por Dilvo Rodrigues
Não falta música em Governador Valadares e as opções são variadas. Na mesma noite, você pode frequentar um barzinho reconhecido pelas apresentações de duplas sertanejas e, mais tarde, pode ir para um pub ouvir rock clássico ou heavy metal. O ponto em comum entre a maiorias desses locais, ainda que não seja uma semelhança proposital, é que quase na totalidade deles é bem difícil encontrar som autoral, isto é, artistas que tocam suas próprias músicas. O Meras Crônicas conversou sobre isso com pessoas do cenário da música local. Respectivamente, Dilpho Castro, líder da banda Silent Cry; Marcos Aranha, cantor, compositor e vocalista da Dr. Jiwaggo; Peterson Camargos, guitarrista da Banda Ox e parceiro musical da cantora Tamy Braga e Clério Teixeira (Mais conhecido como Clerin), produtor musical e músico.

Meras Crônicas – Você é dono de um pub em Valadares, um lugar em que se apresentam vários músicos todos os finais de semana. Como você vê o interesse do seu público por artistas que trabalham com músicas autorais? E, por outro lado, você percebe que os músicos que tocam ai tem a preocupação de apresentar esse tipo de trabalho?
Dilpho Castro – Infelizmente a realidade é que as pessoas tem os olhos fechados para o novo. Nossa sociedade, em sua maioria, esta muito acostumada ao clichê e mesmice. Acho o cover algo muito interessante que com certeza trás diversão e nostalgia, porém não gosto de ver a falta de interesse das pessoas para com a musica autoral, o ideal seria termos interesse para as duas formas de se trabalhar. Luto com todas as forças em prol da musica autoral, sou um idealista sonhador e percebo que os músicos também tem perdido o interesse no autoral, justamente pela falta de apoio do publico, porém sempre vai haver variáveis positivas para nos brindar.
Meras Crônicas – Você também é líder de uma banda que trabalha com composições próprias. Como você vê a questão da música autoral dentro do segmento musical ao que a Silent Cry está ligada? É o mesmo quadro que acontece, por exemplo, no cenário da música pop atualmente?
Dilpho Castro – A Silent Cry é uma banda antiga que trabalhou muito para ter publico em vários lugares do planeta. No meio POP é bem diferente, na música alternativa existe a ajuda de outros artistas que estão na luta. Já no POP tudo é “jabá”, rádio, TV. Ou você é um peixe forte ou vai ter que pagar se quiser aparecer. É assim que o mercado fonográfico funciona, as bandas mais antigas que conquistaram seu espaço estão ai, as novas tem mais dificuldade em mostrar seu trabalho e fazer com que as pessoas as ouçam, com isso muitas desbancam para o lado do cover.
Meras Crônicas – Hoje em dia existem alguns programas na TV aberta brasileira que oferecem oportunidades para novos artistas. Programas como o The Voice Brasil e o SuperStar. Porém, na maior parte das vezes, esses artistas novos chegam lá cantando músicas de artistas já renomados ou conhecidos. O que é muito diferente dos festivais do passado, que revelavam músicos e canções novas, por exemplo. Você acredita que isso é reflexo de uma imposição comercial, da indústria da música ou poderíamos dizer que as pessoas “perderam” o gosto ou a vontade de conhecer algo novo?
Dilpho Castro – As grandes corporações vão para o lado que o mercado aponta. Para mim a culpa é do publico, que tem dado preferência aos interpretes em detrimento das composições próprias. Acredito que isso vai passar, pois sempre tem gente fazendo boa musica, cabe ao ouvinte se interessar, as pessoas se deslumbram muito com esse tipo de programa, eu curto o velho processo de compor, fazer uma pré-produção e lançar CD, clipe etc. Esta é a melhor forma de expressar sua arte. Se as grandes corporações não acreditam em você, siga em frente mesmo assim, eles querem o que vende muito, e não o que é bom. Se o trabalho for bom, uma hora você encontrará seguidores para sua musica. Esses programas em sua maioria são sensacionalistas e os julgadores estão preocupados com as vendas futuras do artista, baseado em um mercado já existente, e não só na música. Estamos enfrentando um “emburrecimento” musical no Brasil, mas, de contrapartida, uns poucos buscam por coisas novas e não caem nas armadilhas da “musica fabricada”, que vem e vai a cada três meses em um mercado totalmente hostil.

Meras Crônicas – Seu trabalho autoral é bastante conhecido aqui em Valadares. Muitas pessoas sabem cantar suas músicas e você é um dos poucos artistas autorais aqui na cidade que conseguem levar um considerável número de pessoas aos seus shows. Conte um pouco do cenário do surgimento da sua carreira. Ele era mais propício para esse tipo de música do que é atualmente?
Marcos Aranha – Na verdade, não! Quando comecei havia poucas bandas que tocavam musicas autorais e a maioria delas nem tocavam tanto. Mas, na verdade, o que faz a diferença se você é uma artista autoral é você tocar suas musicas para que o público as conheça, uma vez que as rádios não abrem muito espaço para a musica independente.
Meras Crônicas – Na sua opinião, o que impede ou torna mais difícil a vida de um músico que tenta viver através de suas próprias composições? É o público, é a indústria da música ou é a própria classe artística?
Marcos Aranha – Acho que são as três coisas. A indústria tem um interesse de lucrar muito com a massa, e a melhor maneira dela conseguir isso é criando e sustentando uma massa ignorante e feliz. O publico talvez por passar tanto tempo sendo “educado” para isso, aceita e segue feliz, e a classe artística por se acomodar diante das circunstancias.
Meras Crônicas – Se você fosse dá alguns conselhos para alguém que pensa em viver de música autoral, quais seriam esses conselhos?
Marcos Aranha – Seja honesto consigo mesmo, com sua arte, respeite seu publico e seja natural.

