por Dilvo Rodrigues
O primeiro disco que ganhei foi um vinil da Daniela Mercury, o Música de Rua! Eu tinha uns 10 anos, nunca nem tinha ouvido falar nela, em música baiana, essas coisas. Meu irmão mais novo queria comprar Sandy e Jr., aquele que tinha “que co c foi faze nu matu, Maria Chiquinha!?”. Tinha mais a ver com a idade da gente, né? A Andreia, uma das minhas irmãs ficou lá, de capetinha no ouvido. “Compra da Daniela Mercury, Dilvin. Compra o da Daniela Mercury. Compra!”
Na capa tinha uma moça de cabelo cacheado, no maior sorriso, uns olhos e sobrancelhas bem marcadas. Pensei: “Essa não canta Maria Chiquinha!” Vamos ouvir? O vendedor colocou o disco na vitrola. “Tchê tche tche tche tche! Alegria agora. Agora e amanhã.” Ela é gaúcha? Não, é baiana! Gostou? Eu nem respondi. “Coloca na próxima, moço.” E eu pegava a capa, nem queria saber do encarte. Só ficava olhando o sorriso da moça posando de cabelo cacheado. “Ahaaam, aham, aham, aham. O Brilho despertou. O brilho…” Próxima, moço! “Tem que ter bah, tem que ter iá. Tem que ter alegria ocidental. Pode ser banal, tem que ser Bahia. Tem que ter carnaval!” Música bonita e poética, sobre a alegria das pessoas no carnaval. Eu já estava gostando demais, atraído pelo swing. Daí vem: “Canto pra você me seguir, se quiser. Tem que ter você.” Eu olhava a capa, o sorriso e no ouvido aquela voz dizendo “Tem que ter você.”. Amor platônico à primeira vista!
Em 1996, muita gente ainda curtia aquela fusão de música regional popular de Salvador (se assim posso dizer!) com reggae. “Eu adoro Reggae como adoro Mar”. Era a primeira vez que via um clipe da Daniela Mercury, a dança, os cabelos cacheados voando. Mas eu sabia, o cenário do clipe não era Bahia, Brasil ou Jamaica.Era uma parte de um lugar que eu desconhecia. Deveria ser longe! Muito tempo depois, vi as imagens de uns dos primeiros shows em São Paulo, no Masp. Naquele mesmo ano (1996), ela lançou uma música com o Samuel Rosa, “Minas com Bahia”. Uma das faixas do álbum Feijão com Arroz.
Nos anos 2000, eu viajava muito a Porto Seguro. Uma cidade badalada do sul da Bahia, mas que, aparentemente, é bem diferente de Salvador. Eu já tinha lá meus 15 anos. Toda vez que chegava na fronteira de Minas com a Bahia ficava imaginando os dois ali na divisa, no meio da rua. A Daniela Mercury me recebendo no estado dela cantando “Sacudir estrelas, despertar desejos, numa noite fria.”. Depois de Minas com Bahia, quando o Samuel já estivesse lá longe, na Savassi, eu pediria a ela: “Ah, canta Alegria Ocidental em um carnaval só pra mim?” Eu iria seguir aquela mulher até Salvador, dizendo que é bom, dançando e morrendo de rir. Uma pena! Nunca vi sequer um show dela.
Certa vez, num carnaval em Itabira-MG a banda de axé começou a tocar “Vai chover.” E, de verdade, caiu o maior chuverê. O carnaval acabou ali mesmo, frustrando minhas chances de conseguir um agrado da mocinha mais amada da época e que tinha viajado com a gente. Começava a acabar ali meu relacionamento, que só existia da minha parte, com a rainha do axé music. Eu comecei a apelar para as bandas de grunge, de heavy metal a bossa nova, clássico a arrocha. Depois surgiram todas as outras musas do axé, nenhuma delas despertou interesse assim. Mas me lembro de ter ido em uns dois show da Ivete Sangalo, em Valadares. Mesmo sem conhecer uma música dela. Meu esquecimento de Daniela Mercury durou até que a TV Globo decidiu reprisar a novela o “Rei do Gado”. “Quando não tinha nada, eu quis. Quando tudo era ausência, esperei.” E, essa história toda, que eu nem lembrava mais, veio à mente. Antes, um encanto bobo adolescente, agora surge uma admiração pelo artista. Que eu até posso encontrar ali, ligando o Globeleza ou o Band Folia. Mas nada! Aquele vinil do “Música de Rua” é que tem feito mais falta nesse momento.
Muito bom Dilvo, além de escrever bem, vc tem bom gosto para música.
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Obrigado Maracy! Sempre é muito bom ver seus comentários aqui. Poxa! Obrigado mesmo pelo incentivo.
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Ri mto, nn sabia deste seu amor pela Danyela…
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Kkkkkkkkkkkkkk
eu sempre gostei.
Mas já não acompanho mais.
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