por Dilvo Rodrigues
Ser criança é berrar e espernear por um pirulito. Depois de uma ou duas lambidas virar para mamãe e dizer que não quer mais e, assim, passar o resto da tarde de castigo. Ser criança é tirar uma dedo do pudim que se insinua na geladeira, deixar a mamãe nervosa ao ponto dela te fazer comer o pudim todo. E, depois de tudo, você nunca mais querer ver pudim na sua frente. É pular o portão para ir brincar na rua, quando os portões não tinham cerca elétrica. Pique-pega, pique-esconde e levar lancheira com suco, maça e um pão para escola faz parte da rotina de uma criança. A garrafa de suco da lancheira sempre vazando faz parte da rotina de uma criança. Ser criança é querer ser professor, bombeiro, caminhoneiro, astronauta ou dançarino quando crescer. Ser musa fitness, político, colunista social e crítico de arte não é coisa de criança.
Se você é criança, aposto que hoje ficou triste por não ter visto o desenho da Caverna dos Dragão, He-Man, Power Rangers, Meninas Superpoderosas ou Cavaleiro dos Zodíaco. Você pode ficar triste também porque a Tia Judite não chegou com um pacote de pipocas Plinc e jujubas. Você pode estar com catapora ou caxumba. E, se tiver com caxumba, provavelmente está com aquela fralda amarrada na cabeça. Ser criança é já nascer sabendo mexer em tablet e computadores, porém nunca entender qual problema de sujar a roupa com terra vermelha da casa da sua avó. Ser criança é não querer dividir a boneca com a irmã ou o carrinho com o irmão, brigar com o irmão e dizer que vai contar tudo para o papai. Porém, se ele não for convidado para a festinha de 7 anos do Pedro, você também não vai. “Onde um irmão não pode ir, o outro também não entra.”, ouvi muito.
Guerra de mamonas, guerra de travesseiros. Aprender a andar de bicicleta com rodinhas. Que couve, alface e cenoura são tão gostosas quanto batata frita, os pais tentam enganar. Ser criança é sempre ouvir falar do menino Jesus e perguntar para a tia da escola por que ele nunca vem brincar com a gente de finquinho, tapão ou salada mista. Nunca chegar perto da Cuca. Andar com estilingue na cintura, bola de gude no bolso da calça. Tem de ter brincadeira com tintas e bolinhas de sabão. Pular corda. Um dia, de repente, gostar da menina mais bonita da escola. A menina mais bonita da escola gostar de você. E isso é o suficiente, ainda que depois você descubra que ela tentou uma simpatia pra parar de gostar de você. Tudo bem! Criança não tem dor de cotovelo. Tem é joelho ralado e a tampa do dedão do pé faltando.
Uma criança usa toda a caixa de lápis de cor para pintar o desenho de uma simples casa no campo e é capaz de criar um mundo numa caixa de papelão. Ser criança é ter sorriso com janelinha, chorar na hora da vacina e ter um bicho de estimação, mesmo que esse bicho seja uma galinha, um rato ou um elefante imaginário. Quando papai fala que, quando criança, viu a mula sem cabeça passar no topo do morro, ficar com inveja branca. E, só pra confrontar, dizer que ouviu a fada dos dentes catando os últimos jogados no telhado. E acreditar que é do teto por onde chegam os presentes trazidos por um senhorzinho barbudo, vestido de vermelho e branco. Não só presentes, mas esperança de um futuro bom para elas e para todas as outras que, infelizmente, não sabem ou não podem apenas viver a coisa boa de descobrir o que é ser criança.