorrindo, todo mundo se brincando e todo mundo por ali. Se o circo tava perto da Igreja vai ver foi porque Deus quis mais um pouco de alegria. E o que Deus há de querer, não deve de ser coisa ruim. – Dizia ele para um jovem senhor, que indicava não dar ouvidos aos devaneios de um velho palhaço.
– Aceita um rosa?
– Homem não ganha rosa de presente! – Disse o senhor!
– Pois eu ganhei foi um dezena de flor hoje. Não sou homem? – Deu de ombros Leopoldo voltando a olhar para janela do lado ao que estava.
Alguns segundos depois o homem havia sumido e Leopoldo não se lembrava se a condução tivesse parado e o sujeito dado de galope a descer. Na verdade, não havia ninguém dentro do ônibus, que seguia cidade afora. A vendinha do Tião, depois de cair numa estrada de pé de moleque, chegava o “buteco” do estudante, que de estudante só tinha o nome porque todo mundo já era mesmo profissional do copo. Tinha ouvido muito falar da famosidade do bar, mas nunca antes o frequentara. Era o ponto final. A porta se abriu, e Leopoldo saiu meio atrapalhado com as flores na mão. Sem entender onde estava e por que estava naquele lugar.
Entrou no “buteco” e pediu um gole d’água. Bebeu metade do copo. A outra metade foi borrifando com as mãos cada botão de rosa.
– Que lugar é esse, seu moço?
– Ponto final, Buteco do Estudante.
– Sim, mas que bairro?
– Bairro dos palmares.
– Moço, que mal lhe pergunte, por que chama buteco dos estudantes?
– Antigamente, ficava um circo ai pra baixo – disse apontando a direção pra rua – e ficava uma “renca” de “mulecada” acabado de saído da escola, pra mode aguarda esperar o espetáculo se inciar. Na época, a gente nem vendia cachaça. Ganhava dinheiro era com doce, bala, chiclete, pipoca, milhopan, pé-de-moleque e outras coisa de gosto das crianças.
– Que circo é esse que eu nunca ouvir falar, seu moço!?
– O mesmo que antes ficava na praça da Igreja.
Leopoldo foi em direção a saída do estabelecimento. O balconista continuava a falar.
– Agora por lá só tem aquela lona velha, uns viajante que vez ou outra passa uns descanso na arquibancada, no meio dos “cupim” e os vira-lata que aproveita a cobertura pra fugir da chuva.
A voz do homem ia ficando distante, quanto mais o palhaço aposentado se aproximava da porta. Saindo dela, a distância, olha a lona “carcumida” pelo tempo. Não acreditava, que por uma força do destino chegasse novamente a colocar os pés naquele lugar. Havia jurado ali nunca mais estar. Mas, se fora levado naquela direção novamente, devia de ser por algum motivo.
Chegando na lona viu um sujeito e um cãozinho sardento brincando com uma bola de pano bem no meio do lugar onde ficava o picadeiro. O homem driblava o cachorro pra lá, driblava pra cá, passava a bola por debaixo do cachorro, dava chapéu e drible da vaca no coitado do cão. O Animalzinho esmorecia, desanimava de pegar a bola, botava a cara no chão e ficava lá, na espreita de um vacilo. Leopoldo via a cena e só achava que faltava o respeitável público.
– Olá, tarde!
– Tarde, senhor! Anda perdido por essas bandas?
– Não, acabei de me encontrar – disse Leopoldo, enquanto apertava a mão suja de terra do sujeito. Os dois se olharam, num sentimento quase fraternal. – Tem muito tempo que vive aqui?
– Uns dois dias.
– E o cachorro?
– Apareceu sem explicação e acabou ficando. Também, onde tem comida não precisa ser cachorro pra querer ficar.
Nesse tempo o “bichin” já havia estraçalhado a bola de pano.
– Vai presentear alguém com as flores?
– Uma para você e outra para o cachorrinho.
– Sorria, sorria, sorria, Sr. Sem Nome”! Ganhamos flores hoje!
– Sr. sem Nome é o nome dele?
– Sim, senhor! Eles não precisam de um nome bom, para crescerem só precisam de carinho.E quando falta algo a gente sempre tenta tirar um coelho da cartola.
– É verdade!
Os vestígios de sacos de pipoca ainda estavam por ali, no meio do mato. O vento passava com força, que começava a arrancar as pétalas das rosas. Leopoldo ficou inconformado. As pétalas pairavam no ar feito uma chuva de confetes, ofuscando sua visão. Quando as rosas caíram o homem havia desaparecido. O cachorrinho entrava por uma cortina azul. Sr. Sem Nome entrava vestindo seu terno canino brilhante e um chapeuzinho preto. Leopoldo mirou mais uma vez as pétalas no chão, notou lágrimas no rosto, mas ouviu sorrisos infantis, grãos de pipoca no chão. Sr. Sem Nome se aproximou de Leopoldo fez uma reverência, não à ele. O Palhaço Leopoldo então dirige o olhar para onde ou quem o cão faz os cumprimentos. Ele também quando se deu conta, estava numa pose de reverência, apesar de acreditar que se abaixava daquela maneira para catar as pétalas no chão.
– Falta jujuba!!! – Leopoldo ouvia uma voz de criança.
– Falta sorriso! – outra voz infantil.
Foi se recompondo, voltando a forma ereta, mas, no movimento, ia notando calçados infantis, canelas infantis, shorts e calças infantis, camisas infantis, sorrisos infantis, e penteados infantis. Um adulto ou outro morrendo de rir, várias crianças, vários adultos, uma plateia abrigada por uma lona de circo novinha. Os botões de rosas estavam nas mãos dele, como se tivesse acabado de desabrochar, despertados por uma gota d’água, jogada cuidadosamente por um jardineiro fiel e cuidadoso.
A audiência aos risos e dores de barriga.
– O Espetáculo está chegando ao fim, senhoras e senhores! Eu também sei tirar coelho da cartola, senhoras e senhores! Vocês querem ver?
– Sim.
– Vocês querem ver?
Ele jogou um pirulito dentro da cartola, acrescentou confete, um apito e uma ratoeira.
– O que tá faltando?
– Pipoca! – gritava um – Jujuba – gritou um sapeca outra vez – arco-íris – gritou uma menininha na primeira fila.
Ele levantou o dedo indicador e ao mesmo tempo ia dizendo: “Não, não, não, senhoras e senhores. Tá faltando sorrisos.”. Ele se aproximou de várias crianças pedindo para que elas sorrissem dentro da cartola. “Sorria, sorria, sorriaaaa.”. E tampou a cartola com uma das mãos para que os sorrisos infantis não fugissem. Leopoldo olhou todas as crianças, olhou o caozinho sardento que agora o acompanhava, as rosas e voltou novamente para a plateia.
– Precisa de muitos e muitos e muitos sorrisos! – Destampou a cartola com as mão, a trouxe perto dos lábios, fechou os olhos e sorriu.