por Dilvo Rodrigues
Eu trabalho em frente ao rio. Não é assim, aquela coisa bucólica e romântica, não. Não é aquela cena de filme que a gente coloca uma cadeira ali às margens do Rio Doce, sentado com um computador no colo. Mas a água tá ali, passando do outro lado da rua. Ou seja, é só descer as escadas, apertar o botão “abre” do portão eletrônico, atravessar a rua e pronto. Acontece o barulho do rio passando, calma e poluidamente, fugindo para o mar. Amamos esse rio. Mas sabe como é? Nem sempre a gente sabe cuidar bem daquilo que ama.
Às vezes tem um povo lá, sentado, batendo papo. Uma conversa marota de vida mansa. Às vezes tem um povo fumando uns cigarros diferentes por lá, acho que aquilo tem ciência! Tem alguns que param por ali e ficam só observado a água vir e ir. Outro dia, apareceu um corpo de uma senhora entre as pedras. O lixo arrastado pela correnteza da última enchente permanece nos galhos dos arbustos. Sempre tem umas garças graciosas passeando pelos rochedos esculpidos pela força fluvial. Nas segundas, aparece um sujeito com uma canoa azul. A canoa amarela fica encostada sempre no mesmo lance de barranco, tomada pela água, amarrada a uma árvore por correntes fortificadamente enferrujadas. Se fosse bicicleta, em Valadares, já teria sido roubada.
Nunca vi peixe saindo do Rio Doce. Melhor dizendo, nunca vi ninguém pescando se quer lambari nesse rio. A gente acaba encontrando pelas ruas da cidade um vendedor ou outro com uma penca deles amarrada ao guidom ou na garupa da bicicleta. Eles dizem que com um pouco de paciência se fisga uns belos de uns dourados. Eu duvido. Tudo história de pescador. Qualquer peixe, por mais bobo que fosse, não iria estabelecer morada nessas águas verdes e mal cheirosas. E isso me faz pensar que os índios cuidavam desse mundaréu de água bem melhor do que nós. E olha que a gente tem a ciência. Índio só tinha gratidão pelo rio. Índio é outra história. Ficava ali, pescava o que era necessário e tomava banhos demasiadamente vezes por dia. O Rio era o agente da paz, impedindo encontros mortais entre tribos rivais, a margem esquerda versus a margem direita. Oriente contra ocidente. Pensando bem, talvez índio seja a mesma história, mas só nessa coisa de guerra.
O Carlos Drummond de Andrade escreveu que “no meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho”. Se ele vivesse por essas bandas aqui teria sido diferente: “No meio do caminho tinha um rio. Tinha um rio no meio do caminho e a pedra era o destino.” Os geólogos dizem no leito do rio morar um vulcão aposentado, que deixou de cuspir fogo para engolir água. Um sumidouro responsável por devorar os animais mais indefesos e homens ruins de natação. Eu sempre tive muito medo era mesmo da Cachoeira Escura, uma queda d’água que não dava para ver meio palmo a frente do nariz. A copa das árvores impedia a passagem da luz. Eu nunca tive coragem de entrar. Tomar banho no escuro só se for na bica da casa do tio José, o Banho tcheco! Tcheco no “subaco” esquerdo, tcheco no “subaco” direito. Pronto, Tá limpo!
E quem nunca tomou banho no rio? Eu tomei vários. Nunca fiquei doente por isso. Alguém um dia me disse que o banho de rio purifica a alma, leva embora os sofrimentos dela. Deve de ser por isso que os índios tomavam banho várias vezes por dia, para levar os espíritos ruins, as artimanhas do “coisa ruim”. Mas aí, outra dúvida surge: E aquelas pessoas que entraram no rio quilômetros antes da gente? Será que a gente incorpora as coisas ruins delas? Não sei. Cadê o índio pra perguntar? Índio que se preza não moraria nas margens desse rio sem peixe, sem banho, descuidado e largado feito mendigo, feito drogado. Um sujeito sabido dos entendimentos do mundo disse certa vez que ninguém se banha no mesmo rio duas vezes. Eu acho uma pena. Que pena, hein, Rio Doce? Ah, se você fosse aquele mesmo rio, de outras histórias, eu me banharia em suas águas novamente.
Que gostosura ler você! Este texto me levou em viagem por alguns “quilômetros”. Me embriaguei. Me droguei. Me banhei nele por inteiro. Cheguei ao ponto de sentir um vulcão dominado pela volúpia destas águas! A natureza deleitada: A força de um furioso vulcão saciado pela água doce. Doce água de um doce rio…
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Obrigado pelas palavras, Taninha! Palavras de poeta, diga-se de passagem. Nosso Rio Doce, coitado! Merece carinho de mãe e cuidado de pai. Pena estar tão abandonado!
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Belíssima foto e ótima crônica Dilvo. Morei pertinho do Rio Doce quando criança, mas sempre fui medrosa, por isto creio q nunca tomei banho nele, somente molhei os pés, rs.
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Me lembro de ter tomado banho umas duas ou três vezes no rio.
Mas hoje não tenho coragem nem de molhar os pés.
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LINDO RIO DOCE CONTADO ATRAVÉS DESTA HISTÓRIA …DÁ PRA IMAGINAR EM OUTRORA ESSE MUNDÃO D ÀGUA.TEXTOS MUITO BONS DÁ PRA VIAJAR NO TEMPO …QUANTA REALIDADE E SIMPATIA….
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Obrigado pelas palavras!
O Rio Doce merece muito, mas muito mais que um texto.
Merece ser cuidado, tratado com um parente querido de todos nós.
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