Na Saúde, Sim. Na Doença, Não

por Dilvo Rodrigues

– Verônica quer casar.
Disse-me outro dia a própria, se referindo em terceira pessoa.

– Verônica quer casar vestida de branco. Entrar na Igreja repleta de flores, acompanhada pelo pai orgulhoso e comemorada em lágrimas por amigos. Verônica quer encontrar o noivo no meio do caminho até o altar, significando que agora a trajetória é com ele. Subir no altar segurando a mão do futuro marido e olhar nos olhos de um padre sorridente. E quando do momento das alianças, Verônica quer pronunciar as palavras com uma voz de leveza, quer ouvir a voz de veludo do Antônio em declarações de amor, fidelidade e companheirismo eterno.

“Agora o noivo pode beijar a noiva!, Diria o padre” – dizia-me Verônica, às 15h53, quarta-feira, Hospital Erasto Gaertner, Curitiba, estado do Paraná, ao mesmo tempo em que subia lentamente as escadas divinas, para se juntar em um altar com Deus.

Nem sinal do Antônio.

#Filme: Man on Wire/O Equilibrista

por Dilvo Rodrigues

Se no final de Man On Wire (O Equilibrista) você não ficar perplexo, eu não sei mais o que é capaz de te sensibilizar. A história é a seguinte: Philippe Petit é um equilibrista francês que fez uma travessia num cabo de aço preso no topo das duas torres do World Trade Center, a pouco mais de 400 metros do chão, em agosto de 1974. Dois pontos importantes: A distância em linha reta que separava uma torre da outra é de 43 metros. Philippe Petit realizou a travessia oito vezes, ficou em cima do cabo por 45 minutos. Último dado importante: Ele fez isso sem cabo de segurança, apenas carregando uma vara de contrapeso de 8 metros de comprimento. Sim, ele teve o mesmo destino do George Willig, quando escalou a torre sul em 1977; foi preso!

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O Triste Fim do Palhaço Leopoldo Part. III

por Dilvo Rodrigues

Leopoldo pegou as flores debaixo da cama. Olhou cada uma delas cuidadosamente, como se fossem amigas de longa data. Elas estavam perfumadas e vistosas, como se estivessem recentemente colhidas pelas mãos de um jardineiro fiel, gentil e cuidadoso. Acabou achando os sapatos que procurava, estavam bem atrás dos botões de rosa. Colocou as flores sobre a cama, pegou os sapatos com alguma dificuldade e voltou a se sentar na cama para calçá-los, amarrou os cadarços cuidadosamente, se levantou e olhou no espelho na porta do guarda-roupa, posicionado ao lado da cama. Conferiu os poucos cabelos que lhe restavam, o bigode branco que nunca aparava e a camisa desgastada pelo uso ainda lhe caía muito bem. As calças eram novinhas e os sapatos feitos sob medida. Leopoldo enfiou as mãos dentro dos bolsos, precisava de algum dinheiro para a condução. Havia alguns trocados num porta-jóias de madeira improvisado como “porta-dinheiro”. Jogou todas as moedas no bolso, um barulho danado a cada passo que dava, pegou as rosas e foi saindo de casa, esquecendo de trancar as portas e fechar as janelas.

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O Triste fim do Palhaço Leopoldo Part.II

por Dilvo Rodrigues

Eram oito da manhã de uma terça-feira, mas não fazia diferença. Era apenas mais um dia começando. Um dia que logo iria se tornar noite, uma noite que iria se tornar outro dia e assim sempre. Quatro a cada cinco pensamentos eram questionamentos de “por que fazer isso?” ou “por que fazer aquilo?”. O quinto pensamento abarcava todos os outros quatro, sempre dizia: “Isso tudo não faz a menor diferença.” E começava tudo outra vez. Era mais um dia que acordava, olhava o nariz de palhaço em cima da cômoda, que ele jurava ter removido à gaveta antes de ir dormir. O circo havia ido embora, nunca mais nem mesmo o barulho dos sacos de pipoca sendo arrastados pelo vento. Nunca mais!

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#Livro: Memória de Minhas Putas Tristes

por Dilvo Rodrigues

As pessoas 10393880_302938559902224_1105729684904392542_nse apaixonam por cada coisa. Carros, roupas, poder, status. Tá certo, que poderíamos chamar a paixão por esses “objetos” por outro nome. Mas, isso a gente pensa depois. Lembra de quando você se apaixonou por aquele sujeito, só pelo simples fato do modo de como ele mexia nos cabelos ou como ele coçava a barba ou sorria? Pois é, agora imagine um cronista e crítico musical nos seus 90 anos, no dia do seu aniversário, na a intenção de se presentear com uma noite de amor louco, através do corpo de um adolescente virgem! Imaginou? Ele combina tudo com uma cafetina de cabaré, que conhece uma garota no perfil dos desejos do cliente. A jovem estaria no quarto tal e na hora tal. O Momento chega, ele se dirige ao local combinado, com a disposição de provar ao mundo que está vivo, abre a porta do quarto e vê a jovem de costas, nua e adormecida. Quem se apaixonaria por uma garota adormecida? Não é de se estranhar, já que certos cronistas por ai se apaixonam pela sonolência de uma bela moça.

Em “Memória de Minhas Putas Tristes”, o leitor vai acompanhar a narração das memórias sexuais de um senhor, que vive entre a chatice de escrever crônicas para um jornal e aulas de gramática à alunos sem futuro na vida. Escrito por nada mais, nada menos que Gabriel García Márquez e lançado no ano de 2004. No Brasil, foi lançado em 2005 pela Editora Record, com tradução de Eric Nepomuceno. Alguns dizem que “Memória de Minhas Putas Tristes” traz uma reflexão, em forma de romance, sobre o amor na terceira idade. Para outros, é uma ode à vida, um hino de exaltação ao amor. É um livro melancólico, ainda que tenha passagens cômicas e românticas, isso tudo no melhor estilo Gabriel García Márquez. Para deixar claro, não é um “50 Tons de Cinza” da terceira idade. Quando encontra Degaldina pela primeira vez, nosso senhor se contenta em admirá-la e a dormir ao lado dela, o que demonstra certa classe! Não é também um romance de palavras melosas de amor, o título deixa isso muito claro. O personagem foi um sujeito capaz de tratar dignamente todas as mulheres com quem teve suas aventuras sexuais e amorosas, pagando ou não pelos serviços contratados. Talvez essa atitude pareça incomum nos dias de hoje, tanto quanto pareça irreal que um senhor, ao completar 90 anos, se presenteie com tal luxúria.

“Memórias de Minhas Putas Tristes”, que já foi até adaptado para o cinema, tem um pouco de “Lolita” (Vladmir Nabokov) e “Morte em Veneza” (Thomas Mann). Mas é inspirado em “A Casa das Belas Adormecidas”, de Yasunari Kawabata. O que o escritor colombiano não faz questão de esconder, citando Kawabata na epígrafe do livro. Porém, a alma por traz dessa grande pérola do Gabo é da fabulação, do conto de fadas escrito por Charles Perrault, “Bela Adormecida”. Boa leitura!