
por Dilvo Rodrigues
Um fato que mudou a vida de Thiago Vinícius Lopes de Oliveira aconteceu quando ele e um grupo de jovens se embolaram uns aos outros, impedindo a saída de alguns ônibus da empresa de transporte público da cidade. Era um protesto contra o aumenta da tarifa e a qualidade de serviço prestado, em meados de 2013. A polícia foi chamada para retirar os manifestantes da portaria da empresa. Ocorria tudo “normalmente”. Os manifestantes faziam o papel de manifestantes. A polícia protagonizava o papel de polícia. O que me chamou a atenção foi a repetição de uma palavra e o bradar de um braço.
– Amor, amor, amor, amor.
Na época, eu voltei o vídeo por várias vezes para ter certeza. Era “amor” mesmo que o rapaz gritava. Eu me perguntava o porquê da palavra e quem era o sujeito que a pronunciava. Era o Thiago.
Dois anos se passaram e eu o encontrei na esquina de duas ruas das mais movimentadas da cidade. Entre os carros, com um rolo de papel higiênico amarrado no pescoço, maquiagem, roupa e nariz de palhaço. Alguns movimentos com malabares, algumas brincadeiras com motoristas e pedestres. E eu me perguntava se aquele cara que estava protestando de uma maneira tão veemente era o mesmo que estava me recebendo com uma voz mansa, tranquilo, de uma forma até carinhosa.
Nos sentamos numa praça nos arredores centro, onde os carros paravam no sinal, os motoristas nos olhavam, ao mesmo tempo que poderiam estar se perguntando: “Quem são? Por que estão?”.
– Aquele momento em que todos nos agarramos, mudou muito de nós. Nos fez acreditar mais ainda ser possível construir uma cidade juntos. Algumas coisas até mudaram, mas não da forma que a gente pensou. Assim vieram as desilusões com os movimentos que supostamente estavam ligados ao desenvolvimento de uma coletividade e eu comecei a pensar em outras formas de exercer meu gesto político.
Durante a conversa, passava pela praça um amigo de longa data de Thiago. Fernando José de Almeida, um dos fundadores de uma ONG conhecida como Cidade Futuro, que fazia um belo trabalho de resgate da história de Valadares.
– E aí Fernando, quanto tempo?
– E aí, pois é!
– Esse é o Dilvo, ele tem um blog de crônicas. Tô contando aquela história lá da Valadarense.
– Que bacana! Aquele foi um momento de energia coletiva, né!? Algo que a gente começa a ver surgir agora. Apesar de a gente não saber exatamente o que essas manifestações e esse momento de questionamento vão nos trazer. As pessoas têm de se apropriar do que é público. É um passo!
A “aula” de cidadania passou por vários assuntos, desde a responsabilidade dos vereadores nos buracos que os funcionários da empresa de tratamento de água deixam abertos por semanas nas ruas, passando por black blocks até chegar no sentimento sobre o que será o futuro desse país.
– E agora?, nos perguntávamos.
Depois de algum tempo, essa pergunta me parecia errada, incompleta. “E agora, como será daqui para frente?”, pensei ser mais cabível.
Até que o Thiago disse um pouco a respeito da figura do palhaço e de como algumas pessoas o ignoram, o que me fez esquecer sobre o futuro, voltei para o agora.
– O Palhaço é um ser que está sempre na corda bamba, que está sempre figurando no equilíbrio do fracasso.
A metáfora perfeita de cada um de nós cidadãos do mundo, deste país. O que se encaixa bem no que diz Jacques Lecoq. “O palhaço não representa, ele é.”
– Um trocado ai senhora!?
– Não tenho. A crise tá difícil, meu filho!
– Tá difícil? Chora não! – E oferece um pedaço de papel higiênico para o motorista lacrimoso.
Eu fico imaginando a cena do motorista aos prantos, reclamando das contas intermináveis com o Thiago, ele oferecendo um pedaço de papel e fazendo aquele coraçãozinho com as mãos. Os outros motoristas rindo da ingenuidade, do ridículo, da aparente inocência do palhaço frente a “tamanho” problema. Quando, na verdade, ele encarna no próprio corpo e na expressão toda a nossa ingenuidade, todo o nosso ridículo e todas as nossas fragilidades. Isso sem parecer que um fardo com todos os sentimentos do mundo está colocado sobre suas costas. É difícil entender um gesto amoroso dessa natureza e não há gesto político mais veemente do que esse.
