
por Dilvo Rodrigues
Aos 13 anos, José Carlos Fernandes saiu de Curitiba, no Paraná, e foi para o interior de São Paulo, onde conviveu com mineiros, gaúchos, goianos, paulistas e outros tantos garotos, que também deixaram suas casas para viver em um seminário. Arrumou a mala, entrou numa kombi e foi para outra cidade, talvez por um chamado de Deus, um experiência mística, ao contrário do que ocorre costumeiramente com adolescentes, que nessa faixa etária começam a sentir mesmo são as vozes da mística hormonal. Longe do seminário, teria sido um jovem “travado”, atrás do balcão ajudaria o pai comerciante e não se tornaria um comprador compulsivo de livros. Especulações sobre o que não aconteceu à parte. Foi uma viagem, uma dobra, um acaso sem o qual ele não consegue imaginar sua própria existência, sua vida.
Naquele tempo, era convidado à mesa das casas de donas e senhores de fé. Fiéis que compartilhavam as mais profundas aspirações da alma e do coração. Ou mesmo, apenas escutava as lamentações daqueles que esperavam a chegada de uma boa nova, sempre reforçada nas preces noturnas aos ouvidos onipresentes de Deus. Quando deixou a instituição religiosa, continuou adentrando casas, apartamentos e barracões, ouvindo atentamente histórias, porém, se relacionando de uma outra forma com o que habita o interior de cada ser humano. Embarcava no jornalismo.
Foi ler Rubem Fonseca depois dos 25 anos. Também Patrícia Melo, João Gilberto Noll e tantos outros na correria de tirar o atraso de vícios e buscar novas perspectivas textuais. Já pensou, numa imensidão de livros, encontrar uma linha escrita especialmente para você? A provocação do escritor Alberto Manguel nunca mais lhe saiu da cabeça, ainda que um tal de Luiz Felipe Pondé o alfinete constantemente. Eliane Brum o presenteou com novos ouvidos, se assim podemos dizer.
Quando convidado para escrever crônicas no jornal, espaço esse outrora dedicado às palavras de um escritor de carteirinha, concluiu que não iria ser de bom grado narrar histórias de homens de sunga, besuntados em óleo e num passeio ciclístico pelo frio curitibano. Quem sabe poderia retratar pessoas em que no momento da entrevista ou do bate-papo fossem capazes de construir um novo discurso sobre elas mesmas. A história do rapaz que aos 39 anos chutou o balde e foi pedalando até o Ushuaia. Um roteiro sobre onde comprar galinha preta no centro de Curitiba. A vida das duas Palmiras da Casa do Estudante. Eram possibilidades que batiam à porta. “Entre por favor!”, ele deve ter dito, com certa dor, é preciso dizer, ao ver as paragens do caderno de cultura ficarem no passado. Dificilmente contaria uma história de cunho particular, jornalista tem dificuldade com o “eu isso”, “eu aquilo”. Sei bem como é!
Certa vez, propôs um exercício aos poucos alunos presentes numa oficina. Eles precisavam listar os dez lugares mais importantes de suas vidas. Depois, apontar os cinco mais importantes e, por fim, ordenar do mais para o menos importante. Ele acabou fazendo o exercício também e descobrindo que um ponto entre a Rua Nunes Machado e Avenida Presidente Getúlio Vargas, a Paróquia Imaculado Coração de Maria, onde aos doze anos participou do clube vocacional, tem uma posição especial no ranking dos lugares que fazem parte do seu mapa afetivo. Foi onde tudo começou. Era o início da viagem, que às vezes, pode passar por trechos de inquietação sobre o futuro. Nada que tire o sono. Na verdade, é um risco pelo o qual todos nós passamos. Qualquer dia desses, você pode descobrir que seu jeito de viver a vida foi uma farsa, que tudo foi uma tremenda mentira e você não passa de uma besta mitológica. É a hora da tua verdade, a verdade libertadora. E se ela chegar tarde demais? É uma pergunta que poderia ser objeto de um próximo texto. Quem sabe não ficamos todos felizes ao revelar algo novo, uma micro história escondida na mística universal sobre a farsa da vida ou sobre a veracidade dela?
“A realidade é dura, não é como pensou a minha geração. A sua geração já sabe lidar melhor com isso, com o romantismo da vida.”, disse. Segundo um amigo psicólogo, é prepotente por querer fazer algo de bom para o mundo e acredita que essa é um angústia adquirida nos anos de seminário. Não acha que tem uma vida extraordinária. Admira quem sabe ser comum, quem encara com tranquilidade as fases da vida e segue viagem, dobras afora, no acaso de histórias.
É sempre muito agradável ler as histórias q vc escreve Dilvo.
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