Carinha de Sono

por Dilvo Rodrigues

Às sete horas carinha de sono costuma chegar. Se senta, deita a cabeça na parede e fecha os olhos, sem se dar conta que elas pareçam mais com os ombros duros e desconfortáveis de um desconhecido qualquer. O sono toma conta do corpo, tanto que passa os braços em si mesma, num abraço de aconchego, nas vezes de um edredom, ou mesmo no abraço de um travesseiro. Um café forte poderia devolver a firmeza das pálpebras, restabelecer as energias. Sabe, carinha de sono, eu gosto do seu olhos a vacilar. Porém, nunca lhe diria.

Sua carinha de sono iria se transformar num “carão” de susto. Não teriam mais os bocejos, o marasmo do olhar, o andar rastejante, a voz embargada. Eu nunca mais conseguiria te pegar olhando afoitamente para o relógio e, perderia aquele ar de “Meu Deus, ainda falta isso tudo!”, quando você se desse conta do tamanho do tempo que resta. Enquanto eu comemoro o tamanho do tempo que resta. Eu não arriscaria isso, assim como um pedreiro nunca arriscaria perder a cena da musa dele passando frente a obra. Ele poderia ser doido para falar, se declarar, mas não colocaria tudo o que tem a perder. Ainda que o tudo, na visão de alguns, seja muito pouco.

Ah, carinha de sono, mas um dia desses eu vou lhe contar sobre todas minhas noites em claro. Lançando mão de artifícios inconcebíveis, proferindo palavras misteriosas e rezas prodigiosas tentando descansar a alma e o corpo, por pelo menos nesta noite. A mesma noite em que penso: “Será que seu olhar soluçante de sono não poderia o meu ensinar a acalmar e a dormir?” Estabeleceríamos um acordo permanente. Todas as noites você poderia vir transmitir seus ensinamentos soníferos, ficando livre assim que o milagre fosse conseguido. Mas como seria para mim acordar sem ver sua carinha de sono depois que o dia houvesse saído!? Como se não tivesse dormido!

Na escola nunca me disseram que o sono era doença contagiosa e que, dependendo da pessoa contaminada, traria os efeitos colaterais mais temidos por aqueles que se glorificam de sua sobriedade sentimental. Esses que vivem dentro de uma caverna no oeste distante, sempre em tranquilidade, paz e silêncio. Esses dos quais não mais faço parte, já que fui despertado pelo canto de algum galo desafinado. É certo que meu sono pode ser nunca mais restituído, mas como seria bom, carinha de sono, ter o seu sempre por perto, comigo! Porém, nunca lhe diria.