O Santinho do Pau Oco

por Dilvo Rodrigues

A manchete do folhetim local dizia que a Corte Portuguesa iria intensificar a cobrança do Quinto, na região aurífera de Minas Gerais. Avelino se atentara mais a notícia que dava do roubo do santo da Igreja Matriz, sem pistas dos criminosos. No texto, inúmeros fieis se mostravam apreensivos, já que acreditavam que devido ao fato do sumiço da imagem suas preces não seriam atendidas. Avelino passava as mãos no cabelo e começara a se arrumar para a celebração, deixara o impresso sob a tábua da cozinha. Iria à igreja, que ficava à uma légua de distância do casebre onde morava com um gato estrupiado. Se olhou no velho espelho por alguns segundos, uma expressão de “tá bom assim” brotou no rosto, calçou a botina que viu pela frente, jogou a casaca pelos ombros e seguiu rua afora. Hora depois, recebia as boas vindas na entrada da matriz. “Bem-vindo, irmão”, eram as palavras de recepção naquele templo religioso.

Os cânticos iniciais eram animados, a igreja estava bastante animada. Crianças, mulheres, senhoras e senhores de idade. Todos com feição de leveza, coisa típica de pessoas com espiritualidade bem desenvolvida, quem sabe até, em permanente contato com Deus. Não é que a barba por fazer dava a Avelino um aspecto pesado, era o peso dos olhos mesmo, reforçado por olheiras de trabalhador noturno. O fato de não saber a letra das músicas não o incomodou, ainda que tenha tentado disfarçar mexendo os lábios, fingindo acompanhar a bela voz do cantor. Naquele momento, um rapaz bem vestido, bem penteado e cheiroso se sentou do lado dele. O moço sorriu, deu boa noite, perguntou se Avelino era novo por ali, recebendo uma aceno afirmativo com a cabeça. Nunca um olhar, impossível um sorriso. Alguém convidou a todos para ficarem de pé. Todos se levantaram. Os músicos se retiraram do altar e muitas palavras soavam. Avelino só “pescava” as palavras, que para ele só faziam sentido soltas. O Sujeito ali do lado, de olhos fechados, repetia “Amém, meu Deus”, “Amém, meu Pai”, “Amém, meu Deus.” “Podem se sentar.”, disse o padre.

Avelino mal encostou as costas no velho banco de madeira empoeirado, levantou atropelando os pés e os joelhos dos outros fieis no decorrer do assento. Saiu parecido fugindo de um leão faminto. Outras palavras soavam, enquanto ele chegava a saída. Não eram tão nítidas quanto o rosnar da porta se abrindo e fechando às suas costas. Na grande escadaria, quem deu boas vindas parou Avelino dizendo: “Você está pronto para ser salvo?”. Completando ainda que era muito cedo para ir embora. Deus ainda poderia prover muitas graças, naquela noite. E, trazer prosperidade, abrir as portas para um novo amor, um casamento com as melhores bençãos divinas. Era a quarta vez que Avelino visitava aquela mesma igreja. E era sempre a mesma coisa. Chegava, sentava, ouvia algumas palavras, ficava inquieto e ia embora de galope.

Dois meses depois, membros da própria Igreja repercutiam o fato do sumiço do jovem. Algumas descrições da feição dele foram espalhadas pelas redondezas da Matriz. Mais tarde, acabou reconhecido por um comerciante no mercado de café, onde ele caminhava despretensiosamente. Tentou fugir, mas acabou capturado pelos seguranças, que pensaram se tratar de algum assalto ou furto ocorrido por ali. Quando reviraram os bolso de Avelino, encontraram dinheiro e documentos no nome de Rodrigo Gonçalves. Na casa do suposto criminoso, o delegado resgatou o gato do Padre Paulo, adereços religiosos e um santo do pau oco. Quando chamado a delegacia, na presença do responsável pela casa de fundição, Padre Paulo disse que o gato era sim dele, o dinheiro e os documentos eram sim de um fiel costumeiro frequentador das suas missas. Porém, segundo o sacerdote, apesar da semelhança, aquela imagem nunca esteve no altar da igreja matriz. No missa de Domingo, o folhetim com a imagem de Avelino foi distribuídos entre os fieis, com a manchete: “O Santinho do Pau Oco.” No texto, o encarcerado afirmava que a imagem foi parar na residência dele por um milagre de Deus. Amém!

