por Dilvo Rodrigues
Uma vez assisti a uma matéria sobre o Minhocão, em São Paulo. O viaduto tinha sido fechado para automóveis, no período da noite, e isso dava destaque para o que acontecia nos prédios ao redor do elevado. Sem o barulho de motores, buzinas, rádio toca fitas ou mp3 dos carros, a reportagem colocava em evidência um fato comum à todos os que moravam ali, a solidão. O que o saudoso Renato Russo cantou ser “O mau do século”, na música “Esperando por Mim”. A mesma solidão que me faz lembrar a história de Christopher McCandless, contada no livro “Into The Wild” e levada ao cinema por Sean Penn. O Drama conta de um jovem que não se identifica com a sociedade onde vive e com as pessoas que fazem parte dela. O Dissenso é tão grande e intenso ao ponto de fazer com que McCandless fugisse, fosse em busca de uma realidade que o completasse. Eu sempre achei que a solidão mais dolorosa acontece assim, quando dentro da sua própria casa, você não se sente parte da família.
Eu não posso dizer que a solidão seja genuinamente ruim. Muitas vezes é preciso entrar em contato com o vazio interior, existencial. Talvez um pouco de solidão seja capaz de nos fazer mais humildes, refletir sobre o que eu sou ou que estou fazendo da minha vida, pelo o quê é realmente importante dar duro nessa vida, por isso sempre acreditei na solidão como um dos sentimentos humanos mais nobres. O filósofo alemão Arthur Schopenhauer disse certa vez que “a solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais”. Mais ainda, pode ser que alguns espíritos excepcionais só possam ser forjados nela. Mas é verdade, é triste viver na solidão.
Estou lendo um livro espetacular. Se chama “Cartas a um Jovem Poeta”, do poeta alemão Rainer Maria Rilke, que foi um dos maiores poetas do século XX. O Livro é um apanhando de cartas enviadas em resposta a Franz Xaver Kappus. Franz estava desejoso de submeter seus poemas ao crivo do já famoso Rilke. Em uma de suas cartas, o grande poeta dizia que “existe apenas uma solidão, e ela é grande, nada fácil de suportar”. Ele continua dizendo serem muitos os momentos em que se quer trocar a grandeza da solidão por uma companhia banal, ter a companhia da “pessoa mais indigna”. Rainer compara a solidão à postura de não entendimento de uma criança sobre o mundo dos adultos. Porém, apesar da falta de compreensão dos acontecimentos, a postura da criança é sábia, já que no seu processo de crescimento ela se entrega ao entender, ao experimentar, ao conhecer. Diferentemente, os adultos se portam na defensiva perante a vida, as pessoas, as coisas e, até agem com certo desprezo. Conclusão: O não entendimento é estar sozinho, na grandeza da solidão. Se colocar na defensiva ou agir com desprezo é apenas agir por puro orgulho ou conforto.
Esse é um tipo de solidão, se assim posso dizer, chamada de solitude, em que o individuo se recolhe de forma voluntária. A diferença da solidão para a solitude é que a primeira sempre vai estar dentro de você, algumas vezes você vai encontrá la, noutras, não. E, se você encontrá-la ou vice-versa, não vai adiantar estar no meio de uma multidão de amigos. O caminho para solidão não é voluntário, você acaba caindo lá sem saber. A segunda, bom, depende. A solitude tem muito a ver com as nossas frases de redes sociais, sobre não mendigar a atenção daquele ser alheio total desinteressado em você. Você faz uma escolha, que muitas vezes se baseia em “antes só, a mal acompanhado”. A solitude também tem seus benefícios, existe muita gente chata, violenta, sem graça, coxinha e cheia dos mimimis por aí, não é mesmo!? Cada um com suas respostas.
“Um dos maiores prazeres concedidos ao homem sobre a terra é o de reencontrar corações que simpatizam com o seu.” A frase é do Chico Xavier. E ela me faz pensar que, até hoje, nunca conheci pessoas que ao se isolar reencontram esses corações. Mas sei de muita gente que mesmo na solidão aprendeu a valorizar aqueles poucos encontrados pela vida, o que pode ter percebido MacCandless ao fim de sua jornada interior. De repente, no auge do seu estado de necessidade e solidão, ele entende que a felicidade só é real quando compartilhada. Uma pena que isso tenha sido forjado no coração dele apenas tarde demais.