Sal e alho, Um fio de óleo, Joga o arroz

por Dilvo Rodrigues

Sal e alho na panela. Um fio de óleo. Joga o arroz. Mexe e mistura tudo. Acende o fogão e deixa ali, em fogo baixo por alguns poucos minutinhos. Quando o arroz “pipocar”, enche duas xícaras de água e joga na panela. Vai vir uma fumaça, com um cheiro de alho. Mexe um pouco com uma colher. Colher de pau não, tenho vertigem da colher de pau arrastando no fundo da panela. Então, é só deixar cozinhando até a água secar. Arroz pronto!

Antes do arroz ficar pronto, pode cortar um tomate em rodelas, lavar as folhas de alface e separar o brócolis. Poderia ter preparado batatas fritas para estabelecer um equilíbrio entre a má e a péssima alimentação. Mas, perdi muito tempo vedando a panela de pressão, não como sem feijão preto, com bastante cebolinha. O ato de cozinhar sozinho pede o ligar de um som, uma TV. Molho a frigideira de óleo, quebro dois ovos e jogo lá. O que eu quero ouvir? Ainda tenho alguns CDs que funcionam. Nelson Gonçalves, não! Tom Jobim, não! Caetano Veloso, não! Sandra de Sá! Hoje quero ouvir Sandra de Sá. Disco na vitrola. Opa! Ovos com gema estourada é inadmissível. Abaixa o fogo, cadê a espátula? Ovos salvos.

Eu poderia ter convidado Aurélia para almoçar aqui. A coitada tem passado os dias a base de sopa de legumes e frango. Quando tudo estiver quase pronto, bato na porta dela. Acho que agora posso cozinhar uma carne. Não sei muito bem cozinhar carne. Vou ligar pra minha mãe e perguntar.

– Oi mãe, tudo bem? Benção!
– Deus te abençoe, meu filho.
– Ô mãe, como eu faço para fazer carne de panela?
– Você tem panela de pressão aí?
– Tenho não, mãe.
– Sem uma vai ficar difícil. Faz bife frito.
– Vai ser o jeito. Tá bom então, depois ligo de novo. Tô com as panelas no fogão aqui.
– Tá bom! beijo.

É Aurélia, queria te livrar da fritura. Não vai ter jeito! Nessa casa nem para ter uma azeitona, um palmito. Faço um macarrão? Poxa, mas arroz, feijão, salada, ovo, bife e macarrão talvez fique pesado. Eu deveria ter comprado aquele salmão na oferta do dia. Eu não sei fazer salmão. Uns lambaris a gente joga no óleo quente e é isso mesmo. Lambari frito na hora do almoço. Não sei. Bom, não tem, então, sei que não vou fazer. E de sobremesa sirvo o tradicional sorvete sabor napolitano. Vou lá bater na porta dela. Toco a companhia três vezes. Ela deve ter saído. Vou comer sozinho mesmo. Tomo o corredor, voltando para casa, esbarro com ela na porta do elevador, com um sacola na mão.

– Você por aqui, rapaz!
– Fui lhe chamar para almoçar comigo, mas você não estava.
– Mas agora estou!
– Vamos então? Acabei de fazer.
– Eu já almocei. Vamos lá, posso lhe fazer companhia.
– Que lady! Sopa de legumes e frango?
– Não. Caíram uns trocados da aposentadoria. Já gastei tudo no rodízio.
– Que chique! A diabetes agradece.
– Trouxe coraçãozinho. Você adora.
– Ó!

Abri a marmita, o cheiro tava ótimo. Agradeci, no fundo fiquei com remorso de deixar os bifes fritos de lado. Dá se um jeito. Fomos andando em direção à porta.

– Tinha umas picanhas lá, que só você vendo!
– Ainda bem que eu não vi, Aurélia. Minha hipertensão desagradece.
– Ligou para pedir a receita da carne de panela para sua mãe hoje? – A velha disse debochando.
– Um sujeito no auge dos seus 60 anos ainda liga para mamãe pedindo receita? Nem se ainda a tivesse. Eu pediria era o banquete todo de uma vez das mãos dela. – Aurélia riu.
– Nenêm quer mamadeira da mamãe. – debochou de novo a velha.

Entramos e chegamos a mesa. Nos sentamos e comecei a destampar as panelas, de onde emanava o cheirinho dos temperos, da comida preparada em casa, da fome que seria logo saciada. Aurélia colocou os corações em um prato. Eu me perguntava sobre a receita de carne de panela da minha mãe. A receita de arroz me lembro como se fosse ontem. “Sal e alho na panela. Um fio de óleo. Joga o arroz.” Eu nunca quis aprender sopa de legumes e frango.

– Esse coraçãozinho tá bom, hein, Aurélia!?