Aguenta o Fardo, Com Fé em Deus

por Dilvo Rodrigues

Quando minha mãe disse que eu iria me chamar Rodrigo, não achei bom e nem achei ruim. Na verdade, eu sou do pensamento de que a pessoa deveria escolher seu próprio nome. Eu, se tivesse esse direito, sem dúvida, iria me chamar José. Iria assinar com todo orgulho na identidade: José Rodrigues Batista. Eu não tenho nada contra meu nome atual, que aliás muito respeito esse Dilvo. Nunca tive problema na escola, com coleguinha enchendo a paciência, destilando a zombaria a cerca disso. Se alguém chegasse e falasse que era feio, a resposta tava na ponta da língua: “Esse é meu nome, e você terá de acostumar com isso. Eu já me acostumei.” Vez ou outra, chegava alguém lá em casa, querendo falar com o Dilvo. Era o Dilvo pai ou o Dilvo filho? – perguntavam. Lá em Porto Seguro, quero falar com o Dilvo? É o Dilvão ou o Dilvinho? Pois é, Dilvo não é um nome propriamente meu. Mas José. Se eu me chamasse José, esse nome seria mais do que meu.

E nem é por ser nome bíblico. Apesar de eu admirar por demais a história daquele José. Imagina só sua mulher aparecer grávida do nada, dizendo que o bebê é fruto do querer de Deus, que o Divino Espírito Santo é que foi feitor da obra de luz na barriga dela? Imagina! Quando, então, Deus fala no pé do seu ouvido, dizendo para você ter fé nas palavras da sua escolhida. Sem desconfiança, de peito aberto na crença de uma promessa, você se prontifica a assumir os cuidados do filho de Deus. Eu acho engraçado quando penso que, na prática, José foi padrinho do filho de Deus. Na minha cabeça fantasiosa fico imaginando Deus chegando para José e dizendo: “Olha, queria que você fosse padrinho do meu filho!” E José respondendo: “Sou só um carpinteiro, Senhor.” No fim, acho que ele se convenceria de assumir o papel dele.

Se alguém me convocasse no chamativo de Zé, no intuito de diminuir minha significância no mundo, eu não me aborreceria. Eu sou filho de Zé, sou neto de Zé, bisneto de Zé e sobrinho de Zé. Zé corre nas minhas veias, Zé é meu padrinho, oficialmente registrado e aceito pela instituição do catolicismo. Zé foi meu irmão nas peladas nos campos de terra cidade afora, atual companheiro de porre nos bares da vida. Minto! Pode ser até que eu me aborreceria. Mas somente pela possibilidade daquele que agora me chama de Zé, não tenha a lucidez de se olhar no espelho e cair na real. A real de que quase todo mundo é José nessa vida. Aguenta o fardo, com fé em Deus.

Talvez meu apelido fosse Zeca, parece descompromissado, ou Joca. Não faz jus. Isso por que, às vezes, a gente também é duro. A gente morre, e permanece. Por isso, José é o nome certo. Tem de brincar e tem de sofrer. Mas o que mais perturba e, na essência, o real motivo disso é que há tantos Zé e Josés por aí, é mais fácil eles se reconhecerem, levarem a vida num senso de coletividade, ainda que danosamente. Você encontra um na fila do banco, no protesto contra o governo ou nas palavras de um texto qualquer. Agora, Dilvo? Meu pai mora longe, meu irmão mora mais longe ainda. Então, só há esses outros dois Dilvos que conheço. Onde é que você encontra outro para dividir as coisas da vida, sentir que está no mesmo barco? Num dia de porre, dizer “Essa eu quero virar com meu xará, Dilvo! Chega mais parceiro!”? Nem na sarjeta! Pois é, muitos nomes nos deixam sozinhos no mundo. Melhor é ser Zé, se confundir com a multidão. Entretanto, muito melhor ainda é ser José. Aguenta o fardo, com fé em Deus.

Quero um Barquinho de Papel

por Dilvo Rodrigues

Quero ter um barco. Quero um desses barcos que a gente pode guiar rio afora até chegar ao mar. E do mar, chegar ao oceano e ficar perdido até não querer mais. Não entendo nada de barcos, veleiros, escunas, iates. Com quantos paus se faz uma canoa? Não sei. Meus barquinhos de papel é que navegavam bem nos tanques de lavar roupa. No tanque, eu navegava pelo Rio Doce chegando até a foz, no litoral do Espírito Santo. Depois, virava meu barquinho para o sul, no objetivo de chegar até Ushuaia. Em águas argentinas, virava de novo, em direção ao Pacífico. Então, rumava para o norte, em busca de chegar em Valparaíso, no Chile. Não sei ancoraria meu barquinho ali ou se o secaria direitinho e, com todo cuidado, colocaria no bolso novamente. Vai que ele precisasse de uns remendos. Acho, quero um desses, que eu mesmo possa consertar. Um barquinho de papel.

