Livros; Pobres Coitados

por Dilvo Rodrigues

A velhinha caminhava bem lentamente, com passos curtos, ia segurando a bolsa, quando o segurança do estabelecimento chegou e fez uma abordagem: “A senhora vai para algum curso?” Ela, com um misto de carinho e impaciência respondeu: “Não, meu senhor, estou indo mesmo pegar um livro.” O segurança então explicou que ela não poderia entrar com a bolsa na biblioteca. A senhora concordou de imediato em deixar seu pertence no guarda volumes, acenando afirmativamente com a cabeça. O segurança disse que iria mostrar onde ficava o local. Dois passos depois, ela como que para quebrar o gelo da situação disse: “Esses livros são mesmo importantes, hein!?”

Em 2010, fui assaltado por dois jovens, quando saía de uma reunião para produzir um tal de TCC. Vulgo: Trabalho de Conclusão de Curso. Estava andando eu, numa boa, com meu boné, um moletom e um cigarro escondido nos fundos da mochila. Cigarro esse que eu pretendia fumar quando chegasse em casa. No bolso da calça não poderia faltar o bendito do celular. O garoto veio e pediu um cigarro. “Não tenho, brother.” Ele queria menos da uns tragos por aí que desfilar com meu boné de aba reta, de moletom e ouvindo funk no celular que era também meu. “Perdeu!”. Sim, perdi a blusa, perdi o boné, o celular e o único cigarro. Os livros, que estavam na mochila ele não quis levar. “Segura ai, playboy!” Segurei os livros enquanto o “guri” vasculhava minha mochila em busca de qualquer outra coisa. Segurei-os com toda fé enquanto repetia um mantra mentalmente. “Não vão levar os livros. Eles não vão levar os livros. Não vão levar os livros.” Eu não queria mesmo que os livros fossem levados, por que iria ser uma confusão na biblioteca da faculdade. Eu iria ter de desfazer de alguma obra da minha minibiblioteca. Porém, no fundo, eu ficaria até feliz ou espantado se os tivessem levado embora. Se no outro dia aparecesse uma notícia assim: “Menores são apreendidos lendo obras de José de Alencar e Rubem Braga roubadas.”, eu iria correndo na delegacia retirar a queixa.

Outro caso aconteceu ontem mesmo, na biblioteca pública. Enquanto lia um livro do Honoré Balzac, chamado “O Código dos Homens Honestos ou A Arte de não se Deixar Enganar pelos Larápios.” Esse livro é hilário. Nele, o Balzac escreveu algumas dicas que devemos seguir para evitar roubos, assaltados, furtos e outra modalidades praticadas pela malandragem. O Código foi publicado em 1825. Por isso, as dicas dele não valem muito para o nível tecnológico da bandidagem contemporânea. Um dos artigos do código de conduta anti-roubo diz assim: “Nunca desconfie do seu vizinho da esquerda, que usa uma camisa de tecido grosso, uma gravata branca, e uma roupa limpa, mas de tecido barato; ao contrário, acompanhe com muita atenção os movimentos de seu vizinho da direita, de gravata fina e elegante, muitos berloques, suiças, ar de gente honesta e maneira desenvolta de falar; é este quem vai roubar seu lenço ou seu relógio.” Eu rachava de rir dentro da biblioteca. A moça, à minha direita, recriminava meus risos com o olhar. Ela lia “A Coletânea de Flores” de Vinícius de Morais com uma cara tão séria. Talvez fosse uma feminista indignada por ter acabado de ler “Meu Deus, eu quero a mulher que passa.” Ou talvez, fosse insensível mesmo, porque quem lê poesia e não fica com um cara de paraíso não deve ser lá flor que se cheire.

E eu seguia me divertindo com os conselhos do escritor francês, quando, então, passou um vulto moreno perto de mim. Fiquei curioso, o bastante para desviar o olhar das palavras do livro e tentar focar naquele objeto ou ser moreno que se dirigia para o lado da seção de literatura portuguesa. Eram pernas! Não eram quaisquer par de pernas, eram pares de pernas que me fizeram sentir como dentro da poesia “Iniciação Amorosa”, de Carlos Drummond de Andrade. “E como não tinha nada que fazer, vivia namorando as pernas morenas da lavadeira.” Porém, tanto eu como o sujeito da mesa ao lado, que lia as histórias fantásticas de “A Batalha do Apocalipse”, tínhamos algo a fazer. A mocinha da frente, que folheava um livro do Machado de Assis, ao mesmo tempo em que fixava o olhar na garota de pernas exuberantes, também tinha muito o que estudar para, quem sabe, o vestibular de medicina. Mas, não. O Silêncio sagrado da biblioteca foi quebrado por um par de coxas e, os livros perderam mais uma batalha.

Pobres que são, quanto sofreram nas nossas mãos!? Em 1933, queimados pelos nazistas. O que, levando-se em conta as palavras de Heinrich Heine seria um massacre, um assassinato em praça pública. “Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.” Proibidos, listados e catalogados pela Igreja no “Índice dos Livros Proibidos”, no século XVI. O que, na visão de Heine, seria uma verdadeira mordaça. Ah, se os livros tivessem consciência própria! Se eles fossem capazes de formular nas suas consciências uma única pergunta, tenho certeza que a questão que circularia entre eles seria: “Quando esses humanos vão nos levar a sério?” Enquanto a pergunta fica no ar, a única maneira que eles têm para se sentirem valorizados é fazer doer nossos bolsos.

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