Uma Carta ao Leitor Ausente

por Dilvo Rodrigues

“São duas horas da madrugada e eu imagino que não estaria lendo essa carta logo agora. Você deve está dormindo, pretende acordar amanhã bem cedo para fazer suas entrevistas de não sei mais o que. Eu não sei mais onde você trabalha. Estive no seu último emprego e lá ninguém tinha notícias do seu paradeiro, disseram que possivelmente estava fora do país, na África. Mas, me vou acordada pela madruga afora. Na TV, tem um sujeito estudioso da corrupção no Brasil. Ele acabou de afirmar que se rouba US$ 1 bilhão por ano dos cofres públicos tupiniquins. É muito dinheiro! Sei que você gosta desses assuntos de política e fiquei me perguntando se você não estaria agora assistindo essa entrevista também. Falando em dinheiro, consegui um bom dinheiro para montar aquele restaurante de comida árabe que a gente tanto conversava. Pena que não consegui terminar o curso e me formar junto contigo. Mas se você ainda quiser ser meu sócio, o convite tá de pé. É claro, isso é só mais um pretexto para ter você bem perto de mim todo dia. Quem sabe assim que você voltar da África e ler essa carta. Isso é claro, se você não virar comida de leão. Mas olá, tudo bem?”

“Parece que vai chover. O Clima está mais ameno e tem ventado aqui na cidade. O que tem me animado a andar de bicicleta lá pelas 10 horas da noite. Eu costumo ir ao parque, paro em frente a lagoa, fico ouvindo na memória nossos bate papos sentados na grama. Lembra? Foi o lugar que você mais gostou quando esteve por aqui, mas fazia um calor danado. Você ficou vermelho de sol e foi doloroso não apertar suas bochechas e massagear suas costas por alguns dias.  A prefeitura fez uma limpeza no local. A noite aquele lugar é uma beleza. Mas, a noite é só a escuridão que chega aos olhos e se encarna na alma. A mesma que deve habitar seus olhos agora, durante seu sono. Ainda que sua alma esteja mais leve agora, suponho. Aqui no quarto tem luz, mesmo por que não consigo enxergar as letras sem meus óculos fundo de garrafa. Agora uso óculos para escrever e uso óculos para quase tudo. Uso óculos até de olhos fechados. Acho que é por isso que tenho apreciado mais os sons que chegam e que vão. De acordo com o doutor mais sabido, sofro de uma doença degenerativa. Eu chamo de “definhativa”. Primeiro vai visão, depois os cabelos, depois os movimentos das mãos e, por fim, a memória. Daqui a algum tempo, não me lembrarei de nada, inclusive de você. Quando você volta?”

“Não precisa se preocupar sobre aquele dinheiro que me deve. Meus dias aqui no interior estão contados e devo voltar para meu canto frio. Acho que poderíamos então nos ver e tomar um café ou um chocolate quente. Seria a melhor maneira de saldar a dívida.  O Boris morreu atropelado por uma dessas bicicletas a motor. Seus pais estão bem? Estou terminando meu mais novo romance, que vai se chamar “Nada é Como Antes”. Espero lança-lo no próximo ano.  Meus pais resolveram se mudar para um sítio no interior da Bahia e eu fiquei nessa casa enorme e só. Ontem encontrei aquele seu amigo cineasta, o Alfredo. Ele também não tem notícias suas. Só sabe o que todo mundo repente, que você está em algum lugar da África. Ele disse que tá tentando “rodar” um filme que você ajudou a escrever. Eu não me lembrava mais que você estudou cinema e que escreve, mesmo tendo tantas cartas suas na gaveta do guarda-roupa. Talvez, seja problema da minha memória, que já deve estar sofrendo os primeiro baques.”

“Acho que estou sendo chata. Desculpa incomodar. Espero ter notícias suas o mais breve possível, que essa carta chegue o mais breve possível às suas mãos. Se demorar, não vou poder fazer outra coisa, esperarei. Sabe que música estou ouvindo agora? Contarei, quando você responder esta carta.”

– “ Um Beijo! Francine, 26 de maio de 2013”, li em voz alta.

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