O Bloco do Cabelo Doido

por Dilvo Rodrigues

No Bloco do Cabelo Doido desfilaram moçoilas e machões, gatinhas e bonitões de qualquer orientação e faixa salarial. Esteve presente o repórter de TV, porque um turma resolveu que a trilha sonora seria a dança do risca faca. Assim, a polícia resolveu criar suas próprias composições, uma delas se chamava “O porrete também canta”. O médico resolveu aparecer, muita gente acabou passando mal de alegria. Dizem que quando o doutor colocava o estetoscópio no coração do sujeito ou da “sujeita”, ouvia mesmo eram as batidas de um sorriso. No Bloco do Cabelo Doido ninguém pagou para ser rainha da bateria, nem para se fantasiar de baiana e muito menos para fazer parte da comissão de frente. Lá na hora tudo se fez assim: “Quem quer ser rainha da bateria?”. As beldades todas levantavam as mãos. Fiquei feliz! Minha agremiação é a única escola de samba do mundo que tem 10 rainhas de bateria. A Mangueira só tem uma. Enfu!

A representação masculina da comissão de frente ficou sempre a cargo daqueles que estavam mais “pra la do que pra cá”. Todo bêbado tem um pouco de bailarina. Diga que não é um “alongé bracê” quando eles vão catar parede!? Um monte deles foram recrutados e atuaram juntos. Ninguém reclamou do serviço obrigatório. Todos estavam, na verdade, era rindo atoa. “Alongé Bracê”, “Alongue pernê” e “espriguicê”.Essa era a coreografia. Depois do “espriguicê” muitos não se levantavam mais. O que tornou necessário a prática do revezamento, feito com muito entusiasmo, diga-se de passagem. Já na bateria, tudo foi levado muito a sério. O Som não podia parar. Só na paradinha mesmo, que um aproveitava pra beber uma dose, rapidamente, outro cortava pra câmera 18. Mas, nada atrapalhou a cadência do samba.

Durante três dias a “gente cantamos” nosso enrendo de carnaval com muita vontade e garra. No primeiro dia, foi um pouco fraco. Nem todas as pessoas sabiam a letra, que não é difícil. Imagina a melodia de “Kid Cavaquinho”, do João Bosco. Imaginou? Agora tire a letra e use isso aqui: “Olha que foi só pegar no garfinho, pros homi endoidecer. Olha que foi só pegar no garfinho. Ninguém nem pôde crê. Quando me viram corta o bife, de Friboi. Todo mundo foi falar mau de mim, na rede social.” Confesso que achei estranho a Fátima Bernardes não aparecer na letra deste ano. Porém, fiquei sabendo que não acharam melhor para cantar que a Fátima Bernardes dizendo que a linguiça da Seara era bonner, bonner demais. Terrível!

O Carnaval vai chegando ao fim. É triste, mas é bom. O Cabelo Doido já vai passar mais uma vez, pela última vez. É triste! Amanhã a gente tem de cortar a cabeleira e fazer a barba. O número de câmeras 18 nas ruas e passarelas já começa a entrar em extinção. O Doutor começa a ter dificuldade para ouvir o sorriso através do dito cujo do aparelho. Mas, ainda tem gente querendo cair na dança do risca faca. E tem gente guardando confete ou lágrimas para dezembro – Em poucas semanas uma barriga de cerveja se desfaz. Em outra situação demora meses a mais – Amanhã, cada fio do Cabelo Doido não será nada mais além de pó. Porém, assim como todo ano, depois de uma chuva o pó vira barro e, com a chuva vem sempre um sopro de vento.

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