Joga Pedra no Rio

por Dilvo Rodrigues

Tem gente que joga pedra no rio.
Tem gente que joga sofá no rio,
Mata um desafeto e joga no rio.
Pneu e garrafa pet, joga no rio.
É tudo o que tem de coisa ruim que sai da gente e a gente joga no rio.
Ignorância, principalmente.
Mas fico nervoso mesmo de gente que joga pedra no rio, pra bater três vezes na lâmina d’agua, feito três tapas na cara do coitado.
Não contente, vem um outro e joga lama no rio.
Felizmente, a lama vai passar.
Mas o sofá e as pedras vão ficar lá, jogadas no rio.

Desencontros de Palavras, entre Sentimentos

por Dilvo Rodrigues

Ninguém me contou, nem mesmo saiu dos meus pensamentos. Essa história realmente aconteceu. Eu vi acontecendo, bem na minha frente. Não pude fazer nada, nada além de contar de uma mensagem virtual que foi para uma garota dos sonhos de um moço. Eu sei que as palavras diziam o seguinte:

“Todas as vezes que você viaja, fico olhando suas fotos. Acho interessante porque parece que você gosta mesmo de viajar e de conhecer outros lugares. Sua cara de felicidade é flagrante em cada click. E eu fico olhando cada uma delas, em algumas fico me imaginando em um lugar desses com você. Seria interessante, acredito. Porém, na verdade, eu queria ser mesmo o cara que fosse te recepcionar na rodoviária ou no aeroporto toda vez que voltasse pra casa.
Da última vez que te vi foi curioso. A gente nem se falou, mas teve um momento que você parou na minha frente, seus ombros estavam a mostra e eu comecei a pensar que eu queria ser o homem que conhecesse o caminho de cada um das suas pintinhas. Estava escuro, e por isso, aquele foi um dos poucos momentos que realmente acreditei na utilidade dos meus óculos, poder ver alguns dos seus detalhes.
Você deve estar achando que sou maluco, louco ou doidão de pedra. É, felizmente ou infelizmente, tenho um pouco de maluquice, mas controlada, é claro, por alguns avanços da medicina. Eu me imagino falando palavras assim pra você pessoalmente e me imagino em silêncio com você pessoalmente, como foi mesmo naquela última vez. Silêncio a distância, entre mim e você. Mas, minha maluquice maior é querer acreditar que nosso silêncio dure, a partir de um dia qualquer (que não tarde a chegar), só apenas enquanto eu conto as pintas do seu ombro ou mesmo enquanto eu conto as horas pra você chegar de viagem.”

O rapaz aguarda então uma resposta aos seus anseios e desejos apaixonados para com aquela moça. A resposta nunca chegou. Depois de muito tempo ele recebeu uma outra mensagem dela.

– Nossa! Que lindo. Você escreve muito bem.

Eu não contei, mas no lugar dele ficaria desolado. Naquele dia, meu amigo não disse nada. Aparentemente, não ficou triste, não ficou feliz com a mensagem dela. Ninguém me contou e acho que ele mesmo não vai me dizer. O que acontece, acho, é que ele ainda espera resposta. Aqui, fica entre nós, eu acho que teria dado mais certo se ele apenas tivesse chamado ela para tomar um chopp. Mas, isso são coisas do meu pensamento.

As Gratas Formiguinhas e o Viciado Beija-Flor

por Dilvo Rodrigues

Uma gota de água veio rolando a parede, passando calmamente por cada rugosidade dela. Quando de repente, perto da quina com o chão, ela para. Vendo aquilo, uma formiguinha tenta juntar a gota nas costas e levar para o formigueiro. Ela puxa a partícula da parede, mas a dita cuja não sai. Fica ali, agarrada feito um imã. O bichinho então teve a ideia de chamar uma companheira, que chegou rapidamente ao local para salvar aquele líquido precioso. E elas continuaram tentando jogar a gota d’água uma nas costas da outra. Não funcionava. Era muito pesada. Então, decidiram dividir o orvalho de água em dois e cada uma levar uma parte. Também não houve sucesso. As formiguinhas já iam desistindo quando, de repente, um beija-flor chega. Imponente, azul, pairando no ar e se movendo rapidamente. O beija-flor então pegou a gota d’água com o bico e voou em direção ao formigueiro, jogando a gota lá. As formigas não acreditavam no que acontecia. E ele voltava à parede onde as gotas rolavam e pegou outra, levando-a até o formigueiro. Fez isso inúmeras vezes. As formiguinhas ficaram felizes, já que com o estoque de açúcar abarrotado e, agora os reservatórios de água abastecidos, teriam um inverno tranquilo.

Todas as gotas foram recolhidas pelo danado do passarinho. As formigas resolveram então voltar para sua casa, caminhavam felizes e cantarolando as cosias pequenas e boas da vida. Quando, ao chegar nas imediações do formigueiro, encontram o beija-flor aos prantos. Ficaram triste e sem entender o que acontecia.

– Não fique triste, Sr. Beija-flor. O senhor deveria ter orgulho de si mesmo. Nós estamos muito felizes com sua ajuda e queremos agradecer.

Uma das formigas notou que o formigueiro estava alagado e disse:

– Veja, ele queria ajudar, mas acabou inundando nossa casa. Coitado! Não fique triste Sr. Beija-Flor, para tudo da-se um jeito.

