O Red Velvet

por Dilvo Rodrigues

Uma fatia de bolo. Era um vermelho escuro, quase da cor de sangue. Parecia macia, era bem macio. Fiquei com receio de experimentar, já que alimentos muito doces chegam a me dar calafrios, e uma vontade imensa de tomar água, muita água. Quando eu coloquei aquele bolo vermelho sobre minha língua, não percebi o perigo que corria. Uma perigo doce, profundo. Foi num final de tarde que o Red Velvet (também conhecido como Veludo Vermelho) me chegou, entre perguntas sobre meu gosto por doces, e respostas sobre minha preferência por coxinhas, lasanhas e pizzas. Aquele sorriso acompanhando uma assertiva, quase uma sugestão:

– Você vai gostar.

Eu já estava gostando. Eu gostava como se não houvesse outro dia, como se fosse o início da vida. Muitos homens são movidos por glórias e conquistas as mais impossíveis. Um Alexandre, O Grande, habitava dentro de mim, era o dono da terra, conquistando na força da espada todos os territórios os quais os olhos fossem capazes de ver. Não restava dúvidas de que mesmo ali, no gramado mal cortado, de uma casa simples, num final de tarde, eu era coroado. Sim, essas coisas gostosas da vida deixam a gente em êxtase.

Acostumado a broas caseiras, foi a primeira vez que experimentei o Red Velvet na vida. Nem nunca tinha visto um bolo vermelho, não sabia da existência. Não imaginava. A gente vai seguindo como se conhecesse todas as delícias da vida. Mais cedo ou tarde, chega algo novo. O mais interessante é que aquela coloração era resultado do emprego de algumas gramas de uma simples beterraba, um legume muitas vezes esquecido bem no fundo da gaveta da geladeira. Assim como as cenouras, em bolos de cenoura. Mas não é a mesma coisa. Só de olhar dava para ver que não era. Mesmo por que, os bolos de cenoura tem cor e gosto de cenoura, assim como os de laranja ou limão teriam seus respectivos sabores e texturas. Óbvio!

Quando era criança, minha mãe fazia muitos bolos. Nem me interessava pelo bolo em si. Uma coisa que adorava era lamber a tigela onde a massa era preparada. E “rapava” a vasilha toda, passava a língua e os dentes na colher, o que fosse. Era uma delícia. Era incrível como, ao menos para mim, a massa do bolo era mais gostosa que o bolo pronto. Eu poderia dizer que todos os bolos que minha mãe fez, os conheci na essência. Enquanto comia o Red Velvet fiquei me imaginando “rapando”o fundo da vasilha, todo lambuzado daquele vermelho beterraba. Infelizmente, não tive a oportunidade. Não conheci o Veludo Vermelho tão profundamente assim.

– O que mais tem nesse bolo?
– A cobertura é feita com chocolate, cream cheese. Na massa, limão e outras coisinhas mais.
– “Tendi.”

Maravilhado, seguia frequentemente para as padarias da cidade, só para comer o danado do bolo. Foram semanas de um vício regado a cafés e copos de leite gelado. Um belo dia, decidi pedir a receita para uma das moças por quem fui atendido. Foi então que descobri: o bolo levava essência de baunilha, corante vermelho e até vinagre. Descobri que, muitas vezes, não há uma raspa sequer de beterraba na massa. Aquela cor era toda feita artificialmente. A essência de baunilha era quem acentuava aquele sabor que, até então, era incomparável, natural, coisa de Deus mesmo. Eu andava pela rua um tanto tonto, sem entender o motivo do mundo, das coisas da vida. Até que, numa esquina, percebi que todos os meus questionamentos não faziam qualquer sentido. Ali, tive plena noção do meu perigo: meu paladar já estava integralmente refém daquele sabor, assim como meus olhos, completamente seduzidos por aquela cor.

Amor de Cinema

por Dilvo Rodrigues

As luzes se apagam, nossos dedos se entrelaçam e ficam ali, colados sessão adentro. Às vezes a gente se solta, para uma pipoca, uma bebida. Mas logo se procura de novo. E se acha, feito herói em busca do tesouro perdido.

No cinema, a vida dá lugar a ficção, a fantasia de uma felicidade completa e ininterrupta. É uma fábrica de sonhos. Mas tudo isso se dissolve, a realidade se coloca firme novamente porque estou conscientemente preso a suas mãos. Por isso, não invejo nenhum dos personagens que agora enchem a tela. Nesse cenário que eu mesmo criei, a atriz que eu mesmo escolhi, numa história que vence o tempo.

O som ecoa por toda a sala, as pessoas se arranjam nas poltronas, seus cabelos estão nos meus ombros, e dali você me olha num silêncio com tantas palavras. Eu não previ, mas isso encaixa bem no roteiro.

Na sequência do desfecho do herói, feliz pelos feitos alcançados, a sala ensaia um tom entusiasmado com o inesperado final. As luzes se acendem, nossas mãos se afastam, a vida volta ao começo, o que para nós é o fim. Um fim até o próximo lançamento.

