por Rômulo Martins
Ela conseguia provocar a maior celeuma dentro do escritório cheio de machões engravatados e executivas sabichonas. Chamavam-na de Lorena ou tia mesmo. Mas o nome oficial da “Tia da limpeza” era Maria. Guardado a sete chaves, ninguém o pronunciava. Com Lorena a limpeza deixava a desejar, mas quem se incomodava? Trabalhar com uma velhinha descolada, “pra frentex” ou coisa que o valha compensava o chão sujo da cozinha ou as marcas de dedo nos vidros da janela do décimo terceiro andar.
No auge dos seus 60 anos, Lorena não se intimidava com o ambiente de trabalho austero que os executivos bem vestidos e bastante seguros de si imprimiam ao local. Enquanto se esforçava para mostrar serviço, falava com todos de igual para igual. Quando preciso, puxava a orelha de quem deixava papel acumulado na mesa ou o copo descartável usado “dando sopa” no escritório.
Como não poderia ser diferente, o visual de Lorena era tão peculiar quanto sua própria personalidade. Os cabelos rebeldes, volumosos e esvoaçantes que ela fazia questão de supervalorizar. Suas unhas esmaltadas nas cores vermelha ou azul anil e a maquiagem clean e, ao mesmo tempo, realçante – de dar inveja a qualquer executiva de negócios – ofuscava o uniforme de trabalho cinza e descompassado daquela velhinha moderna e fora dos padrões mínimos para sua idade. Lorena só não tinha altura – e não havia salto que dava conta dos seus 1,50 metro.
Desinibida, proclamava aos quatro cantos sua paixão por baladas alternativas e GLS. Dispensava cerveja, mas não resistia a um xote de tequila ou uma taça de marguerita. A certa altura, ao som da diva Madonna, rolava até uma “balinha”.
Lorena dizia gostar de todos, mas grudou de tal forma no estagiário Ronald, recém-contratado, que começou a levantar suspeitas. Estudante de Economia, a bolsa de estudos que Ronald ganhava mal pagava a mensalidade do seu curso. E ele ainda tinha que dar conta do aluguel do quarto onde vivia na região central de São Paulo. Lógico que, nos momentos de apuro, Ronald contava com o apoio dos pais. Comovida com a situação, Lorena resolveu ajudar o rapaz. Dividia a própria marmita com ele e até completava o dinheiro que faltava para o ônibus.
Certa noite, fim de expediente, a velha moderninha e descolada convidou o estagiário para tomar cerveja em um barzinho ali mesmo no centro da cidade.
Ronald: Mas você toma cerveja? (ela não gostava de ser chamada de senhora).
Lorena: Eu gosto mesmo é de tequila, mas a grana tá curta, entende? Mas ó, guri, é tudo por minha conta – garantiu.
Polido e genuíno, o garoto aceitou o convite. No bar, enquanto bebiam, conversavam sobre tudo: religião, amor, trabalho, dinheiro, sonhos. Era impressionante a articulação de Lorena ao falar de temas distintos, que requeririam de qualquer pessoa uma dose considerável de estudo e experiência. Lá se foram uma, duas… dez garrafas de cerveja. A certa altura, Ronald perdeu as contas de quantos copos de álcool havia enfiado goela abaixo. Embebecido, o rapaz não soube sequer dizer a que horas – e como – chegou em casa.
A ressaca física e moral que tomara conta do estagiário na manhã seguinte só não foi maior que o impacto emocional causado pelo limpa feito em seu quarto durante aquela madrugada fria e insensata. Nem seus livros de teoria econômica foram perdoados. No trabalho, Lorena estava irradiante como era de se esperar.
*Rômulo Martins, 30, é jornalista.
O tempo parece parar quando temos entusiasmo suficiente para seguir encantando as pessoas.
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