por Dilvo Rodrigues
Uma promessa quebrada é impossível de restituir. Não tem jeito. Os espelhos também são impraticáveis de conserto, depois que se partem em pedacinhos chão afora. Bem, nunca me deparei com um espelho todo colado, quer seja de Super Bond. Algumas outras coisas são coláveis, acredito. Na verdade, acho que quase tudo é passível de uma resina, uma cola ou uma fita adesiva. Não fica novo, mas perfeitamente usual.
Pra você ver. No século XV, os japoneses desenvolveram uma técnica de restauração de cerâmicas, conhecida como Kintsugi. Nessa técnica, as partes danificadas do objeto recebem uma mistura da resina produzida por organismos presentes nas cascas de certas árvores (laca) e pó de ouro. O Kintsugi acentua a complexidade estética da peça, tornando-a ainda mais valiosa, dizem alguns especialistas. Há casos em que alguns colecionadores de cerâmicas quebravam seus itens de forma intencional para, posteriormente, consertá-las com ouro. Se nos ensinassem a praticar o Kintsugi quando nossas emoções ou sentimentos fossem quebrados, despedaçados, fico pensando. Os psicólogos, psiquiatras e seus anti-depressivos estariam extintos. O desabafo dos ex-amantes dizendo que há outros amores, outras paixões e tanta gente no mundo seriam menos frequentes. Amores, amizades, sentimentos fraternais, esperança e consideração com um fiapo de ouro ali, outro acolá, a vida seguiria, e eles estariam cada vez mais bonitos e valiosos a cada colagem, ainda que não puramente intactos.
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