Ah, Meu Amor

por Dilvo Rodrigues

“Quando você foi embora fez-se noite em meu viver.” É rapaz, essas músicas do Milton Nascimento fazem a gente se sentir feito o trecho de uma poesia do Carlos Drummond de Andrade, que diz assim: “Eu não devia te dizer. Mas essa lua, mas esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo.” Eu já deveria saber que o amor não é sempre grande e claro como a lua e nem mesmo forte e embriagante como conhaque. Mas, também, não posso dizer que o amor seja o diabo.

O amor de Julieta e Romeu, por exemplo. Amor juvenil, que depois da morte do casal foi capaz de unir famílias em “pé de guerra”. Julieta era amada por Romeu, que ao pensar que a moça estava sem vida, se entrega aos desígnios mortais de um veneno. Julieta acorda e se depara com seu amado sem vida. Ela, então, resolve ir atrás de Romeu e tentar encontrar seu grande amor nas profundezas da morte. As vezes eu queria dizer à minha grande amada que eu morreria por ela, que eu não tenho nada na vida a não ser ela. Sim, eu sou pobre, mas tenho um coração limpo. Eu sei que ela gostaria de ouvir. Mas, fico em dúvida, porque acho que as palavras certas para dizer do meu eterno e grande amor por ela talvez seriam: “E se ficar comigo é porque gosta do meu rá rá rá rá rá rá rá o lepo lepo.” Ah, meu amor, me desculpe, mas eu sou um amante a moda antiga. Porém, por ela eu toquei o Lepo Lepo em versão bossa nova.

Eu ficava pensando se seria certo dizer que nós fomos feitos um para o outro, que eu era a metade dela e ela era a minha. E um pensamento aleatório me chegou dizendo: “Então, Dilvo, cante ‘Esse cara sou eu’ em uma serenata”. E, depois disso, fiquei imaginando coisas, olhando para o céu e cantarolando: “Lua vai iluminar os pensamentos dela. Fala pra ela que sem ela eu não vivo, viver sem ela é meu pior castigo.” Sim, eu não media esforços. Eu fui brega, fui Roberto Carlos e Salgadinho. Ah, meu grande amor, se o Fernando Pessoa visse a imitação que fiz do Fábio Jr. só para você, ele não mudaria roupa para repensar a concepção sobre o que é ser ridículo no amor. Por você, eu seria ridículo outra vez. Mas, nunca, nunca mesmo, mandaria um carro de som na porta da sua casa no dia do seu aniversário. Já, seu atual namorado…

Ah meu amor, eu me lembro muito bem quando você chegava do trabalho cansada e eu te deitava no meu colo, no colchão e te matava de rir. A gente assistia “Malhação” abraçados e se sentia o casal do “Titanic”. Quantas vezes, eu doente, você vinha com sopa de espinafre. Eu poderia ter desejado febrilmente ser daltônico naquele momento e pensar estar comendo sopa de frutas vermelhas, frutas doces. Não, meu amor, eu tomava sua sopa de espinafre me sentindo no Olimpo, desfrutando do manjar dos deuses. E se você trouxesse um copo de chá de boldo, eu o beberia feito Vinho do Porto. Meu paladar era todos os seus sabores.

Ah, meu amor, “você foi agora a coisa mais importante que já me aconteceu neste momento, em toda a minha vida.” Eu sei que antes você ria e gargalhava de tudo isso. E hoje você fica puta com tudo isso. É de se entender. Momentos antes do amor se acabar por completo a gente ainda destila ódio feito o diabo, pelos quatros cantos do mundo (essa expressão é muito boa – destila o ódio). O Milton Nascimento canta assim agora: “Vou querer amar de novo. E se não der, não vou sofrer.” Se ficar difícil, meu amor, olha essa lua e beba aquele conhaque. O amor sempre pega de jeito as pessoas mais comovidas. Lembra do dia em que nos conhecemos?

Ah, meu amor…

5 comentários sobre “Ah, Meu Amor

  1. Esta crônica ficou linda!fala de amor e das coisas que aceitamos por amor…Mas é uma pena que o amor acabe para um e não para os dois…Deveria começar junto e terminar junto… e cada um ficar com a sua sensação de perda.Cada um curte a sua saudade de uma forma.Parabéns.Abraços e sucesso.

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