Tão Bichos, Tão Feios

por Dilvo Rodrigues

Foi durante o exílio no Chile e, posteriormente, na Guiné-Bissau, onde Paulo Freire tipicou as bases do que, segundo o educador e filósofo brasileiro, seria o problema central daqueles dias, a desumanização. Um processo que, na concepção de Freire, marca o roubo da humanidade de uns por outros. A coisificação da figura do ser humano já tinha sido retratada década antes, nos versos de Manuel Bandeira, no poema “O Bicho”, em 1947. Na imundice, um ser achava qualquer coisa para comer, não cheirava, porém, engolia vorazmente o que era encontrado ali. Hoje em dia, muitos cientistas da relações sociais repetem aos quatro ventos a causa do retrato feito por Manuel Bandeira; ganância e poder. Como se há 70 anos George Orwell já não tivesse dado nome aos bois e aos porcos em “A Revolução dos Bichos” – Aqui na face da terra só bicho escroto é que vai ter. Salve Titãs!

Entrevistei um morador de rua. Me sentei ao lado dele e comecei a conversar. Sr. Orênio, sempre nas redondezas da rodoviária de Valadares. Ele, mau cheiroso, magro, sujo e triste. Eu ali pensava se o Sr. Orênio era uma reflexo da podridão que eu escondia em mim e que todas as outras pessoas escondiam e escondem também. Eu saí dali arrumado, penteado e cheiroso, mas sujo, podre, uma aberração. Não faltava muito para que eu me enxergasse como uma mosca Kafkaniana. Eu contestava Maiakóvsky em “gente é para brilhar”, com coro reforçado por Caetano Veloso: “gente é para brilhar, não para morrer de fome.”. Mentirosos! O Mundo está cada vez mais feio, disse certa vez o saudoso Antônio Abujamra. Sim, o mundo anda muito feio e, pode ser que eu também.

Antigamente, quando a corte portuguesa vivia no Brasil, era sinônimo de amizade, durante os jantares reais, que um metesse a mão do prato do outro e pegasse o que bem quisesse. É o que conta o historiador Laurentino Gomes, no livro “1822 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil”. Nos restaurantes modernos, já é difícil compartilhar a mesa, dividir o rango então, é coisa para beato. Em pensar que glorificamos tanto o milagre da multiplicação, que também, a meu ver, foi o milagre da partilha. Muita gente vive uma religiosidade laica, ou seja, religioso da Igreja para dentro. Fora, continua bicho. Se bem que alguns a religião torna mais bicho ainda, mas isso é outra conversa.

Eu fui pedir açúcar ao vizinho, não antes de vencer cercas, muros e redomas de segurança do condomínio. Sendo possível que o dito cujo me encaminhasse ao vizinho do andar de cima. E batendo de porta em porta, pode ser que eu nadasse, nadasse e morresse na praia, de água salgada que só. Uma praia bem longe dos sonhos de Martin Luther King e da imaginação de John Lennon. Porém, tudo pode mudar e, mesmo em meio aos bichos, alguma humanidade seja capaz de se por de pé. Isso me conforta. O Dalai lama uma vez disse que “Uma árvore em flor fica despida no outono. A beleza transforma-se em feiúra, a juventude em velhice e o erro em virtude. Nada fica sempre igual e nada existe realmente. Portanto, as aparências e o vazio existem simultaneamente.”. É, pode ser que seja mesmo um conforto. Pode ser que um dia eu e o mundo deixemos de ser assim, tão bichos, tão feios.

A Geração do Mexerico

por Dilvo Rodrigues

O Chato da mexerica é a semente que vem dentro do gomo. É até fácil descascar a fruta, fácil demais. Nunca é pior do que descascar uma laranja. Tem gente que nem retira a casca da fruta, já pega e corta em quatro pedaços, quatro gomos e come. Quando era criança, meu pai me levava sempre na Barraca do Baiano, no centro da cidade onde nasci. Ele vendia algumas frutas por lá, principalmente laranjas, que ele descascava com um dispositivo engenhoso. Era só encaixar a fruta numa parte com uma lâmina e rodar uma manivela, em segundos já estava pronta para ser devorada. Uma mão na roda!
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Cacos Quebrados, Cacos Colados

por Dilvo Rodrigues

Uma promessa quebrada é impossível de restituir. Não tem jeito. Os espelhos também são impraticáveis de conserto, depois que se partem em pedacinhos chão afora. Bem, nunca me deparei com um espelho todo colado, quer seja de Super Bond. Algumas outras coisas são coláveis, acredito. Na verdade, acho que quase tudo é passível de uma resina, uma cola ou uma fita adesiva. Não fica novo, mas perfeitamente usual.

