Sapatos por Engraxar

A cena do homem sentado numa cadeira suspensa, tendo os sapatos engraxados por alguma outra pessoa sempre me intrigou. Na minha infância, primeiramente, eu demorei a entender a cena em si. Ficava me perguntando por que um sujeito precisa se sentar naquela cadeira alta, todo mundo vendo ele, só por estar bem vestido? Eu passava e não conseguia desviar o olho da feição de quem estivesse lá. Depois de um tempo é que fui compreender a situação. O cara fica numa posição mais elevada para facilitar o trabalho do engraxate, que não precisa ficar todo enjambrado durante o serviço.

Outra incompreensão vinha de um procedimento comparativo, talvez até um pouco ingênuo, mas que para uma criança faz muito sentido. Eu via meu pai sempre engraxando os sapatos dele em casa. Ele tinha todas aquelas ferramentas utilizadas e, vez ou outra eu até acompanhava na tarefa. Ele se sentava numa cadeira dessas de mesa, com um sapato na mão, uma espécie de escova na outra e a graxa no chão. Com pouco, o calçado ficava lustroso. Se não fosse o desgaste das solas, pareceria novo. A segunda indagação nascia então desse fato. “Por que cada um não engraxa seus próprios sapatos, assim como meu pai faz?” Sem dúvida, essa é uma pergunta para a qual não alcancei resposta alguma, em todos esses anos. Esse tipo de comparação já foi feito nas minhas caraminholas em diversos assuntos, um deles é a barba.

Dificilmente uso sapato. Eles saem da gaveta apenas para um casamento, uma ocasião dessas bem especial, a qual a noiva ou noivo, ou o aniversariante ficaria bastante descontente se eu aparecesse de botina e camisa xadrez. Também costumo relutar e declinar a ideia de lustrar o calçado. Toda vez que o fiz, o brilho ficou tão excessivo que me sentia estar com uma daquelas bolas espelhadas de discoteca no pés. Prefiro o sapato social orgulhoso de algumas rugas e simplesmente limpo. Entretanto, sei que existem pessoas que julgam um homem pelo calçado. Por isso, nunca quis parecer extravagante, muito menos desleixado. O certo é que pouca gente ousa levar em conta o quanto de terra, areia e pedregulhos cada um retira do seu próprio sapato, os rabiscos na bico, os desgaste no salto. A graxa então é como uma máscara, um botox.

Ontem, lavei todos os meus calçados, na escova e no sabão caseiro. Sentei numa cadeira de mesa, com um balde de água no chão, esfreguei um por um, da sola ao cadarço. Ao mesmo tempo, me ocorria a história de um quadro do Van Gogh, “O Par de Sapatos”. O pintor teria comprado os calçados para retratar, mas teria achado que os exemplares estavam muito limpos. Por isso, resolveu calçá-los, para uma boa caminhada em um dia de chuva. Por aqui, os meus, depois de lavados, ficaram todos muito limpinhos, que até parece que só agora é que comecei a caminhar pela vida. O sapato social continua na gaveta, acumulando poeira e teias de aranha. Meu pai tem usado tênis, parecem ser mais confortáveis e fáceis de limpar. E, ainda vejo homens sentados em cadeiras elevadas, bem vestidos, com sapatos por engraxar.

No Caminho de Rato

por Dilvo Rodrigues

Todos deveriam dar valor a um bom barbeiro. Não é fácil encontrar um sujeito que corta o cabelo precisamente do jeitinho que a gente quer. Muitas vezes tive sorte, noutras, nem tanto. Hora ou outra, é necessário suportar uma tesourada fora de sintonia ali, um caminho de rato acolá. A verdade é que esses acidentes de percurso se tornam irrelevantes, se o profissional é agradável, educado, piadista. Mesmo porque ficar ali comendo cabelo, respirando cabelo, suando cabelo e em silêncio, é uma chatice da porra.

