por Dilvo Rodrigues
Vendo bicicleta de dois amortecedores, frontal e central. Na cor preta e vermelha, pesando 9 kg, com documentação em dia, vários arranhões de capotes noturnos. Vendo bicicleta com freio regulado, selim confortável, pneu da frente careca e pneu de trás em dia e, no guidão, escrito o nome da Josefina, minha antiga namorada. Vendo! Único dono, tomava banho duas vezes por mês, mas era vista todas as sextas-feiras trancada na lixeira na frente do bar Manacá. Esnobada pela patricinha de cabelo de chapinha, que não quis sentar no quadro, bêbada, depois da festa Funk Deluxe. Deve ter seus 100 mil quilômetros rodados em 12 anos, foi e voltou à Alpercata numa velocidade incrível e subiu a Ibituruna com muito custo. Vendo!
Às duas horas da madrugada foi vista dezenas de vezes indo aos encontros de porres homéricos. Uma vez trouxe o sujeito com uma precisão milimétrica, mesmo que por milímetros ele quase tenha perdido a orelha. Isso, em um capote respeitável na ciclovia da Avenida JK. Desejava mudar de vida, partir para Curitiba. Viver ao lado do seu companheiro. Foi trocada por uma bugre italiana e viveu no terraço de uma casa silenciosa no interior de Minas Gerais, debaixo de um pano azul e empoeirada. Vendo! Vendo bicicleta, que foi emprestada algumas vezes para o vizinho viciado, desejoso de acalmar os terrores das vozes internas e insaciáveis da abstinência.
Costumava parar por ali, na Ilha dos Araújos, fazer uma caminhada ou cooper, uma água de coco. Adorava mesmo era o tal do caldo de cana, no Mercado Municipal. Uma vez o pedal esquerdo caiu, de velhice, e teve a roda traseira empenada por descuido de um motociclista passando velozmente no cruzamento. Enamorou-se de uma cargueira robusta, verde, que trazia e levava compras de supermercado aos lugares mais distintos da cidade. Sentiu dores nas pastilhas dos freios, quando a dita cuja nunca mais apareceu. Quis suicidar-se da vida dos veículos de tração humana, ser enterrada em um ferro velho digno e, talvez, ressuscitar vendo sua essência de ferro fazer parte de grandes ligas metálicas em obras importantes desse país. Porém, se conformou quando descobriu que a amada tinha sido roubada por um sujeito de bigode e boné de aba reta, conhecido como Pedro Catraca. Vendo!
Vendo a crédito, a prazo e à vista. Vendo parcelado no boleto bancário do Banco do Povo. Vendo no cheque pré-datado, vendo no cheque-calção, vendo no dinheiro e na moeda corrente. Vendo bicicleta preta e vermelha, com aro desgastado e raios sujos de terra e graxa. A corrente nunca estourou, são 21 marchas e mais de 100 mil quilômetros rodados, nunca perdeu um racha na Marechal Floriano, carregou 12 anos de sacolas de compras e sacos de carvão para churrasco. Foi pilotada ao mesmo tempo em que se falava no celular. Foi pilotada sem as mãos. Levou muita gente feliz, trouxe muita gente triste, fez um sujeito feliz e não quer partir. Vendo!
hahaha! Eu sempre tive vergonha de comentar a respeito da palavra ‘vendo’ em alguns anuncios, mas agora ‘vejo’ que é pura bobagem minha! Vc é o cara!
A propósito…tráz ela(a bike) prá tomar umas hj!
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kkkkkkkk Vergonha eu nunca tive da palavras. Mas das “bubiça” que o povo vendia tinha muita!
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Excelente texto amigo! Mandou bem demais novamente…
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Valeu, Diego Dunga!
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Bacana demais esta sua crônica Dilvo, dá até vontade de comprar esta bicicleta com tanta história vivida, rs. Mas acho q vc não devia vendê-la por ter sido uma companheira e tanto…
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Na verdade, ela não está a venda.
Eu apenas estou vendo ela.
haha
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Olha aquela casa ali, “vendo” tudo! Viu? E o fusca “vendo”. A pessoa “vendo” sua bicicleta que não está a venda porque o valor sentimental é tão grande que não “vendo” por preço algum. Sento num banquinho, e fico “vendo” junto. Tão boa a cia.
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Eu fico “vendo” essa bicicleta.
Não posso vendê-lá, já que ela é instrumento de trabalho deste humilde “recinto”, que você está vendo agora.
Então, de repente, a gente poderia ficar sentando no mesmo banquinho “vendo” ela parar. haha
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