Pra você ver. No século XV, os japoneses desenvolveram uma técnica de restauração de cerâmicas, conhecida como Kintsugi. Nessa técnica, as partes danificadas do objeto recebem uma mistura da resina produzida por organismos presentes nas cascas de certas árvores (laca) e pó de ouro. O Kintsugi acentua a complexidade estética da peça, tornando-a ainda mais valiosa, dizem alguns especialistas. Há casos em que alguns colecionadores de cerâmicas quebravam seus itens de forma intencional para, posteriormente, consertá-las com ouro. Se nos ensinassem a praticar o Kintsugi quando nossas emoções ou sentimentos fossem quebrados, despedaçados, fico pensando. Os psicólogos, psiquiatras e seus anti-depressivos estariam extintos. O desabafo dos ex-amantes dizendo que há outros amores, outras paixões e tanta gente no mundo seriam menos frequentes. Amores, amizades, sentimentos fraternais, esperança e consideração com um fiapo de ouro ali, outro acolá, a vida seguiria, e eles estariam cada vez mais bonitos e valiosos a cada colagem, ainda que não puramente intactos.

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Os Penetras da Festa do Terraço

Ontem à noite dei uma festa aqui em casa. A festa estava acontecendo no terraço, onde ficam alguns materiais de construção, cimento, tijolo etc. Daí, alguns amigos me perguntaram se poderiam convidar outros amigos. Eu disse que tudo bem, ok! Meia hora depois o povo chega. Pessoal bonito até!

– E aí, tudo bem?
– Tudo massa!
– Tudo bacana!
– Fiquem a vontade. O terraço é de vocês!

Os novos convidados foram lá para o lado dos materiais de construção. Dois casais. Achei normal, no começo. Vai ver estavam sem graça com a turma. Depois de uns goles passava. Normal!E foi passando meia hora, quarenta minutos, uma hora! Nada do povo sair de lá!

Chamei o Junior.
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Amores que Veem e Amores que Não Vão

por Dilvo Rodrigues

Sílvia pediu um caixa de bombons de presente de Dia dos Namorados e Ricardo foi à loja, onde encontrou Priscila, um antigo amor de juventude. Ela não poderia sequer imaginar que Ricardo encontrara Priscila, que era viciada em bombons de licor. O Restaurante estava lotado. Clientes de longa data, Gisele e Patrícia já se preparavam para ir embora, quando chegava Romualdo e Andréia. Os quatro se olharam e se cumprimentaram friamente, assim como acontece entre desconhecidos. Na mesa, Romualdo soltou que havia perdido totalmente o apetite. Andréia não entendeu, já que o próprio Romualdo foi quem escolhera o badalado restaurante. Ele disse que era devido ao stress no trabalho. Na redação do jornal se comentava muito sobre uma possível demissão em massa de jornalistas. Andreia se solidarizou com a dor de “Mumu”. A verdade é que ele revivia mentalmente a cena em que foi pego em flagrante, no meio de um ménage à trois com Patrícia e Gisele. Sua ex-mulher havia contratado um detetive particular para segui-lo nas supostas entrevistas no meio da noite.

João namorava Carla, que foi noiva de Alberto. Ninguém nunca soube os reais motivos que levaram ao fim do noivado. A vizinha de frente do ex-casal suspeita até hoje que Carla não pode ter filhos. Alberto queria uma menina e hoje deve passar a noite sozinho, estudando para a prova do concurso de analista judiciário. João fez vasectomia depois da chegada dos trigêmeos, frutos do relacionamento com Aurora. A professora Letícia acha Rafael um partidão e não se contenta com as investidas de Pedro. Rafael se emociona com tudo que Pedro faz para conquistar Letícia. Rafael tenta ter coragem para fazer o mesmo por Henrique.

Dona Zelda e Sr. Francisco são casados há 43 anos. São cinco filhos, onze netos e um patrimônio de 4 milhões. No dia dos namorados vão ao Parque Barigui no Fusca em que ele a buscou no primeiro encontro. Naquela noite de fevereiro, Zelda empurrou o carro por 800 metros até o posto de gasolina e Francisco não tinha dinheiro para abastecer. No aeroporto, olhando as passagens para Florianópolis, Rodrigo desiste de tentar encontrar a garota que ele mais gostou na vida e ainda gosta. São dois anos sem notícias dela, muitas dúvidas e receios por parte dele. Ele não sabe que Sílvia está feliz com Ricardo. Mas que, vez ou outra, ela se pergunta por onde Rodrigo anda e se ainda pensa nela. O que só dura até Ricardo chegar com os bombons, sorrindo e com uma cara de bobo por ter visto Priscila tão bem.