No salão do Alfredo o movimento é bem tranquilo, nunca foi preciso esperar. A poltrona costuma estar sempre livre. Fato esse que nunca entendi, já que ele faz um serviço de bastante qualidade. Talvez pelo fato de não ser conversador e ser dono de uma expressão pouco simpática, Alfredo afaste os clientes. Ainda assim, sempre me recebe com um bom dia ou um boa tarde, se despede com um muito obrigado, bom fim de semana, o que sem dúvida me faz concluir que Alfredo não é simpático, mas sem dúvida, é um camarada educado. Gosto disso. Para aplacar o comumente silêncio do estabelecimento, o sujeito teve a brilhante ideia de adquirir um rádio, o qual permanece sintonizado nas estações mais populares da cidade. Tem música sertaneja, brega, antiga e notícias de todos quilates e situações cotidianas. Vez passada, a caixinha transmitia a entrevista de um pré-candidato a Presidência da República, na qual o sujeito se descrevia como um liberal, em termos econômicos, e conservador nos costumes. Aquela lorota toda.

– Rapaz, tô pra te dizer que vou votar no Bolsonaro. – soltou Alfredo, enquanto raspava a parte lateral do meu cabelo com a máquina dois.

Tomei um susto. O danado do homem resolveu falar além de suas expressões corriqueiras e educadas.

– Você vai votar em quem? – perguntou.

Eu não sabia o que responder, nem atentei exatamente para a pretensa dúvida do voto dele, com a posterior curiosidade sobre o meu. Fiquei olhando a cara do Alfredo no espelho, ele lá me olhando com a danada da máquina na mão.

– Eu não voto no Bolsonaro, acho ele despreparado. Seria pior que a Dilma na questão do diálogo. Imagina a relação dele com o Congresso, como seria? – argumentei, enquanto o homem terminava com a máquina.

– Mas, então quem você acha mais preparado para o cargo? – questionava Alfredo, ao mesmo tempo começava a preparar a navalha.

Eu engoli seco. O sujeito que nunca conversava, de repente, declara voto no Bolsonaro e, com uma navalha na mão, quer saber em quem eu votaria. Muito esquisito isso, pensei.

– Olha, geralmente voto na extrema esquerda. Nas últimas eleições, por exemplo, votei no Plínio de Arruda, que era do Psol. Nessas eleições, é possível que meu voto vá nesse sentido. Tô achando que seria melhor passar a máquina um e meio aí na lateral do cabelo, emendei. O homem descansou a navalha na bancada, e sem titubear já trocou o pente do aparelho e mandou ver.

– Ah, esses caras são iguais ao Lula, dizem que vão governar para o povo, mas roubam o povo. Comunista não presta! Você é comunista?

Eu olhei para a navalha brilhando, parecia afiadíssima, e o Alfredo é mão firme pra danar. Eu lembrava da época em que morria de paixão pelos ideais comunistas, pensando que até hoje algo daquilo ainda vive em mim. Engoli seco, estufei o peito e disse que respeitava muito os comunistas, questionar o sistema é no mínimo uma atitude louvável.

O corte estava totalmente pronto, restando apenas o acabamento. Nessa hora, sempre reforço que não é pra passar navalha na frente do cabelo e que também não é pra mexer no formato da costeleta. O Alfredo então pega a navalha e passa mais uma mão de álcool na lâmina, que sempre é aberta na minha frente. Naquele momento, minha insegurança havia passado, não temia a possibilidade de uma situação mais dramática. Ele pede pra eu abaixar um pouco a cabeça, encosta a lâmina gelada na minha nuca dizendo:

– Eu acho que no Brasil tinha de ter mesmo uma intervenção militar.
Eu só soltava um “Uhum”, mas por dentro pensava “Putz, fodeu!”
– Pra botar ordem nessa roubalheira. – Enquanto ele ia conduzindo o instrumento lenta e firmemente acima da minha orelha esquerda.
– Uhum.
– Acho que o Bolsonaro vai colocar o Brasil no eixos. Mas não precisa de ditadura. – A lâmina contornava minha orelha direita.
– Uhum.
– Não precisa matar ninguém. – A lâmina de novo na minha nuca.
– Uhum.
– Não é pra raspar na frente, né!?
– Não, não. E também não é pra mexer na costeleta.

