Ô Democrata, Ô Meu Amor

por Dilvo Rodrigues

“Ôooooo bicha!”, É um dos mais novos gritos de guerra da torcida do meu querido Democrata. Ele acontece quase sempre quando o goleiro adversário vai bater o tiro de meta. Confesso! Não ia ao estádio há uns dois anos. E fui com a intenção de ver um bom jogo, a vitória do time do coração e dar umas boas risadas daqueles gritos de antigamente. Felizmente vencemos, o jogo só foi mesmo bom no segundo tempo. Sobre as canções das antigas? Aí é outra história.

Uma das coisas mais incríveis e inesperadas que aconteceram data de antes da minha passagem pelos portões do José Mamud Abbas. Fui comprar água, estava um calor danado. Alguma coisa aconteceu e aí veio uma garota.

– Você tá sangrando!
– Ahm?, fiquei confuso!

Ela tirou um lenço de papel de uma pequena bolsa e passou na minha barba. Depois me mostrou o lenço sujo.

– Você deve ter coçado a barba, em algum pelo encravado ai.
– É, pode ser! Muito obrigado!

“Boooommmm”, estourou o rojão dentro do estádio, a torcida elevou o volume da empolgação com a entrada do time em campo. Virei para o moço das bebidas e paguei.

– Moço, me arruma um copo descartável!?

Peguei o copo com gelo e virei a água toda dentro. Quando virei novamente, a moça tinha desaparecido. Era mesmo hora de “cair pra dentro” da arquibancada metálica. Fila no portão, ingresso na mão, passar pela roleta, torcer para não tomar geral dos policiais, sem geral, o sol queima na cara, os times em campo. Um minuto de silêncio e bola rolando. Mas, eu ficava me perguntando: “Onde será que a moça foi!?”

O Juiz marca uma primeira falta, que não aconteceu mesmo. Só na cabeça dele que existiu aquela falta. Deu-se, então, iniciado o repertório de xingamentos contra o pobre coitado do árbitro. “Uh, vai morrer! Uh, vai morrer!”, “fela duma égua”, “fila duma mãe”, “Cão chupando manga” eram alguns das alcunhas. O Democrata começou apertando, querendo jogo. Mas logo esmoreceu. Tipo um jegue desses que caminha no sol o dia inteiro e não aguenta tomar iniciativa de nada. Não era atoa que os companheiros de torcida estavam chamando o camisa 10 do time de ameba.

– Olha o picolé, olha o picolé!
– Quanto?
– Dois reais.
– Me vê um de flocos.

Além do de flocos, tinha uva, cocô, leite condensado e limão. Modernidades do mamudão! Depois veio um outro sujeito vendendo pipoca e batata Rufles em saquinhos. Bem, não era uma batata Rufles, era uma genérica. O Camisa oito tinha acabado de perder uma bola no meio de campo, quando o pipoqueiro e batateiro, inconformado, disse:

– Rapaz, até eu jogo melhor que eles. Você tem de me ver jogando no campeonato distrital. Não erro um passe de 10 metros desse nunca.

O primeiro tempo ia terminando sem emoções. O Democrata havia conseguido uma ou duas chances de gol. Nenhuma delas era uma clara chance de gol. O Juiz apitou e o time saiu de campo um tanto vaiado. Eu voltei a procurar a moça esticando o pescoço ali, acolá. Vai ver ela passaria na minha frente, no caminho para comprar água ou estivesse também me procurando, querendo saber se minha “hemorragia” havia estancado.

– Ô do Picolé!
– Oi!
– Tem limão ai!?

No intervalo, o mascote da pantera e um outro funcionário do clube vieram até a arquibancada levar água para as pessoas que assim como eu, sofriam com o sol e com o calor. Achei isso uma gentileza de primeira ordem.

Nada da moça! O segundo tempo começou com um Democrata mais agressivo. O ameba foi substituído já no intervalo e parece que o time melhorou. Foi pressão até o momento da marcação do pênalti, que é aquela coisa, aquela catimba. A torcida já comemorando como se fosse gol, mas o silêncio se faz presente na caminhada do jogador até a bola e da trajetória da redonda saindo da marca do pênalti até o Gol! E a torcida não se aguenta.

Depois disso, parece que entrou algum discípulo do Mano Menezes na direção da equipe em campo. O time recuou, de olho mesmo num bom contra-ataque. O Sol deu uma recuada, pegou sombra no estádio inteiro, os refletores foram acesos. Mas nem assim consegui ver mais aquela moça. A pantera teve mais umas duas ou três boas oportunidades de marcar. Poderia ter vencido sim de 3 a 0. O Goleiro do Mamoré fez boas defesas, que, se eu fosse o Tadeu Schmidt, diria “como um gato!” O Amilton ajudou bastante a ala direita da defessa do time, já que o Mamoré colocou um camisa 20 aberto por lá, uma rapaz bem habilidoso. Isso com cornetada da arquibancada sempre alertando nosso atleta. “Olhas as costas Amilton, olhas as costas! Porra Amilton, olha as costas.”

A torcida feliz que só: “Ô meu grande amor, Demo é meu grande amor!” Se eu fosse emo, falaria que esse grito é bem fofo. Imaginaria um estadio todo cor de rosa, com a bandeira preta e branca do Democrata envolta em balões rosas voando pelo céu. Pantera cor de rosa, nosso mascote! Lua de mel até o próximo jogo!

Fim de papo e o jogo acerrado. Saio do estádio, vou até minha bicicleta, desamarro, coloco os fones de ouvido e escolho, de propósito, “Ain’t no sunshine when she’s gone. It’s not warm when she’s away. Ain’t no sunshine when she’s gone. And she’s always gone too long. Anytime she goes away”. Sim, Bill Withers. Antes de apertar o play chega um “Oi”, olho para trás e vejo uma boca falando comigo em mímica. Tiro os fones de ouvido na maior rapidez desengonçada do mundo, com a música ainda tocando.

– Desculpa, só ouvi seu “oi”.
– Correu tudo bem durante o jogo?
– O time poderia ter jogado melhor no primeiro tempo!
– Não! – aponta para o ponto do meu rosto onde tava sangrando.
– Ah! Sim! eu não encostei a mão mais.
– Que bom. Então até o próximo jogo.

Depois fui me dar conta que o último jogo do Democrata no Campeonato Mineiro será em Belo Horizonte. Se o batateiro/pipoqueiro tivesse ali, me vendo com ela, diria que não erraria um lance desses nunca na vida.

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