Rumo à Geladeira

por Dilvo Rodrigues

Ando pela casa vazia, abro a geladeira. Olho e procuro e não encontro nada que me dê vontade de beber ou comer. Ultimamente, percebi que a vontade só vem depois de abrir a geladeira ou a dispensa da cozinha. Nunca mais senti vontade de comer pudim sem que o mesmo estivesse pronto e me esperando ali, em uma daquelas prateleiras geladas. Hoje eu fico desejando que o sentimento volte e que eu pudesse dizer: “Como estou com vontade de comer pudim.” A verdade é que eu não tenho vontade alguma.

Fiquei surpreso quando vi o jornalista dizendo que no programa de domingo vai ter uma homenagem ao Mussum, pelos 20 anos da morte do humorista. Eu não me lembrava que o trapalhão tinha morrido no mesmo ano que o Ayrton Senna. Mas, também, nessa minha “vontade” eu custo lembrar até de trocar a água do cachorro, que anda fedendo mais que gambá em dia de festival de abraços. Eu acho que vou assistir ao especial do Mussum. Dar banho no Chico!? Difícil! O que será que tem na geladeira? – penso.

Quem realmente apareceu dando as caras com tudo foi o Sobrenatural de Almeida. O sujeito deve ter ganhado um ingresso vip para sacanear os espanhóis. E conseguiu. Isso que é vontade de aparecer. E a Dilma? Coitada! O povo foi com vontade de azucrinar a presidenta. Ela foi sem vontade de fazer discurso e eu acabei dormindo no meio do jogo. Eu não gosto de futebol. Às vezes até penso em ver uma partida do Democrata. Só que sair la do Boqueirão para ir até o Mamudão; difícil também, viu!? Santo Antônio estaria hoje atendendo os primeiros pedidos ou no seu primeiro dia de folga? O que isso tem a ver? A gente tem muita dificuldade de se fazer compreendido. Muitas vezes é acomodação, as vezes é só preguiça mesmo.

Dizem que baiano é preguiçoso. Eu não acho. Quem é preguiçoso não faz festa o ano inteiro. Preguiçoso mesmo é quem fica achando que o outro vive assim. Se tem tempo para pensar nessas coisas, deve ter tempo de sobra. Acho que tem sorvete de flocos na geladeira. É do tempo de quando a Gisella veio aqui, não me lembro por que motivo. Ah, Gisella! Se eu tivesse coragem! Eu seria o homem mais ativo do mundo. “Eu limparia os trilhos do metrô. Eu iria a pé do Rio a Salvador.” Eu preferiria te encontrar em Curitiba. Sabe como é, né!? No frio a gente fica quietinho ali, sem fazer nada.

Talvez eu precise ir ao médico e pedir receitas de remédio para a força de vontade. Os mais modernos, claro. E remédios que combatam a loucura, os mais modernos também. A modernidade inventou a rapidez, a velocidade, a mobilidade e todas essas coisas de ação, mexa-se e faça você mesmo. Ela deve ter, sem dúvida, antídotos contra a minha letargia. E para que os remédios contra a loucura? Eu não sei, mas vai que precise. Esse sorvete tá bacana! Onde tá a lista telefônica? Hoje é sábado, médicos só no hospital municipal. Na segunda eu vejo isso então, penso comigo. Como é que pode? Essa casa tá tão vazia.

– Chicho, venha aqui. Joga o porte de sorvete na lixeira pra mim. Não Chico! Não é para jogar no vaso. Cão estúpido!

Me levanto bufando, tenho de tirar o pote de sorvete do vaso. Depois, vou abrir a porta e colocar ele lá fora, de castigo. Antes, mas o que será que tem na geladeira? – penso.

Um comentário sobre “Rumo à Geladeira

  1. Você descreveu bem nesta crônica Dilvo, o que todos nós às vezes vivenciamos: desânimo, preguiça, ansiedade, que muitas vezes satisfazemos com comida, rs. É preciso mesmo combater isto, pode ser com bons livros, boas companhias, oração, ou até com remédio, se for necessário for; o que não podemos é nos entregar, isto jamais.

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