Mais um dia na Rio Vermelho

A Rua amanhece às 5 da matina, com o estalar dos cadeados, o abrir e fechar dos portões e os passos de quem ruma para o trabalho. Os coletivos passam na avenida, a duas esquinas depois. Por isso, quem pode ficar na cama por mais algumas horas, continua num sono digno. É a chegada dos pedreiros na obra da vizinha ao lado direito que torna a Rio Vermelho um tanto atribulada. O trambolhar da betoneira é o despertador de muitos por aqui, inclusive o meu. O espaço de tempo entre cada marretada na parede é o máximo que se pode aproveitar de uma função soneca. “Ô Zé, prepara a massa. Dois carrinhos de areia, não deixa empelotar muito, não.”. Poderia ser uma bela receita de bolo. Outro dia um dos pedreiros bateu aqui no portão de casa. “Ô vizinho, podemos usar sua calçada pra deixar o material. Deixamo tudo limpo depois.” Eu disse, “tudo bem.”, e os caras encheram minha calçada de brita e pedaço de madeira velha. Se eu fosse encucado, acharia aquilo uma provocação, um atrevimento do destino. A obra já vai caminhando para os finalmentes, o que tem me deixado aliviado. E ai se não cumprirem o combinado! Sou chato com limpeza.
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Sapatos por Engraxar

A cena do homem sentado numa cadeira suspensa, tendo os sapatos engraxados por alguma outra pessoa sempre me intrigou. Na minha infância, primeiramente, eu demorei a entender a cena em si. Ficava me perguntando por que um sujeito precisa se sentar naquela cadeira alta, todo mundo vendo ele, só por estar bem vestido? Eu passava e não conseguia desviar o olho da feição de quem estivesse lá. Depois de um tempo é que fui compreender a situação. O cara fica numa posição mais elevada para facilitar o trabalho do engraxate, que não precisa ficar todo enjambrado durante o serviço.

Outra incompreensão vinha de um procedimento comparativo, talvez até um pouco ingênuo, mas que para uma criança faz muito sentido. Eu via meu pai sempre engraxando os sapatos dele em casa. Ele tinha todas aquelas ferramentas utilizadas e, vez ou outra eu até acompanhava na tarefa. Ele se sentava numa cadeira dessas de mesa, com um sapato na mão, uma espécie de escova na outra e a graxa no chão. Com pouco, o calçado ficava lustroso. Se não fosse o desgaste das solas, pareceria novo. A segunda indagação nascia então desse fato. “Por que cada um não engraxa seus próprios sapatos, assim como meu pai faz?” Sem dúvida, essa é uma pergunta para a qual não alcancei resposta alguma, em todos esses anos. Esse tipo de comparação já foi feito nas minhas caraminholas em diversos assuntos, um deles é a barba.

Dificilmente uso sapato. Eles saem da gaveta apenas para um casamento, uma ocasião dessas bem especial, a qual a noiva ou noivo, ou o aniversariante ficaria bastante descontente se eu aparecesse de botina e camisa xadrez. Também costumo relutar e declinar a ideia de lustrar o calçado. Toda vez que o fiz, o brilho ficou tão excessivo que me sentia estar com uma daquelas bolas espelhadas de discoteca no pés. Prefiro o sapato social orgulhoso de algumas rugas e simplesmente limpo. Entretanto, sei que existem pessoas que julgam um homem pelo calçado. Por isso, nunca quis parecer extravagante, muito menos desleixado. O certo é que pouca gente ousa levar em conta o quanto de terra, areia e pedregulhos cada um retira do seu próprio sapato, os rabiscos na bico, os desgaste no salto. A graxa então é como uma máscara, um botox.

Ontem, lavei todos os meus calçados, na escova e no sabão caseiro. Sentei numa cadeira de mesa, com um balde de água no chão, esfreguei um por um, da sola ao cadarço. Ao mesmo tempo, me ocorria a história de um quadro do Van Gogh, “O Par de Sapatos”. O pintor teria comprado os calçados para retratar, mas teria achado que os exemplares estavam muito limpos. Por isso, resolveu calçá-los, para uma boa caminhada em um dia de chuva. Por aqui, os meus, depois de lavados, ficaram todos muito limpinhos, que até parece que só agora é que comecei a caminhar pela vida. O sapato social continua na gaveta, acumulando poeira e teias de aranha. Meu pai tem usado tênis, parecem ser mais confortáveis e fáceis de limpar. E, ainda vejo homens sentados em cadeiras elevadas, bem vestidos, com sapatos por engraxar.

No Caminho de Rato

por Dilvo Rodrigues

Todos deveriam dar valor a um bom barbeiro. Não é fácil encontrar um sujeito que corta o cabelo precisamente do jeitinho que a gente quer. Muitas vezes tive sorte, noutras, nem tanto. Hora ou outra, é necessário suportar uma tesourada fora de sintonia ali, um caminho de rato acolá. A verdade é que esses acidentes de percurso se tornam irrelevantes, se o profissional é agradável, educado, piadista. Mesmo porque ficar ali comendo cabelo, respirando cabelo, suando cabelo e em silêncio, é uma chatice da porra.

