Mulheres; Nunca entre Aspas

por Dilvo Rodrigues

Quando pedi a sete mulheres para escrever um texto de cinco ou seis linhas sobre o que elas achavam ou que elas pensavam sobre a figura da mulher no contexto da sociedade atual eu não esperava mesmo nada padrão. As falas e dizeres seriam publicados por aqui, em formato de abre aspas, com nome e profissão de cada uma. Ou seja, um formato demodê que a revista Veja e outros veículos de comunicação utilizam com frequência. Eu não queria escrever sequer uma palavra de minha autoria. Só iria me dar o trabalho de reunir os depoimentos na página. Nada saiu como o planejado.

A Chamada foi mais ou menos assim:

– Então, eu tenho um blog, escrevo coisas diversas lá. To colhendo depoimentos de meninas, mulheres, senhoras, sobre elas mesmas ou sobre como elas se sentem enquanto mulheres. Coisa de 5 ou 6 linhas. Tem a ver com o dia internacional da mulher. Quer escrever algo e me passar? Se tiver afim, preciso até sábado!

A primeira resposta foi assim:

– Quero, vou escrever como é machista perguntar a uma mulher “como você se sente enquanto mulher?” que tipo de pergunta é essa? Quem e em que estado de coisas ela pode ser formulada e porque?”

Minhas intenções eram boas. Porém, manifestadas de uma forma infeliz, digamos. Na verdade, meu desejo é que essas pessoas manifestassem algo não em relação a como elas se sentem como mulheres, mas como elas veem a figura, as condições e perspectivas da mulher na sociedade atual. Quis me comunicar, mas comuniquei errado. Me estrumbiquei! Tomei gostoso!

Uma das outra moças que abordei, já com o adendo explicativo citado acima, estava trabalhando. Ela é jornalista, devia está gravando um jornal, uma matéria ou algo qualquer.

– Querido, depois te chamo! Estou muito ocupada aqui.

Não chamou mais, eu não queria incomodar. Tá valendo! O prazo era até sábado (7). Quem mandou achar que mulher quer usar aspas, frases de efeito, discurso de direita ou de esquerda!? A gente não acordou ainda, há coisas mais importantes na vida. E sempre é mais importante fazer do que falar. Tomei de novo!

Tinha uma que era bem aguardada. Eu achava que iria tomar um outro sabão, daqueles que a voz da sujeita ficaria repetindo na memória dias a fio.

– Rapaz, consegui escrever não. Assisti a um butô na sexta à noite que me desmontou. Levei sábado inteiro pra me recuperar, tanto que mexeu comigo. Ficou pra próxima, foi malz!

Mas, o que devia de ser um butô?, perguntei.

– É uma dança-teatro japonês(a). Se passar por MG, fica de olho que é obrigatório assistir: este que vi chama Fukushima Mon Amour, do Tadashi Endo. É sublime! Eu soluçava ao final, de tanto chorar (as outras pessoas da platéia não, mas ele foi intensamente aplaudido por looongos minutos!).

Indicação de peça teatral aceita com sucesso!

– Tem alguma ideia de um texto para o dia da mulher? Um assunto sem ser melação!?, fui me aconselhar com uma moça, que curte cheiro de mato, fazenda.

O abre aspas parecia ir para o brejo e eu precisava escrever algo. Ela disse:

– Fala do quanto somos boas motoristas!

Eu precisaria ir para estrada, tentar achar uma caminhoneira, uma taxista, uma motorista de ônibus urbano (que em Valadares eu nunca vi!) ou uma mototaxista. Tudo começava a ficar chato demais. É muito mais simples dizer “Feliz dia das Mulheres a todas e todos. Que seja um dia de bastante reflexão e um incentivo para mais e mais conquistas.” Muito mais fácil, sem melação, sem botão de rosa, sem demagogia barata. Eu começava a ficar magoado!

– Tá afim de escrever um pequeno depoimento, de 5 ou 6 linhas, em relação ao dia internacional da mulher? Pode ser qualquer coisa. Desde protesto contra o Bolsonaro até uma receita de bolo especial para o dia.

Foi surpresa que ela respondesse:

– De repente pode sair alguma coisa, se a gente se sentar ali no boteco e tomar uma!

Peguei a bicicleta, pedalei até o bar, levei caneta e papel. Pensamos em escrever uma receita de bolo, uma receita de mulher. Cerveja vai, cerveja vem. Papo vai, papo vem. Não saiu nada! Voltei pra casa bêbado, sem meu depoimento, sem receita de bolo, sem protesto contra o Bolsonaro.
Enquanto catava as faixas da ciclovia, achava essa história de abre aspas a coisa mais ridícula do mundo. Nunca mais deveriam ser abertas. Por que, em se tratando de mulheres, a gente aprende muito mais é quando a coisa começa mesmo é com um travessão.

4 comentários sobre “Mulheres; Nunca entre Aspas

  1. Ótima sua crônica Dilvo, bem humorada e criativa sua ideia de publicar o q aconteceu mesmo ao pedir a mulheres pra escrever sobre elas. Mostrou bem como estão as mulheres de hj em dia, nada românticas nem gentis, muito ocupadas, infelizmente. Mas valeu a crônica, gostei.

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