Segundos depois, o corte estava finalizado. Alfredo arrematava o trabalho, limpando meu rosto com uma vassourinha repleta de talco. No rádio, o locutor se despedia do entrevistado, que afirmava o bordão ” O Brasil tem salvação!” Eu me levantava, abria a carteira e entregava 15 reais pelo serviço, no mesmo segundo em que o barbeiro pegava fortemente no meu ombro, dizendo:

– Muito obrigado, parceiro. Volte sempre!
– Obrigado eu! Sem dúvida voltarei.

Outro dia fiquei sabendo que Alfredo substituiu o rádio por uma televisão. Viu, desaconselho ir cortar no Salão do Jovandir, além de fofoqueiro, o sujeito parece engenheiro de caminho de rato na cabeça dos outros.

Nascidos da Terra

A cada passo dado nesse solo vermelho, a terra é que deixa suas pegadas nas solas de meus pés. Ao passo que caminho nessa estrada, percebo que o por do sol pretende imitar a tonalidade do chão. Um ponto do céu parece se energizar em vermelho, o que dura apenas alguns minutos. No fim, volto a ficar impressionado com a tonalidade da terra e com o extenso verde dos campos de soja. Além dele, apenas o tonalidade negra do asfalto vence as marcas da terra. Mas isso, só lá muito longe da parte rural da cidade.

A história conta que os solos vermelhos ou roxos são muito férteis. Não foram os que Pero Vaz de Caminha encontrou na Bahia, nos idos do descobrimento do Brasil, mas corroboram a assertiva enviada na carta endereçada à Coroa Portuguesa – “Nesta terra, em se plantando, tudo dá”. Já me peguei pensando que talvez tenha sido retirado dessa terra o pó que Deus utilizou para construir o homem. Por isso, o sangue é vermelho, a carne é vermelha.

Toda vez que volto a essa terra e a toco com meus pés ou com minhas mãos, me sinto regenerar. Como se, pouco a pouco, parte do pó de minha essência tivesse sido perdida pelos caminhos da vida. Aqui, com os pés no chão, as lacunas abertas pela gastura das lutas são novamente preenchidas. A essência com que a força divina me construiu se põe novamente em completude, algo que só acontece nesse regressar. Mas sempre acontece. Por isso digo, não é preciso morrer para voltar à terra, basta viver.

Com um pouco mais de atenção, é possível perceber que não só os homens foram feitos dessa mesma matéria-prima. Por aqui, os cães e gatos estão manchados dela, assim como os cascos dos cavalos, os pneus dos carros, as árvores e as frutas, as aves, os rios, a cidade, que sobrevive dos produtos desse solo. Porém, comemora o pavimento, o anti-pó, a barra da calça sem carrapicho. Que bom que isso é só lá, muito longe da parte rural da cidade. Triste é tentar esconder de onde viemos, o que somos. Me dou conta disso, quando viajo por outras terras tão belas quanto essas.

Certa vez um professor contou ter tido uma doença que o fazia comer terra. Olhando agora para esse vasto vermelho e para tudo que a partir dele toma vida, eu diria hoje para meu caro professor que isso não é doença, que nada. No máximo, é um ritual de autofagia. Ou seja, aquilo que acaba se nutrindo da própria carne, do próprio espírito ou essência. Separar o homem da terra é o pior dos males da humanidade. É como impedir dois irmãos de viverem juntos, ou de retirar um filho da presença do próprio pai ou de sua mãe. Pode ser que seja pior, pois talvez seja a maneira mais radical de apartar o homem de si mesmo. Por isso, não me canso de dizer: É preciso voltar para terra.

Esses Sonhos Imensos

por Dilvo Rodrigues

A senhora tinha sotaque mineiro, desses de gente que mora perto da capital. Nunca havia visto. Chegou sorrindo. Tinha um ar religioso, ao mesmo tempo, uma postura de mulher conhecedora das coisas terrenas. Eu chegava a duvidar. Ultimamente tenho duvidado dessas mulheres que sabem de tudo. Dos homens, tenho certeza, sabem nada.