No salão do Alfredo o movimento é bem tranquilo, nunca foi preciso esperar. A poltrona costuma estar sempre livre. Fato esse que nunca entendi, já que ele faz um serviço de bastante qualidade. Talvez pelo fato de não ser conversador e ser dono de uma expressão pouco simpática, Alfredo afaste os clientes. Ainda assim, sempre me recebe com um bom dia ou um boa tarde, se despede com um muito obrigado, bom fim de semana, o que sem dúvida me faz concluir que Alfredo não é simpático, mas sem dúvida, é um camarada educado. Gosto disso. Para aplacar o comumente silêncio do estabelecimento, o sujeito teve a brilhante ideia de adquirir um rádio, o qual permanece sintonizado nas estações mais populares da cidade. Tem música sertaneja, brega, antiga e notícias de todos quilates e situações cotidianas. Vez passada, a caixinha transmitia a entrevista de um pré-candidato a Presidência da República, na qual o sujeito se descrevia como um liberal, em termos econômicos, e conservador nos costumes. Aquela lorota toda.

– Rapaz, tô pra te dizer que vou votar no Bolsonaro. – soltou Alfredo, enquanto raspava a parte lateral do meu cabelo com a máquina dois.

Tomei um susto. O danado do homem resolveu falar além de suas expressões corriqueiras e educadas.

– Você vai votar em quem? – perguntou.

Eu não sabia o que responder, nem atentei exatamente para a pretensa dúvida do voto dele, com a posterior curiosidade sobre o meu. Fiquei olhando a cara do Alfredo no espelho, ele lá me olhando com a danada da máquina na mão.

– Eu não voto no Bolsonaro, acho ele despreparado. Seria pior que a Dilma na questão do diálogo. Imagina a relação dele com o Congresso, como seria? – argumentei, enquanto o homem terminava com a máquina.

– Mas, então quem você acha mais preparado para o cargo? – questionava Alfredo, ao mesmo tempo começava a preparar a navalha.

Eu engoli seco. O sujeito que nunca conversava, de repente, declara voto no Bolsonaro e, com uma navalha na mão, quer saber em quem eu votaria. Muito esquisito isso, pensei.

– Olha, geralmente voto na extrema esquerda. Nas últimas eleições, por exemplo, votei no Plínio de Arruda, que era do Psol. Nessas eleições, é possível que meu voto vá nesse sentido. Tô achando que seria melhor passar a máquina um e meio aí na lateral do cabelo, emendei. O homem descansou a navalha na bancada, e sem titubear já trocou o pente do aparelho e mandou ver.

– Ah, esses caras são iguais ao Lula, dizem que vão governar para o povo, mas roubam o povo. Comunista não presta! Você é comunista?

Eu olhei para a navalha brilhando, parecia afiadíssima, e o Alfredo é mão firme pra danar. Eu lembrava da época em que morria de paixão pelos ideais comunistas, pensando que até hoje algo daquilo ainda vive em mim. Engoli seco, estufei o peito e disse que respeitava muito os comunistas, questionar o sistema é no mínimo uma atitude louvável.

O corte estava totalmente pronto, restando apenas o acabamento. Nessa hora, sempre reforço que não é pra passar navalha na frente do cabelo e que também não é pra mexer no formato da costeleta. O Alfredo então pega a navalha e passa mais uma mão de álcool na lâmina, que sempre é aberta na minha frente. Naquele momento, minha insegurança havia passado, não temia a possibilidade de uma situação mais dramática. Ele pede pra eu abaixar um pouco a cabeça, encosta a lâmina gelada na minha nuca dizendo:

– Eu acho que no Brasil tinha de ter mesmo uma intervenção militar.
Eu só soltava um “Uhum”, mas por dentro pensava “Putz, fodeu!”
– Pra botar ordem nessa roubalheira. – Enquanto ele ia conduzindo o instrumento lenta e firmemente acima da minha orelha esquerda.
– Uhum.
– Acho que o Bolsonaro vai colocar o Brasil no eixos. Mas não precisa de ditadura. – A lâmina contornava minha orelha direita.
– Uhum.
– Não precisa matar ninguém. – A lâmina de novo na minha nuca.
– Uhum.
– Não é pra raspar na frente, né!?
– Não, não. E também não é pra mexer na costeleta.

Segundos depois, o corte estava finalizado. Alfredo arrematava o trabalho, limpando meu rosto com uma vassourinha repleta de talco. No rádio, o locutor se despedia do entrevistado, que afirmava o bordão ” O Brasil tem salvação!” Eu me levantava, abria a carteira e entregava 15 reais pelo serviço, no mesmo segundo em que o barbeiro pegava fortemente no meu ombro, dizendo:

– Muito obrigado, parceiro. Volte sempre!
– Obrigado eu! Sem dúvida voltarei.

Outro dia fiquei sabendo que Alfredo substituiu o rádio por uma televisão. Viu, desaconselho ir cortar no Salão do Jovandir, além de fofoqueiro, o sujeito parece engenheiro de caminho de rato na cabeça dos outros.