#Livro: Memória de Minhas Putas Tristes

por Dilvo Rodrigues

As pessoas 10393880_302938559902224_1105729684904392542_nse apaixonam por cada coisa. Carros, roupas, poder, status. Tá certo, que poderíamos chamar a paixão por esses “objetos” por outro nome. Mas, isso a gente pensa depois. Lembra de quando você se apaixonou por aquele sujeito, só pelo simples fato do modo de como ele mexia nos cabelos ou como ele coçava a barba ou sorria? Pois é, agora imagine um cronista e crítico musical nos seus 90 anos, no dia do seu aniversário, na a intenção de se presentear com uma noite de amor louco, através do corpo de um adolescente virgem! Imaginou? Ele combina tudo com uma cafetina de cabaré, que conhece uma garota no perfil dos desejos do cliente. A jovem estaria no quarto tal e na hora tal. O Momento chega, ele se dirige ao local combinado, com a disposição de provar ao mundo que está vivo, abre a porta do quarto e vê a jovem de costas, nua e adormecida. Quem se apaixonaria por uma garota adormecida? Não é de se estranhar, já que certos cronistas por ai se apaixonam pela sonolência de uma bela moça.

Em “Memória de Minhas Putas Tristes”, o leitor vai acompanhar a narração das memórias sexuais de um senhor, que vive entre a chatice de escrever crônicas para um jornal e aulas de gramática à alunos sem futuro na vida. Escrito por nada mais, nada menos que Gabriel García Márquez e lançado no ano de 2004. No Brasil, foi lançado em 2005 pela Editora Record, com tradução de Eric Nepomuceno. Alguns dizem que “Memória de Minhas Putas Tristes” traz uma reflexão, em forma de romance, sobre o amor na terceira idade. Para outros, é uma ode à vida, um hino de exaltação ao amor. É um livro melancólico, ainda que tenha passagens cômicas e românticas, isso tudo no melhor estilo Gabriel García Márquez. Para deixar claro, não é um “50 Tons de Cinza” da terceira idade. Quando encontra Degaldina pela primeira vez, nosso senhor se contenta em admirá-la e a dormir ao lado dela, o que demonstra certa classe! Não é também um romance de palavras melosas de amor, o título deixa isso muito claro. O personagem foi um sujeito capaz de tratar dignamente todas as mulheres com quem teve suas aventuras sexuais e amorosas, pagando ou não pelos serviços contratados. Talvez essa atitude pareça incomum nos dias de hoje, tanto quanto pareça irreal que um senhor, ao completar 90 anos, se presenteie com tal luxúria.

“Memórias de Minhas Putas Tristes”, que já foi até adaptado para o cinema, tem um pouco de “Lolita” (Vladmir Nabokov) e “Morte em Veneza” (Thomas Mann). Mas é inspirado em “A Casa das Belas Adormecidas”, de Yasunari Kawabata. O que o escritor colombiano não faz questão de esconder, citando Kawabata na epígrafe do livro. Porém, a alma por traz dessa grande pérola do Gabo é da fabulação, do conto de fadas escrito por Charles Perrault, “Bela Adormecida”. Boa leitura!

Carinha de Sono

por Dilvo Rodrigues

Às sete horas carinha de sono costuma chegar. Se senta, deita a cabeça na parede e fecha os olhos, sem se dar conta que elas pareçam mais com os ombros duros e desconfortáveis de um desconhecido qualquer. O sono toma conta do corpo, tanto que passa os braços em si mesma, num abraço de aconchego, nas vezes de um edredom, ou mesmo no abraço de um travesseiro. Um café forte poderia devolver a firmeza das pálpebras, restabelecer as energias. Sabe, carinha de sono, eu gosto do seu olhos a vacilar. Porém, nunca lhe diria.

Sua carinha de sono iria se transformar num “carão” de susto. Não teriam mais os bocejos, o marasmo do olhar, o andar rastejante, a voz embargada. Eu nunca mais conseguiria te pegar olhando afoitamente para o relógio e, perderia aquele ar de “Meu Deus, ainda falta isso tudo!”, quando você se desse conta do tamanho do tempo que resta. Enquanto eu comemoro o tamanho do tempo que resta. Eu não arriscaria isso, assim como um pedreiro nunca arriscaria perder a cena da musa dele passando frente a obra. Ele poderia ser doido para falar, se declarar, mas não colocaria tudo o que tem a perder. Ainda que o tudo, na visão de alguns, seja muito pouco.

Ah, carinha de sono, mas um dia desses eu vou lhe contar sobre todas minhas noites em claro. Lançando mão de artifícios inconcebíveis, proferindo palavras misteriosas e rezas prodigiosas tentando descansar a alma e o corpo, por pelo menos nesta noite. A mesma noite em que penso: “Será que seu olhar soluçante de sono não poderia o meu ensinar a acalmar e a dormir?” Estabeleceríamos um acordo permanente. Todas as noites você poderia vir transmitir seus ensinamentos soníferos, ficando livre assim que o milagre fosse conseguido. Mas como seria para mim acordar sem ver sua carinha de sono depois que o dia houvesse saído!? Como se não tivesse dormido!

Na escola nunca me disseram que o sono era doença contagiosa e que, dependendo da pessoa contaminada, traria os efeitos colaterais mais temidos por aqueles que se glorificam de sua sobriedade sentimental. Esses que vivem dentro de uma caverna no oeste distante, sempre em tranquilidade, paz e silêncio. Esses dos quais não mais faço parte, já que fui despertado pelo canto de algum galo desafinado. É certo que meu sono pode ser nunca mais restituído, mas como seria bom, carinha de sono, ter o seu sempre por perto, comigo! Porém, nunca lhe diria.

Os Três Netos de Dona Ondina

por Dilvo Rodrigues

O Período de páscoa havia chegado e, Dona Ondina começou a se preocupar com os presentes de páscoa dos netos. Ela educava Robertinho, Augusto e Mônica, já que os pais das crianças foram presos ao tentar entrar nos EUA ilegalmente. Dona Ondina trabalha de doméstica, durante o dia. Nos fins de semana, faz bico de cozinheira no Bar do Tião, preparando desde carne de sol com mandioca à coxinha com catupiry. É uma cozinheira de mão cheia, como dizem os mais entendidos da gastronomia popular.

Muito religiosa, dona Ondina não liga muito para os costumes mundanos. Gosta de frequentar a Igreja aos domingo. Quando pode, realiza trabalhos voluntários na Associação dos Moradores da Vila Celeste. Ás vezes sente falta do pagode e da cervejinha do domingo, no bar do Joca, que foi abandonado quando as crianças ficaram na responsabilidade dela. Quer dar um futuro melhor aos três, mas não sabe se vai conseguir.
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Um Coração na Ponta do Dedo

por Dilvo Rodrigues

Quando esbarrei com a Camila Gontijo numa boate, armei o quadro rapidamente e disparei o click.

-Oi, tudo bem? Meu nome é Dilvo. Eu sou jornalista e tenho um blog de crônicas, no qual escrevo histórias de pessoas e algumas estórias bem fantasiosas também. Você toparia contar um pouco a respeito da sua relação com a fotografia?

– Claro! Anota aí meu número e a gente conversa melhor sobre isso.

Foi simples! Peguei o telefone dela, entrei em contato e marcamos um bate-papo, para assim que ela ficasse menos atribulada no trabalho. Uma duas semanas se passaram, até que a fotógrafa me recebeu no seu estúdio.
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