– Quem é? – perguntei.
– Adélia.
– Adélia quem?
– Adélia Prado.

Ela entrou, se sentou. Ela deve ter olhado para todo mundo e cada um de todo mundo só olhou para ela. Inclusive, eu.

– Senhoras e senhores, temos a honra de receber no nosso Sarau a grande poeta Adélia Prado. – disse o locutor com voz de anunciação.

O sujeito passou o microfone. Ela abriu um folheto qualquer nas mãos e iniciou a leitura em voz baixa. Alguém gritou “Mais alto, Mais alto!”. A poeta olhou para o céu, pediu desculpas, virou a página do folheto e voltou a ler.

– Um grande homem precisa ter um coração, um coração que se apresse apenas em conquistar sonhos singelos. E os pequenos homens? Ah, esses são sonhos imensos.

Continuei sonhando.

 

Nas Linhas das Minhas Mãos

por Dilvo Rodrigues

Minhas mãos estão ficando velhas. Elas começam a tremer ao segurar qualquer objeto um pouco mais pesado, uma bebida por exemplo. A mão chacoalha, depois o antebraço também, o cotovelo fica querendo descansar sobre a mesa e eu me perguntando se alguém notou o quanto elas tremeram, durante meu generoso ato de servir um café. Não comento nada, disfarço um fingimento de nervosismo ou ansiedade. Minhas mãos estão ficando velhas por mais das centenas de linhas e enrugamentos da pele que não existiam antes. Mas agora se fazem presente. Às vezes, chego a pensar se tratar das mãos de outra pessoa, menos as minhas.

Em um das palmas, um linha que começa quase no pulso. Ela corta a parte central da mão esquerda, antes de cruzar a linha da cabeça, fica dupla e chega à linha do coração toda desorganizada. Mas, depois dela, continua num único feixo, seguindo até a base do dedo anular. Na base da mão, ela é mais sulcada, profunda e extensa. E ontem mesmo percebi, ela não tem correspondente na mão direita. A medida que sobe, vai se tornando delgada e rasa. Não me lembro de ter reparado que a linha do coração também fosse tão profunda. Parece ter sido talhada na minha mão por algum escultor pouco consciente da medida de sua força. Se isso mesmo aconteceu, pelo menos foi indolor. Nas falanges dos dedos, a pele enrugou tanto que por um simples esforço de imaginação, começam a lembrar velhas cascas de árvores longevas. E, tudo isso é culpa da falta do estímulo para o uso de hidratantes ou cuidados com a tez, aliados a generosas adições de passagem do tempo. Sem dúvida!

Aquelas mesmas mãos pequeninas que mal conseguiam comportar água suficiente para enxaguar a boca, precisavam da ajuda de mãos maternas, todos os dias, durante um bom tempo, para a simples tarefa de escovar os dentes. Acredito que uma ou outra linha das mãos de minha mãe devem contar essa história, algum riscado entre a linha da cabeça e a linha do coração. Nas de meu pai, de quando ele descascava aquelas suculentas laranjas, naquelas noites, na sala, frente a TV. Sorte das pessoas as quais o tempo escupiu no corpo as belas e pequenas coisas da vida. Às vezes penso que minhas mãos tem ficado mais parecidas com as de minha mãe. Noutras, parecem as de meu pai. Exceto por uma dezena ou duas de linhas que somente eu tenho ou somente cada um deles tenha. Difícil dizer.

Minhas mãos estão ficando velhas e fracas. Agora tenho dificuldade para segurar uma simples caneta, tenho dificuldades para lembrar de como elas eram antes. E de chegar a pensar que tudo está escrito ali, nelas. Basta saber ler. No dia em que eu partir desse lugar para um outro, minha história então estará repousada sobre meu peito. Um livro talvez um pouco pesado e decifrável de alguém que não teve medo de escrever a própria história, mas que gostaria de ter feito leves alterações no curso de alguns capítulos. Me conformo. Certas linhas saem do controle, enquanto outras surgem sem se pronunciar, atropelando algumas outrora estabelecidas.  Minhas mãos estão ficando velhas, tenho sorte. Elas ainda são minhas.