A Nova Revolução dos Bichos

por Dilvo Rodrigues

Sempre admirei as criaturas que têm o dom de voar. Pena que o voo do pombo, ao contrário do planar de um beija-flor, sempre perde a poesia em certos momentos. Bom, não deixa de ser um direito dele fazer o que quiser enquanto voa, inclusive merda. Eu poderia achar que o pombo é o animal que mais se encaixa no principal mandamento do romance escrito por George Orwell, A Revolução dos Bichos, publicado em 1945; “Quatro patas, bom. Duas pernas, ruim.”. Passados setenta anos, a mensagem nem de longe corre risco de extinção. Desde aquela época, algumas coisas mudaram nas selvas mundo afora. Outras, nem tanto.

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Velho, Caduco e Cego

por Dilvo Rodrigues

Além de velho e caduco, estou ficando cego. Constatação essa dada por um doutor de reconhecido diploma e talento na arte do diagnóstico das doenças oculares mais indesejadas. Saí do consultório triste com a notícia indicada pela receita: uma par de óculos. Invoquei Santa Luzia, queria estar no 13 de dezembro, época em que a santa protetora dos olhos é celebrada, fazer uma oração prodigiosa para que meus olhos voltassem a ser meninas e não mais jovens senhoras. Como era bom poder ver tudo alto e claro, discernir todas as cores, todas as faces mais belas das moças mais belas à distância, atravessar a rua ao ver de longe um desafeto caminhando na mesma calçada. Como era bom!

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Livros; Pobres Coitados

por Dilvo Rodrigues

A velhinha caminhava bem lentamente, com passos curtos, ia segurando a bolsa, quando o segurança do estabelecimento chegou e fez uma abordagem: “A senhora vai para algum curso?” Ela, com um misto de carinho e impaciência respondeu: “Não, meu senhor, estou indo mesmo pegar um livro.” O segurança então explicou que ela não poderia entrar com a bolsa na biblioteca. A senhora concordou de imediato em deixar seu pertence no guarda volumes, acenando afirmativamente com a cabeça. O segurança disse que iria mostrar onde ficava o local. Dois passos depois, ela como que para quebrar o gelo da situação disse: “Esses livros são mesmo importantes, hein!?”
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O Triste Fim do Palhaço Leopoldo Part. III

por Dilvo Rodrigues

Leopoldo pegou as flores debaixo da cama. Olhou cada uma delas cuidadosamente, como se fossem amigas de longa data. Elas estavam perfumadas e vistosas, como se estivessem recentemente colhidas pelas mãos de um jardineiro fiel, gentil e cuidadoso. Acabou achando os sapatos que procurava, estavam bem atrás dos botões de rosa. Colocou as flores sobre a cama, pegou os sapatos com alguma dificuldade e voltou a se sentar na cama para calçá-los, amarrou os cadarços cuidadosamente, se levantou e olhou no espelho na porta do guarda-roupa, posicionado ao lado da cama. Conferiu os poucos cabelos que lhe restavam, o bigode branco que nunca aparava e a camisa desgastada pelo uso ainda lhe caía muito bem. As calças eram novinhas e os sapatos feitos sob medida. Leopoldo enfiou as mãos dentro dos bolsos, precisava de algum dinheiro para a condução. Havia alguns trocados num porta-jóias de madeira improvisado como “porta-dinheiro”. Jogou todas as moedas no bolso, um barulho danado a cada passo que dava, pegou as rosas e foi saindo de casa, esquecendo de trancar as portas e fechar as janelas.

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O Triste fim do Palhaço Leopoldo Part.II

por Dilvo Rodrigues

Eram oito da manhã de uma terça-feira, mas não fazia diferença. Era apenas mais um dia começando. Um dia que logo iria se tornar noite, uma noite que iria se tornar outro dia e assim sempre. Quatro a cada cinco pensamentos eram questionamentos de “por que fazer isso?” ou “por que fazer aquilo?”. O quinto pensamento abarcava todos os outros quatro, sempre dizia: “Isso tudo não faz a menor diferença.” E começava tudo outra vez. Era mais um dia que acordava, olhava o nariz de palhaço em cima da cômoda, que ele jurava ter removido à gaveta antes de ir dormir. O circo havia ido embora, nunca mais nem mesmo o barulho dos sacos de pipoca sendo arrastados pelo vento. Nunca mais!

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