Parentes do Riso

por Dilvo Rodrigues

Outro dia meu avô apareceu em um dos meus sonhos. Eu não tenho muitas lembranças dele, então o sonho fez questão de se valer do cenário de uma foto, que eu já vi muitas vezes no álbum de fotografias da família. Na foto, estava sério, era o dia de batizado dos netos dele, eu e meu irmão mais novo. Mas, no sonho, ele estava rindo um sorriso desses bem maroto, dentro da foto, no mesmo batizado. O que não é de se espantar por que uma das poucas coisas que me lembro do Sr. José Rodrigues é que o sujeito era um piadista, engraçado e brincalhão. Mesmo não me recordando de nenhuma piada, coisa engraçada ou brincadeira dele, me lembro do tom e do jeito da risada daquele homem. Me lembro da maneira como ele caminhava, de quando ele raspava a botina suja de barro também, sempre rindo ou contando algo divertido. Algumas vezes, quando conto alguma coisa engraçada ou tentando fazer alguém rir, me pego matutando: “Será que ele riria dessa minha’piada’?

Talvez seja besteira minha ou uma verdade que eu criei dentro dos meus miolos, mas sempre achei humor uma coisa bem família. Me lembro de uma viagem para a casa de uma amiga de uma ex-namorada. Bem lá no interior de Minas, mas já dava quase para ver as esquinas da Bahia. Um dia, na verdade, uma noite, todo mundo sentou à mesa e deu-se aberta rodadas e mais rodadas de piadas. Eu sempre fui um coxo em piadas prontas, então só assistia a exibição gratuita. O Pai da moça tinha um repertório incrível de piadas. Eram piadas sobre melancia e jacaré. Piadas de bichinha e piadas de machão. Foi “Felomenal”.Todo mundo foi dormir de beiço dolorido e abdômem trabalhado.

Na minha casa, por exemplo, meu pai nunca foi de contar piadas. A veia humorística dele se manifestava através de um personagem da “Praça é Nossa”, um que faleceu recentemente, o Canarinho. Ele gostava do sujeito que falava tão alto ao telefone e acabava colocando certas frases na boca do bon vivant sempre aos papos com alguma beldade. Meu pai morria de rir. A gente assistia “A Praça é Nossa” de cabo a rabo. Ele não. Ficava la no quarto, envolvido nas mega-senas da vida. Quando chegava a hora do Canarinho, a gente chamava: “Ô Pai, vem ver o sujeito do telefone.” E ele vinha de galope, com uma caneta na orelha e rindo. “É ele!” Desses artistas de TV, meu pai só gostava desse Canarinho e da Rosana. Sim, aquela mesma que cantava: “Como uma deusa, você me mantém.” Não sei por que, mas isso me faz rir também. Canarinho e Rosana, que dupla, hein Pai!?

Coisa boa também era quando estudava no João Linhares. Não via a hora da sineta bater e marcar o fim do “expediente”. Eu saía correndo da sala, desamarrava a bicicleta as pressas e forçava o pedal no rumo de casa. Era hora do almoço, de lotar o prato e ir para sala assistir aos Trapalhões. A gente se sentava cada um em um sofá e o resto era por conta de Didi Mocó, Dedé Santana, Mussum e Zacarias. Ô rapaz! O episódio do Mussum arrumando uma “pindureta”. Ele e o saudoso Tião Macalé “Nojento Tchannn”. “Lá no morro, quando eu olho pra baixo. Acho, acho, tá e não há beleza. E quando eu to na cidade e olho pra cima, meu ‘cumpadre’, fico contemplando a natureza. Castro Alves, meu bem!” Não vou escrever aqui o que o Tião cantou na mesa. É de impossível tradução! A gente se engasgava de rir, enquanto a comida ficava de lado, esfriando. Aqueles almoços de gargalhadas entre irmãos , não havia frango caipira capaz de sabotar. Naquela época o Didi sempre levava a melhor. Hoje parece uma coisa chata isso, mas o humor também não é mais o mesmo. Imagina só o Mussum fazendo “Stand-upis Comedis” ou “Pocketis Showzis”? A Wanessa Camargo nunca o processaria.

Toda família tem um “bucadinho” de “Fámilia Trapo”, aquela coisa atrapalhada e divertida, confusa e leve. Toda família tem um Carlos Bronco Dinossauro. Um sujeito que acredita que tudo gira em torno dele, mas que é bacana e ele não faz por mal. As vezes é o Pai que implica com o namorado da filha, ou uma mãe que vive reclamando dos farrapos de roupa do marido ou um avô piadista, dando um show exclusivo para os outros parentes. Ainda que o “artista” em questão não perceba. Todas elas também tem um Lineu, uma Nenê, Bebel, Tuco, Seu Flor e Florianinho. Personagens cotidianos, que muitas vezes nem percebem quão cômico é, quase sempre, viver os problemas do dia-a-dia. É por isso que eu sempre digo, uma família sem um Bronco, sem um Didi, sem um Chico, sem um Agostinho Carrará ou, especialmente, sem um José Rodrigues, não é uma Grande Família.

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