Meras Crônicas – Você e a Tamy Braga acabaram de lançar um CD com músicas autorais. Como tem sido a recepção do público? Quantas cópias fizeram e quantas já venderam?
Peterson Camargos – Muito positiva! Mas percebemos um susto ao ver o CD. Muitos já estão desacostumados como um CD naquele formato tradicional, com encarte e capa, foi o que nós fizemos. Ao todo foram mil cópias e vendemos 500, até o momento. A base da indústria fonográfica, das vendas e do comércio que envolve a música de hoje é completamente diferente. Não há a venda de Cds, propriamente dita. As pessoas baixam as faixam na internet e fazem o CD apenas em caráter de divulgação e não de venda, é o que geralmente acontece hoje em dia.
Meras Crônicas – Por que vocês optaram por lançar um CD com músicas próprias?
Peterson Camargos – Por que é dessa forma que o artista realmente inicia seu trabalho. É tão importante que hoje pode não fazer diferença nenhuma, mas no futuro um produtor forte pode ouvir e gostar. E ai pode começar uma relação lucrativa entre as partes. Ou seja, com o CD o artista eterniza o trabalho.
Meras Crônicas – Sei que vocês agora tem um projeto também com a Banda OX. E que, por enquanto, com a banda, estão realizando mais um trabalho de cover. O que tá mais fácil de “vender” os show da Banda ou as apresentações com as músicas autorais? Na opinião de vocês, qual é o maior desafio para se ter uma música autoral reconhecida?
Peterson Camargos – É muito mais fácil vender cover. O Novo assusta. A gente percebe um preconceito nas cidades do interior, parece que só é bom o que vem de fora. Ou seja, é um obstáculo gigante. Mas a realidade, o talento é igual. Se o que um artista faz é considerado melhor que o trabalho do outro, é consequência de um esforço individual. Já que pessoa com talento existe em todo lugar. O Maior desafio para quem trabalha com música autoral é conseguir alguém com influência que aposte no projeto junto com você.

Meras Crônicas – Você é dono de um estúdio de gravação. Como é que tem sido a procura dos seus serviços por músicos autorais? Qual a porcentagem do seu público é composta por artistas que tem esse perfil?
Clério Teixeira – Tem de tudo! Muitos autorais procuram, mas os que fazem cover também procuram. Tenho percebido muito interesse dos músicos em mostrar o trabalho autoral, muito interesse mesmo.
Meras Crônicas – Em Valadares, a gente conhece muito os músicos que trabalham fazendo cover em bares e casas de show. São poucos artistas que tem reconhecimento por suas próprias canções. Você é um profissional da área, teria alguma opinião sobre o porquê do cenário musical na cidade ser assim?
Clério Teixeira Sobre fazer musica autoral ou cover, acho que cada um tem que saber o caminho que quer seguir. Fazer um cover bem feito é para poucos e, isso já levou muitos artistas a ter reconhecimento nacional, inclusive alguns deles já até tocaram em Valadares! Musica autoral boa de alto nível é para poucos e o contrário também é verdade.
Meras Crônicas – Hoje em dia existem alguns programas na TV aberta brasileira que oferecem oportunidades para novos artistas. Programas como o The Voice Brasil e o SuperStar. Porém, na maior parte das vezes, esses artistas novos chegam lá cantando músicas de artistas já renomados ou conhecidos. O que é muito diferente dos festivais do passado, que revelavam músicos e canções novas, por exemplo. Você acredita que isso é reflexo de uma imposição comercial, da indústria da música ou poderíamos dizer que as pessoas “perderam” o gosto ou a vontade de conhecer algo novo? Programas desse tipo dificultam a vida de compositores autorais?
Clério Teixeira Os programas atuais procuram artistas cantores que não necessariamente compõe, é o que a TV procura. Mas existem várias empresas, como as chamadas Editoras que estão a procura de compositores. Então, para mim, não tem essa de não ter oportunidade! Tem mercado para tudo e todos. Só acho que neste Brasil que vivemos a música de pouca cultura vai sempre sobressair e, sendo bem sincero, é retrato do país. Poderia falar horas aqui sobre isto, mas acho que cada um procura o caminho que lhe convém e paga pra ver, sabendo que quem sabe fazer mesmo, sempre vai ter seu reconhecimento. Mas tem que saber fazer mesmo! O trabalho autoral demora mais tempo para chegar ao público, o que acho até normal.
Muito bom Dilvo!
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Obrigado, Tamy!
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