Me emocionei muito com texto que li, revi as cenas do vídeo e reli o texto. Mais uma vez eu pude visualizar as cenas, do palhaço, do encontro, da prosa na praça. E praticamente podia ouvir a voz de Thiago a pronunciar cada uma das palavras do dialogo mesmo estando tão longe. Thiago sempre foi essa figura de alma pura que acredita no ser humano e na vida. Claro que isso,como ele mesmo descreveu em seu comentário o levou em muitos momentos a desilusões e possíveis atitudes descabidas por puro impulso diante do desejo dantesco de mudança. Então lendo esse texto e o comentário do protagonista, me ponho a pensar, que Thiago é uma pessoa que não cabe nele. É pura poesia em forma de gente. E por isso precisa extravasar para o mundo sua generosidade e amor. Um ser em constante construção capaz de rever suas próprias atitudes, erros e acertos. E que isso é bonito por demais. Me alegro em saber que existem no mundo pessoas como Thiago que vivem suas vidas disseminando amor por onde passam. E me alegro de igual modo em saber que existem pessoas com capacidade de ver e retratar tão bem o que viu em forma de palavras. Com sensibilidade e tempo para ouvir figuras que nem sempre são vistas, entendidas ou ouvidas em sua essência pura. Obrigada pela história tão deliciosamente escrita.
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Obrigado pelas palavras, Rúbia! É bom poder contar histórias de pessoas como o Thiago e de tantas outras pessoas muito especiais. Bom saber que existem tanta gente em quem podemos nos inspirar, não é!?
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Obrigado pela sensibilidade Dilvo Rodrigues , parabéns pelo projeto! Gratidão pela oportunidade de compartilhar parte da minha historia! Ai de mim se não é o cuidado do Senhor Jesus ! Toda honra e Gloria ao nosso maior poeta e artista , que nos ensina o amor , nos constrange dia apos dia com sua palavra de servidão , cuidado com o próximo , perdão… ! A verdade que muitas vezes da nossa vida fazemos as coisas da nossa própria cabeça , acreditamos muito em nossa capacidade , nossa sabedoria ! E queremos mudar o mundo ! Mas mudar o mundo sem arrumar a própria cama é possível ? Penso que não ! Nesta época eu participei de um movimento , potencializava discursos que na verdade eu não tinha propriedade para fazer , estava buscando justiça e muitas vezes não era justo em minha própria casa , gritava amor , mas ainda não sabia ao certo o que era isso…Varias angustias me levaram pra rua , a minha chateação com a injustiça , a falta de amor , a luta contra a opressão ! Podemos manifestar nosso repudio a uma sociedade do terror ,das violências , gritar contra a barbárie , a autoridade vigente , o preço da passagem , o desamor , a sujeira nas ruas e muito mais. Acho ainda necessário e urgente em uma sociedade cada dia mais egoísta , onde o capital determina nossas vidas pelo interesse de poucos que enriquecem com a pobreza , miséria , exploradores de mão de obra , abusadores e tantas outras patifarias! Nesta época o que me levou para a rua foi legitimo , o problema é não perguntar o Senhor se era a vontade dele que eu estivesse lá naquele momento , e até se não precisava me atentar primeiro aos meus gritos internos e alinhar o discurso a pratica ! Lutar pela coletividade é o que creio que precisamos , mas tem tempo para todas as coisas ! ” Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.” Foi parte de um processo também e ampliação de olhares , contribuiu para evidenciar minhas contradições , alem de fortalecer ações de energia coletiva , o fazer juntos , refletir o ser cidadão… Foi importante esta lá naquele dia , foi emocionante , muito intenso , acreditamos na luta e de fato penso que ouve contribuição.Bom refletir! Eu pessoalmente precisava ter feito uma analise sobre quem eu era primeiro , e se tudo o que eu manifestava contrario, eu fazia diferente. Mesmo que eu estivesse certo de que não carregava só um discurso moralista, ainda assim ,creio que o correto seria e é agir de acordo com a direção do Espirito Santo. Não existe injustiça maior ou menor, falta de amor mais leve , egoismo mais tranquilo..Creio que tem o caminho da verdade e o da mentira. O Senhor Jesus permitiu que naquele dia estivéssemos na porta da Valadarense ! Afinal respeita nossa autonomia ! Desejo que a cada dia a obediência seja o nosso gesto de amor! Que estejamos disponíveis para sua soberana vontade ,” Os pensamentos do Senhor são infinitamente mais altos do que os nossos”… “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o SENHOR, porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos.”(Isaías 55:8-9)… “A Alegria do Senhor é a nossa Força”
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Obrigado pelas palavras, Thiago!
Que Deus te ilumine sempre na sua caminhada.
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Eu posso testemunhar a respeito desse ser encantado e iluminado que se chama THIAGO, quando wu o conheci ele tinha apenas 12 anos de idade. Tinha muitos sonhos, o seu lado lúdico aflorava, brincava com tudo e com todos! Muitos riam dele, e eu sorria para ele… Sentia verdadeiramente essa pureza de alma, era só amor! O Amor fez dele o homem e o Graveto que ele é! Poucos sabem de toda sua trajetória, como eu, mas prefiro enaltecer o Grande Homem, Filho, Neto, Irmão, Marido, Pai e Palhaço que ele se tornou… Parabéns meu querido! Pra mim VC é Orgulho sempre! Isso é Sucesso! Um beijo de quem te Ama Muito!
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É muito bacana poder contar um pouco da história dele aqui no blog!
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