Amores que Veem e Amores que Não Vão

por Dilvo Rodrigues

Sílvia pediu um caixa de bombons de presente de Dia dos Namorados e Ricardo foi à loja, onde encontrou Priscila, um antigo amor de juventude. Ela não poderia sequer imaginar que Ricardo encontrara Priscila, que era viciada em bombons de licor. O Restaurante estava lotado. Clientes de longa data, Gisele e Patrícia já se preparavam para ir embora, quando chegava Romualdo e Andréia. Os quatro se olharam e se cumprimentaram friamente, assim como acontece entre desconhecidos. Na mesa, Romualdo soltou que havia perdido totalmente o apetite. Andréia não entendeu, já que o próprio Romualdo foi quem escolhera o badalado restaurante. Ele disse que era devido ao stress no trabalho. Na redação do jornal se comentava muito sobre uma possível demissão em massa de jornalistas. Andreia se solidarizou com a dor de “Mumu”. A verdade é que ele revivia mentalmente a cena em que foi pego em flagrante, no meio de um ménage à trois com Patrícia e Gisele. Sua ex-mulher havia contratado um detetive particular para segui-lo nas supostas entrevistas no meio da noite.

João namorava Carla, que foi noiva de Alberto. Ninguém nunca soube os reais motivos que levaram ao fim do noivado. A vizinha de frente do ex-casal suspeita até hoje que Carla não pode ter filhos. Alberto queria uma menina e hoje deve passar a noite sozinho, estudando para a prova do concurso de analista judiciário. João fez vasectomia depois da chegada dos trigêmeos, frutos do relacionamento com Aurora. A professora Letícia acha Rafael um partidão e não se contenta com as investidas de Pedro. Rafael se emociona com tudo que Pedro faz para conquistar Letícia. Rafael tenta ter coragem para fazer o mesmo por Henrique.

Dona Zelda e Sr. Francisco são casados há 43 anos. São cinco filhos, onze netos e um patrimônio de 4 milhões. No dia dos namorados vão ao Parque Barigui no Fusca em que ele a buscou no primeiro encontro. Naquela noite de fevereiro, Zelda empurrou o carro por 800 metros até o posto de gasolina e Francisco não tinha dinheiro para abastecer. No aeroporto, olhando as passagens para Florianópolis, Rodrigo desiste de tentar encontrar a garota que ele mais gostou na vida e ainda gosta. São dois anos sem notícias dela, muitas dúvidas e receios por parte dele. Ele não sabe que Sílvia está feliz com Ricardo. Mas que, vez ou outra, ela se pergunta por onde Rodrigo anda e se ainda pensa nela. O que só dura até Ricardo chegar com os bombons, sorrindo e com uma cara de bobo por ter visto Priscila tão bem.

A Nova Revolução dos Bichos

por Dilvo Rodrigues

Sempre admirei as criaturas que têm o dom de voar. Pena que o voo do pombo, ao contrário do planar de um beija-flor, sempre perde a poesia em certos momentos. Bom, não deixa de ser um direito dele fazer o que quiser enquanto voa, inclusive merda. Eu poderia achar que o pombo é o animal que mais se encaixa no principal mandamento do romance escrito por George Orwell, A Revolução dos Bichos, publicado em 1945; “Quatro patas, bom. Duas pernas, ruim.”. Passados setenta anos, a mensagem nem de longe corre risco de extinção. Desde aquela época, algumas coisas mudaram nas selvas mundo afora. Outras, nem tanto.

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Um Gesto Político, Um Gesto de Amor

Foto por Robson Godoy Milczanowski
Foto por Robson Godoy Milczanowski

por Dilvo Rodrigues

Um fato que mudou a vida de Thiago Vinícius Lopes de Oliveira aconteceu quando ele e um grupo de jovens se embolaram uns aos outros, impedindo a saída de alguns ônibus da empresa de transporte público da cidade. Era um protesto contra o aumenta da tarifa e a qualidade de serviço prestado, em meados de 2013. A polícia foi chamada para retirar os manifestantes da portaria da empresa. Ocorria tudo “normalmente”. Os manifestantes faziam o papel de manifestantes. A polícia protagonizava o papel de polícia. O que me chamou a atenção foi a repetição de uma palavra e o bradar de um braço.

– Amor, amor, amor, amor.

Na época, eu voltei o vídeo por várias vezes para ter certeza. Era “amor” mesmo que o rapaz gritava. Eu me perguntava o porquê da palavra e quem era o sujeito que a pronunciava. Era o Thiago.
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Velho, Caduco e Cego

por Dilvo Rodrigues

Além de velho e caduco, estou ficando cego. Constatação essa dada por um doutor de reconhecido diploma e talento na arte do diagnóstico das doenças oculares mais indesejadas. Saí do consultório triste com a notícia indicada pela receita: uma par de óculos. Invoquei Santa Luzia, queria estar no 13 de dezembro, época em que a santa protetora dos olhos é celebrada, fazer uma oração prodigiosa para que meus olhos voltassem a ser meninas e não mais jovens senhoras. Como era bom poder ver tudo alto e claro, discernir todas as cores, todas as faces mais belas das moças mais belas à distância, atravessar a rua ao ver de longe um desafeto caminhando na mesma calçada. Como era bom!

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Livros; Pobres Coitados

por Dilvo Rodrigues

A velhinha caminhava bem lentamente, com passos curtos, ia segurando a bolsa, quando o segurança do estabelecimento chegou e fez uma abordagem: “A senhora vai para algum curso?” Ela, com um misto de carinho e impaciência respondeu: “Não, meu senhor, estou indo mesmo pegar um livro.” O segurança então explicou que ela não poderia entrar com a bolsa na biblioteca. A senhora concordou de imediato em deixar seu pertence no guarda volumes, acenando afirmativamente com a cabeça. O segurança disse que iria mostrar onde ficava o local. Dois passos depois, ela como que para quebrar o gelo da situação disse: “Esses livros são mesmo importantes, hein!?”
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