O Rapaz Exótico

por Dilvo Rodrigues

Sentamos à mesa. Era uma mesa mais afastada do movimento do bar, que na verdade se tratava de um lugar que vendia espetinhos dos mais variados sabores possíveis. Devia se chamar Espetinho do Valmir, Espetinho do Vladmir ou coisa que o valha.

– Ô Garçom, traz o cardápio e já vai descendo uma Brahma, aquela lá do cantinho da geladeira.

“Olha, vai ter música ao vivo aqui hoje.”, pensei com os meus catetos. Eu nunca tinha visto música ao vivo no espetinho bar. Novidade!

– Quem vai cantar? – me pergunta a Patrícia.
– Deixa ver, só conheço de nome. Já me disseram que é boa. – acrescentei.

A cerveja chegou e não tava lá essas coisas de gelada. A gente não reclamou. Bebemos “água” quente, por assim dizer. Coisa normal de cliente brasileiro, aceita o que vem. Nada novo.

– Vai querer comer algo? – perguntei pra Patty ( também assim conhecida), já olhando por garçom e sabendo que ela não iria querer nada.
– Um de boi, ok!?
– Ok, senhor!

A cantora não estava muito afim de estragar a voz, mas mesmo assim o som acontecia agradavelmente. Era uma noite agradável, diferente de grande parte das noites valadarenses, quentes e infernais. O tempo seguia passando, as cervejas seguiam quentes. Nenhuma novidade até que surge a primeira oportunidade de ir ao banheiro. Então, me encaminhei até o dito cujo, fiz aquele serviço todo e logo saí. Eu ia lavando as mãos, quando me chegou uma voz pronunciando corretamente meu nome. “Esse me conhece de outros carnavais”, pensei.

– Dilvo! Quanto tempo? Está morando em Valadares? O que tem feito da vida? Casou?

A sorte de sorte de ser jornalista é que decoro todas as perguntas e consigo respondê-las na sequencia exata do respectivamente.

– E aí, rapaz! Tô bem. Estou morando em Curitiba. Há poucas coisas que eu não fiz e não faço da e na vida. Uma delas é casar. Rimos. Um riso falso daqueles que não chega a ser falso. É daqueles que acontecem quando a gente encontra uma pessoa na qual já não nos sentimos mais a vontade para rir abertamente.

– Poxa, bom te ver!  Entre logo, não quero que você urine na calça na frente de todo mundo. – Completei, dando boas vindas e tchau ao sarcasmo.

Voltei à mesa. Sentei. Bebi um golão de cerveja. Pedi uma outra mais gelada. Olhei para lado, e percebi que na outra mesa havia uma pessoa me olhando. Não era a do banheiro. Digo, da porta do banheiro. Quero dizer, do encontro do lado de fora da porta do banheiro. Era uma senhora, com um ar “riponga”, um sotaque diferente, mas que eu julguei já conhecer de algum lugar. Não demorou muito e a fulana veio até a mesa. E eu na minha introspecção quase tímida tentei fingir normalidade.

– Oi, você não está lembrado de mim, né?
– Tenho uma leve impressão que te conheço, que já nos falamos. Mas, sinceramente, não me lembro do seu nome e nem de onde posso ter lhe conhecido. Desculpe!

Nos conhecemos durante uma entrevista. Eu era um dos convidados para fazer perguntas à ela, que era a entrevistada sobre um tema da área médica.  A entrevista tinha sido no lugar tal.

– Ah sim, lembro. Foi divertida aquela entrevista.
– Sim. Você é muito bom jornalista, muito inteligente e tem bom humor também.
– Muito obrigado!
– E tem um rosto difícil de esquecer. Uns traços diferentes. É Exótico!

Acontece sempre quando alguém é demitido, pega a mulher na cama com outro ou descobre que perdeu toda a fortuna. O Fundo do vídeo desloca, os lados também e o cara parece que entra num transe doido. É uma técnica muito usada no cinema, se chama vertigo. Eu, no centro do vertigo. Um personagem num transe doido. “Exótico?”, pensei comigo. “Poxa! Então quer dizer que entrei para o rol das gazelas de canela rosa e peluda do leste da patagônia que estão em extinção?” Eu olhei rapidamente para a Patrícia, milhões de KKK’s inflavam a bochecha dela. Eu tive de manter a compostura e continuar a conversa.

– Ah sim, eu me acho normal. Bom, mas obrigado novamente pelo “elogio”.
– Legal, se precisar de alguma coisa, outra entrevista, to a disposição.
– Entro em contato, se precisar.
E lá se foi ela sorrindo, indo para a mesa. E eu fiquei ali. Pensei logo em chamar o garçom. Ele veio e fui falando:
– Poxa, já que você não tem UMA, UMA única cerveja gelada. “Me vê” aí uma caipirinha.

Achava ter recebido a pior cantada do mundo quando uma guria sentou do meu lado e puxou conversa perguntando se eu era gay. Mas, na vida tudo pode sempre piorar. Normal! Minutos depois o rapaz do banheiro veio assim:

– Tenho uma amiga querendo seu telefone.
– Quem? A que me chamou de exótico?
– Sim.
– Sinto muito, não vai rolar.
-Ok! – disse ele conformado.

Depois pensei que poderia ter anotado em um pedaço de guardanapo qualquer o telefone do IBAMA.

4 comentários sobre “O Rapaz Exótico

  1. Vc é mto bom escritor. Suas crônicas me fazem “viajar” mto. Esta, em especial me lembrou uma garota que tem cabelos lisos(e poucos), mas faz a tal escova inteligente, que eu não sei prá quê e ainda “aloira” tudo com luzes. Ela fica parecida com a Maga Patalógica loira e um dia ela se aproximou de mim, nem perguntou as horas ou se eu ia bem e disse, na lata: Eu, não pintaria meu cabelo! ‘…”partchcularmentch” não gosto dessa cor.´ Bom, nenhum músculo da minha face se moveu e meu cabelo continua vermelho. E o dia que não estiver vermelho, estará branco. Doa a quem doer.

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  2. Concordo com a mulher da sua crônica Dilvo: ” Você é muito bom jornalista, muito inteligente e tem bom humor também.” Por falar em bom humor, interessante o “Na vida tudo pode sempre piorar”, rs. É cada coisa que falam da gente, da aparência ou do nome…um dia desses pedi a um padre para dar um aviso durante a Missa, ele perguntou meu nome e quando eu respondi ele disse assim: “Que nome esquisito!!” Creio q meu nome é diferente, pouco comum, mas esquisito? Achei esquisito isto, rs.

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