O Triste Fim do Palhaço Leopoldo Part. III

por Dilvo Rodrigues

Leopoldo pegou as flores debaixo da cama. Olhou cada uma delas cuidadosamente, como se fossem amigas de longa data. Elas estavam perfumadas e vistosas, como se estivessem recentemente colhidas pelas mãos de um jardineiro fiel, gentil e cuidadoso. Acabou achando os sapatos que procurava, estavam bem atrás dos botões de rosa. Colocou as flores sobre a cama, pegou os sapatos com alguma dificuldade e voltou a se sentar na cama para calçá-los, amarrou os cadarços cuidadosamente, se levantou e olhou no espelho na porta do guarda-roupa, posicionado ao lado da cama. Conferiu os poucos cabelos que lhe restavam, o bigode branco que nunca aparava e a camisa desgastada pelo uso ainda lhe caía muito bem. As calças eram novinhas e os sapatos feitos sob medida. Leopoldo enfiou as mãos dentro dos bolsos, precisava de algum dinheiro para a condução. Havia alguns trocados num porta-jóias de madeira improvisado como “porta-dinheiro”. Jogou todas as moedas no bolso, um barulho danado a cada passo que dava, pegou as rosas e foi saindo de casa, esquecendo de trancar as portas e fechar as janelas.

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O Triste fim do Palhaço Leopoldo Part.II

por Dilvo Rodrigues

Eram oito da manhã de uma terça-feira, mas não fazia diferença. Era apenas mais um dia começando. Um dia que logo iria se tornar noite, uma noite que iria se tornar outro dia e assim sempre. Quatro a cada cinco pensamentos eram questionamentos de “por que fazer isso?” ou “por que fazer aquilo?”. O quinto pensamento abarcava todos os outros quatro, sempre dizia: “Isso tudo não faz a menor diferença.” E começava tudo outra vez. Era mais um dia que acordava, olhava o nariz de palhaço em cima da cômoda, que ele jurava ter removido à gaveta antes de ir dormir. O circo havia ido embora, nunca mais nem mesmo o barulho dos sacos de pipoca sendo arrastados pelo vento. Nunca mais!

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Os Três Netos de Dona Ondina

por Dilvo Rodrigues

O Período de páscoa havia chegado e, Dona Ondina começou a se preocupar com os presentes de páscoa dos netos. Ela educava Robertinho, Augusto e Mônica, já que os pais das crianças foram presos ao tentar entrar nos EUA ilegalmente. Dona Ondina trabalha de doméstica, durante o dia. Nos fins de semana, faz bico de cozinheira no Bar do Tião, preparando desde carne de sol com mandioca à coxinha com catupiry. É uma cozinheira de mão cheia, como dizem os mais entendidos da gastronomia popular.

Muito religiosa, dona Ondina não liga muito para os costumes mundanos. Gosta de frequentar a Igreja aos domingo. Quando pode, realiza trabalhos voluntários na Associação dos Moradores da Vila Celeste. Ás vezes sente falta do pagode e da cervejinha do domingo, no bar do Joca, que foi abandonado quando as crianças ficaram na responsabilidade dela. Quer dar um futuro melhor aos três, mas não sabe se vai conseguir.
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Um Coração na Ponta do Dedo

por Dilvo Rodrigues

Quando esbarrei com a Camila Gontijo numa boate, armei o quadro rapidamente e disparei o click.

-Oi, tudo bem? Meu nome é Dilvo. Eu sou jornalista e tenho um blog de crônicas, no qual escrevo histórias de pessoas e algumas estórias bem fantasiosas também. Você toparia contar um pouco a respeito da sua relação com a fotografia?

– Claro! Anota aí meu número e a gente conversa melhor sobre isso.

Foi simples! Peguei o telefone dela, entrei em contato e marcamos um bate-papo, para assim que ela ficasse menos atribulada no trabalho. Uma duas semanas se passaram, até que a fotógrafa me recebeu no seu estúdio.
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Sou Masculino, Sou Feminino

por Dilvo Rodrigues

Quando eu recebi um cartão do Sistema Único de Saude (SUS) das mãos da minha mãe, com meu nome completo, data de nascimento e sexo, ainda estava sonolento. Era uma manhã de quinta-feira, eu havia virado a madrugada estudando para dar conta de um artigo. Meus neurônios ainda estavam em Off. Então, perguntei:

– Uai, cartão do SUS!? Eu não pedi!
– Agora é obrigatório, disse minha mãe!
– Ah é? Tô sabendo dessa não.

Dei de ombros e comecei a ler o dito cujo. “Sistema Único de Saúde (SUS). Nome: Dilvo Rodrigues Batista. Data de Nascimento: 13/12/1984. Sexo: Feminino. Número do Beneficiário: xxxxxxx.”
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