Eu gostaria de navegar sempre em águas difíceis, me tornar um marujo profissional. Saber os nomes das correntes marítimas, dos ventos que agitam o coração, dos ventos que acalmam a alma, dos lugares do mar onde seria bom estar com você ou sozinho e de quantas léguas eu deveria passar dos cemitérios de navios e dos espíritos de piratas traiçoeiros. Talvez não fizesse sentido preocupar tanto com isso, já que meu barquinho de papel estaria a mercê de tubarões, cachalotes e tempestades as mais implacáveis. E aí, se eu tivesse de fazer uma parada forçada em uma ilha deserta, refazer todas as avarias, usar um material mais resistente, tipo papelão? A pena é que não teria mais como guardá-lo no bolso, precisaria andar com meu barquinho debaixo do braço. O que não impediria de fazer uma visita ao topo dos Andes. Iria subir até o cume da montanha mais alta e desceria já navegando no gelo, indo até a beira do mar. Um bom teste para uma mudança de categoria: Navio quebra gelo. Eu o chamaria então de “O Domador de Iceberg”.

Depois, então, sentaria na proa, com o leme a deus dará, esperando ser levado aos lugares onde eu sempre ouvir dizer que seria um sonho, ao paraíso ou à terra do nunca. Juro nesse exato momento, ao Deus do mar, dono dessas belas terras (ou águas), nunca revelarei o segredo desses caminhos. Mesmo porque seria impensável que algum dia eu quisesse voltar para casa. Eu me recusaria a tal loucura. Por isso, seria levado ao julgamento de Poseidon, que me sentenciaria a navegar sem rumo entre marés e tempestades, por anos, décadas, séculos. Daria por encerrada a audiência após bater com a base do tridente sobre as águas. Rapidamente, elas me levariam à mar aberto, náufrago, dentro do meu próprio destino. Meu quebra gelo de papelão não aguentaria tanta tristeza, sendo que acreditaria precisar agora de um cargueiro e caixas de um bom rum. Ainda assim, navegar é preciso.

No outro dia, bem pelo primeiro raio de sol, tomaria o leme novamente nas mãos e navegaria para os limites da prisão de Poseidon. A poucas léguas de suas grades, bradaria por liberdade e jogaria o cargueiro com todo seu peso, com a força de um quebra gelo para cima das estruturas do cárcere. A rebelião causada no mar levaria os pedaços de meu barco para os quatro cantos do mundo, contando das aventuras, das alegrias e tristezas que vivi. Enquanto eu, fugindo da ira do dono do mar, me lembraria das vezes em que estive secando meu barquinho de papel, guardando-o cuidadosamente no bolso da camisa. O mesmo barco que outrora navegava, mais uma vez, no tanque lá de casa. É um desses que quero.

Enquanto Florescem os Cactos

por Dilvo Rodrigues

Se eu tivesse recebido flores, as colocaria naquele vaso verde e rebocado que está encostado la no sótão. Eu nunca recebi flores. Nem violetas, nem girassóis, nem rosas brancas ou vermelhas. Minha casa não é muito propícia ao cuidado com plantas e animais, principalmente, os animais. Eu acho que bicho, cachorro, gato, papagaio, precisa de espaço, de terra. É igual criança. Precisa se sujar, correr por aí, com o vento batendo na ponta do nariz ou do focinho. Eu moro em apartamento. Até que poderia ter uma samambaia qualquer no canto da sala ou uma orelha-de-elefante. Não sei. Minha casa não é muita adequada, não recebe muito sol, é fria. Meu coração é que ficaria alegre pra danar de receber uma flor. Enquanto isso, crio cactos.

Minha mãe sempre teve plantas em casa. Quando era criança, as samambaias dela eram constantemente violentadas por bolas de futebol. Tinha um canteirinho de plantinhas que não resistia depois de duas ou três partidas de golzinho no quintal. Se na segunda fosse arrumado, no sábado, estaria totalmente arrasado. Resultado: Duas mãos de cimento e piso em cima. Adeus canteiro de plantas. O que ficou de saudade é o cheiro da dama da noite. Todo mundo deveria ter uma dama da noite em casa. Seja nas noites abafadas de verão ou no triste cair das folhas no outono, o perfume estava lá, atraindo mariposas e beija-flores. Quem dera um beija-flor atrevido voasse à janela lateral do quarto andar. Quem dera não fosse tão frio e a janela ficasse sempre aberta. Os cactos é que não sei por que aguentam bem esse tipo de ambiente. Às vezes fico matutando se existe alguma diferença entre cactos e flores de plástico.

