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Primeiros Escritos, Primeiros Rabiscos

Por Dilvo Rodrigues

Não me lembro da primeira vez em que escrevi meu nome por inteiro. Mas, me lembro do nome da garota com quem tive meu primeiro beijo e me lembro das palavras que disse à ela. Sabe, eu pagaria uma fortuna para ter de volta a primeira carta que escrevi para minha mãe, no dia do aniversário dela ou no dia das mães. Tenho certeza que estaria escrito bem torto lá um “Feliz dia Das Mães, Mamãe.”. A primeira do dia dos pais também. Além da homenagem tradicional, aposto que há de se encontrar um desenho de toda família naquele bilhetinho. Se um dia for pai, terei de guardar todas essas coisas que os filhos escrevem pela primeira vez. Vai que ele ou ela, numa noite qualquer, comece a se perguntar também – “Onde estão meus primeiros escritos?”.E aí, depois, para complementar a história deles (e a minha), virá o primeiro texto sobre minhas primeiras sensações de ser pai pela primeira vez e, também, um primeiro texto sobre minhas primeiras sensações de ser pai pela segunda vez. Acho que chega!

Não me lembro da primeira carta de amor, não me lembro do que estava escrito lá e nem para quem escrevi. Bom, se você estiver com essa carta aí, guardada numa caixa de sapatos, no fundo do seu guarda-roupas, acho que poderíamos dar boas risadas, no mínimo. O primeiro buque de rosas, a primeira caixa de bombons e a primeira serenata não é muito custoso puxar na memória. Mas, onde foi parar o número de telefone da primeira pessoa amada? Eu nunca pedi! O primeiro tombo de bicicleta, as cicatrizes se foram há muito. Na escola, meus primeiros desenhos eram sempre casas no campo, com nuvens, rosas e árvores no jardim. Muitas vezes, nesses desenhos, as pessoas tinham cabeça redonda e corpo de palito. Poderia ser minha família. Nunca tinha cachorro. Eu não sabia desenhar galinhas.

A primeira vez que vi o mar, aos 13 anos, fiquei decepcionado porque sempre falavam coisas lindas a respeito dele. Eu lia contos e poesias deliciosas a respeito do mar. Cheguei e olhei aquela imensidão azul, confirmando tudo o que eu tinha lido. – “Isso só pode ser doce!”, pensei. Não era! Os primeiros pensamentos sobre a vida, rabiscados em uma folha qualquer de caderno, as primeiras inquietações da juventude. Que fim levaram? Lembro da minha reação na primeira vez em que andei de avião. Eu olhava lá de cima e pensava – “Cara, que loucura isso! Como pode essa coisa voar?”. Pensamentos bobos de menino voltando a povoar a mente de um adulto, depois de muito tempo. Onde estão gravados os primeiros pensamentos sobre o homem que aquele menino queria se tornar? Se perderam.

Às vezes sinto inveja do personagem interpretado pelo Michael J. Fox, em De Volta Para o Futuro. Que eu saiba, Marty Mcfly é o único ser humano em toda a existência que viu o primeiro beijo dos seus pais. Ele até deu uma ajudinha para que acontecesse. Porém, sinto inveja mesmo é de não ter um Delorean daqueles, para viajar no tempo e recuperar todas minhas primeiras palavras, meus primeiros escritos e rabiscos. Em pensar que a primeira coisa que a gente escreve ou rabisca nesse mundo é o teste do pezinho. Onde será que minha mãe guardou?

9 comentários sobre “Primeiros Escritos, Primeiros Rabiscos

  1. Quis dizer que no meu tempo não devia ter ‘teste do pezinho’… Ou eu lembraria…
    Pois lembro a primeira vez que andei de montanha Russa. E da cigana que me logrou em cinquenta reais. Reavi a fortuna depois de dramatizar por meia hora o quanto aquele dinheiro me faria falta. Vinte anos depois doei a mesma quantia para caridade, porque sei lá, acho que a cigana me rogou uma praga impagável… Também lembro a vez que escondi dinheiro em baixo das cobertas que ficavam em cima do guarda roupa. Cada vez que ganhava um trocado, escondia lá. Ninguém mais sabia, a não ser eu. Um dia fui contar quanto tinha, e as traças da inflação tinham comido os zeros das notas. Gastei o troco comprando pecas. Verdes.

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