O beija-flor chorava aos montes, soluçava e não conseguia nada falar.

– Que alma generosa, que Deus possa sentir orgulho dessa Sua criação.

O beija-flor recuperava o fôlego, tentava dizer algumas palavras.

-Ai, Meu Deus! Não, Não! Eu pensei que jogando as gotas aí dentro…

– Iria nos abastecer de água, completou uma das formigas.

– Não, Não! -Disse o beija-flor, seguindo – Eu pensei que jogando as gotas aí dentro. Muitas gotas! Eu teria muita, mas muita água com açúcar para beber.

 

 

 

 

Uma Ode à Solidão

por Dilvo Rodrigues

Uma vez assisti a uma matéria sobre o Minhocão, em São Paulo. O viaduto tinha sido fechado para automóveis, no período da noite, e isso dava destaque para o que acontecia nos prédios ao redor do elevado. Sem o barulho de motores, buzinas, rádio toca fitas ou mp3 dos carros, a reportagem colocava em evidência um fato comum à todos os que moravam ali, a solidão. O que o saudoso Renato Russo cantou ser “O mau do século”, na música “Esperando por Mim”. A mesma solidão que me faz lembrar a história de Christopher McCandless, contada no livro “Into The Wild” e levada ao cinema por Sean Penn. O Drama conta de um jovem que não se identifica com a sociedade onde vive e com as pessoas que fazem parte dela. O Dissenso é tão grande e intenso ao ponto de fazer com que McCandless fugisse, fosse em busca de uma realidade que o completasse. Eu sempre achei que a solidão mais dolorosa acontece assim, quando dentro da sua própria casa, você não se sente parte da família.

Eu não posso dizer que a solidão seja genuinamente ruim. Muitas vezes é preciso entrar em contato com o vazio interior, existencial. Talvez um pouco de solidão seja capaz de nos fazer mais humildes, refletir sobre o que eu sou ou que estou fazendo da minha vida, pelo o quê é realmente importante dar duro nessa vida, por isso sempre acreditei na solidão como um dos sentimentos humanos mais nobres. O filósofo alemão Arthur Schopenhauer disse certa vez que “a solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais”. Mais ainda, pode ser que alguns espíritos excepcionais só possam ser forjados nela. Mas é verdade, é triste viver na solidão.

Estou lendo um livro espetacular. Se chama “Cartas a um Jovem Poeta”, do poeta alemão Rainer Maria Rilke, que foi um dos maiores poetas do século XX. O Livro é um apanhando de cartas enviadas em resposta a Franz Xaver Kappus. Franz estava desejoso de submeter seus poemas ao crivo do já famoso Rilke. Em uma de suas cartas, o grande poeta dizia que “existe apenas uma solidão, e ela é grande, nada fácil de suportar”. Ele continua dizendo serem muitos os momentos em que se quer trocar a grandeza da solidão por uma companhia banal, ter a companhia da “pessoa mais indigna”. Rainer compara a solidão à postura de não entendimento de uma criança sobre o mundo dos adultos. Porém, apesar da falta de compreensão dos acontecimentos, a postura da criança é sábia, já que no seu processo de crescimento ela se entrega ao entender, ao experimentar, ao conhecer. Diferentemente, os adultos se portam na defensiva perante a vida, as pessoas, as coisas e, até agem com certo desprezo. Conclusão: O não entendimento é estar sozinho, na grandeza da solidão. Se colocar na defensiva ou agir com desprezo é apenas agir por puro orgulho ou conforto.

Esse é um tipo de solidão, se assim posso dizer, chamada de solitude, em que o individuo se recolhe de forma voluntária. A diferença da solidão para a solitude é que a primeira sempre vai estar dentro de você, algumas vezes você vai encontrá la, noutras, não. E, se você encontrá-la ou vice-versa, não vai adiantar estar no meio de uma multidão de amigos. O caminho para solidão não é voluntário, você acaba caindo lá sem saber. A segunda, bom, depende. A solitude tem muito a ver com as nossas frases de redes sociais, sobre não mendigar a atenção daquele ser alheio total desinteressado em você. Você faz uma escolha, que muitas vezes se baseia em “antes só, a mal acompanhado”. A solitude também tem seus benefícios, existe muita gente chata, violenta, sem graça, coxinha e cheia dos mimimis por aí, não é mesmo!? Cada um com suas respostas.

“Um dos maiores prazeres concedidos ao homem sobre a terra é o de reencontrar corações que simpatizam com o seu.” A frase é do Chico Xavier. E ela me faz pensar que, até hoje, nunca conheci pessoas que ao se isolar reencontram esses corações. Mas sei de muita gente que mesmo na solidão aprendeu a valorizar aqueles poucos encontrados pela vida, o que pode ter percebido MacCandless ao fim de sua jornada interior. De repente, no auge do seu estado de necessidade e solidão, ele entende que a felicidade só é real quando compartilhada. Uma pena que isso tenha sido forjado no coração dele apenas tarde demais.