Mas nada se comparava aos pés de manga, pé de goiaba, pé de mamão e limão que habitavam o quintal da casa de Antônio Dias. Era o dia inteiro comendo manga, comendo goiaba, machucando a mão no pé de limão capeta, na busca de fazer a limonada perfeita. Eu fico bobo de lembrar e pensar no tamanho das mangas que brotavam das margens do Rio Piracicaba. Era cada manga espada, sem precisar uma gota de agrotóxico, melhoramento genético e toda essa parafernália agrícola moderna. E é bom lembrar que tudo aquilo ali era o playground de brincadeira com os primos, afinal de contas a gente subia nas árvores e corria quintal afora, era doido para entrar no rio, mas o medo dos caboclos d’água era maior. Nosso playground era tão bom, tão bom, que a gente podia até comê-lo. E por isso eu penso que talvez ficaria mais feliz se ganhasse um pé de manga espada ou um pé de limão capeta. Mas, aqui é apartamento, não bate sol, é tão frio. O máximo que daria seria manga canivete e limão apático.

O bom é que eu tenho uma mania de achar que algumas pessoas tem jeito de flor e doçura de fruta. Há pessoas que aparecem em momentos especiais da nossa vida, feito rosas. Outras que são raridade, que a gente precisa cuidar muito bem, orquídeas. Não vou mentir e dizer que não existem as ervas daninhas. Existem sim. Assim como aquelas que alimentam o espírito e enchem nossas bocas de sorrisos, ou simplesmente, são vistosas aos olhos. Quando elas chegam, é como se a natureza fizesse festa na vida. Por isso, ainda tenho esperanças de um dia, ao soar a campainha, depois de abrir a porta, dar bem de cara com uma bela flor, ou de nariz com uma bela dama da noite. Mesmo nesse lugar, meu coração iria ficar feliz pra danar. Enquanto isso, não sei por que motivo, florescem os cactos.

Dos Olhos Amendoados

por Dilvo Rodrigues

Aqueles olhos amendoados me chegaram sorridentes, numa tarde chuvosa de novembro, procuravam ser ofuscados por sardinhas ligeiramente espalhadas pelos ombros, passando também logo abaixo do pescoço. Eles não deixavam mesmo de ser cúmplices de um sorriso, feito especialmente para aquela boca, aqueles lábios, completados por um par de olhos amendoados. Um retrato perfeito.

A verdade é que, primeiramente, me apaixonei por aquelas sardinhas. Mas, outros retratos deles foram então chegando. Um que especialmente me marcou, os apresentava bem marcados, contornados por algum apetrecho realçador, iluminados por uma luz de vida noturna. Aqueles olhos estavam lá, sorrindo para mim novamente. Não foram nada preteridos por um suposto decote, nem pelas sardinhas, que pelo fato da escassez de luz, não tiveram vez. Dois dias depois, eu disse a mim mesmo que aqueles olhos amendoados poderiam ser todos os meus motivos. E isso é o que eu digo agora.

Nunca os vi tristes. Nunca os vi chorar. E se um dia os ver dessa maneira, que para aqueles olhos amendoados eu tenha então mais que ombros e lenços. Foi o que pensei quando os encontrei pela primeira vez, numa tarde calorosa de janeiro, sonolentos. Necessitavam certamente de um café, sem açúcar, sem adoçante, bem forte e quente. Iam e vinham comprometidos com trabalho do momento numa academia de musculação. A trilha sonora não era das melhores, seria clichê dizer que eu preferiria tocar “Pela Luz dos Olhos Teus”. Talvez um dia você me diga que eu seja o dono desses olhos. Tenho medo, olhos amendoados, de desviar um segundo e perder esse exato momento. Tenha certeza, segundos depois, você verá esses meus castanhos se lamentarem profundamente, como se estivem tocando o chão do mar.

O lado externo dos olhos é levemente mais elevado do que os cantos internos. A pálpebra faz um arco onde a gente até poderia brincar de escorregar para um lado ou para o outro, feito criança em tobogã de parque de diversão. Já ouvi comentarem por aí que os olhos amendoados são os mais belos, considerados perfeitos. Nunca me dei conta, na verdade. Muitos podem ter chegado a centímetros de mim, permanecido anos ao meu lado, sem eu mesmo me tocar de reconhecer o formato deles. Insensível a esse ponto, mas não para vida toda. Não posso provar, mas garanto que hoje, quando fecho os meus castanhos, vejo apenas os seus amendoados me conduzindo passo a passo, a cada piscar.