Esquecidos no Tempo

por Dilvo Rodrigues

“Devagar e sempre, ninguém passa na frente.”, disse certa vez o poeta curitibano Sérgio Rubens Sossélia, falecido em 2003. Isso refletia um pouco da angustia do escritor a respeito da abrangência dos escritos dele junto ao público leitor. Ou seja, o medo de não ser lido por ninguém. O Enerst Hemingway, um dos escritores que mais influenciaram a literatura moderna, pretendia que seus livros fossem objetos de leitura e comentários por uns 40 anos, isso depois de publicados. Eu gostaria de escrever um texto para ser lido daqui até às 14 horas da próxima segunda-feira. Não que eu tenha a ânsia de ser lido por dezenas de lindas estudantes universitárias de direito, durante os cincos anos de faculdade, ou pelos intelectuais curitibanos mais bem vestidos de casacos de lã. Eu, se pudesse, gostaria de ser lido no ponto de ônibus por uma secretária ou por um office-boy, enquanto espera da gerente o comando para ir entregar a próxima condicional.

Há pessoas que, se pudessem, socavam o texto dentro da garganta da gente, com a mesma intensidade de um black block, quando atira seu coquetel molotov no prédio do governo do estado. O sujeito do Black Block dificulta a leitura das coisas. Usa uma máscara, é apartidário e violento. Tenta enfiar sua verdade goela abaixo dos políticos e da população. Eu sempre achei que ninguém quer ser pressionado ou obrigado a nada, inclusive a ler, ouvir e concordar. “Eu, se pudesse, matava mil.”, bradou o cabra macho alcoólatra nordestino. A verdade é que se fosse autorizado, matávamos mesmo. Uns goles a mais e inúmeras verdades escondidas lá dentro do nosso fígado ganham vulto. O complicado é que tem muita gente é adepta da filosofia: “Bom é quando dói!”. Não é atoa que os jornais mais experientes em trocas de tiros entre bandidos, assassinatos de mulheres por homens loucamente apaixonados, rinhas de galo e tráfico de drogas sejam os mais vendidos nessas bancas afora. Se torcer feito uma toalha molhada, sai até plasma.

A essência da dor e da angustia de um escritor ou um artista qualquer se justifica por que dói não ser lido, dói a efemeridade e dói na alma. E qualquer jornalista entende muito bem o que significa ser tão efêmero. A notícia passa, mas o papel ainda serve para embalar o peixe ou para proteger o chão dos respingos de nova pintura da casa. A arte machuca também quem está do outro lado da cortina. Você vai ao cinema assistir um filme conceitual. Você sai de dentro da sala doendo por que não entendeu “nadica de nada”. No museu, frente a uma pintura abstrata, franze a testa, aperta o olho e coça a tampa da cabeça. Doeu de novo! Lê Camões e começa a pensar: “Por que esse povo faz piada com Português?”. Ui! É ruim não ser lido ou visto, mas também é terrível não ser compreendido ou não compreender.

Um amigo, que esteve na cadeia no mês passado, me contou uma coisa estarrecedora. Ele não entendia por que a maioria dos colegas de cela sabia a língua dos sinais. Nosso detento inexperiente também não se encorajou a descobrir o motivo. Vai que aquilo fosse um instrumento apenas permitido para membros credenciados de quadrilhas muito perigosas!? Ele sabia que era a língua, mas não entendia bulhufas do que seus colegas de crime diziam com os dedos. Ao contrário dele, Ronald de Carvalho entendeu muito bem o tom de desaprovação da pauliceia desvairada ao ler o poema “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, na Semana de Arte Moderna de 1922. E muita gente lê Os Sapos até hoje. Ao contrário deste texto, é claro, que vai ser lido até às 14 horas da próxima segunda-feira.

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