Um Coração na Ponta do Dedo

por Dilvo Rodrigues

Quando esbarrei com a Camila Gontijo numa boate, armei o quadro rapidamente e disparei o click.

-Oi, tudo bem? Meu nome é Dilvo. Eu sou jornalista e tenho um blog de crônicas, no qual escrevo histórias de pessoas e algumas estórias bem fantasiosas também. Você toparia contar um pouco a respeito da sua relação com a fotografia?

– Claro! Anota aí meu número e a gente conversa melhor sobre isso.

Foi simples! Peguei o telefone dela, entrei em contato e marcamos um bate-papo, para assim que ela ficasse menos atribulada no trabalho. Uma duas semanas se passaram, até que a fotógrafa me recebeu no seu estúdio.

Um tatuagem bem simples, um coração em uma das falanges do dedo indicador da mão direita. O porque dela? Fiquei com essa pergunta muito tempo na cabeça. Nós podemos conhecer muito do coração de um fotógrafo, através das imagens que ele capta. Na verdade, através da maneira como ele capta as imagens. Cada traço, cada sombra, cada pixel, cada movimento é um pedaço do interior dessas pessoas, uma parte do coração, que muitas vezes eles preferem não dar luz. Ou mesmo, jogam uma luz apenas interior. Usam as lentes dos olhos, a pupila é o diafragma dessa câmera interior, que é capaz de revelar o filme e deixar ele bem escondidinho, bem no pano de nossas memórias. É assim, bem assim, que uma fotógrafa como a Camila Gontijo possivelmente se sente todas as vezes que as mãos de um outro alguém se encontram com as dela. “Talvez fosse demais perguntar sobre a tatuagem logo de cara!?”, pensei!

Selfie!? É preciso entender que muitos deles não gostam de se fotografar. Da mesma maneira como certos cronistas, que adoram ouvir as histórias e estórias de outras pessoas, dificilmente ficariam a vontade contando as dele. Não que não se ache um belo personagem para uma boa história. Ou, como no caso da nossa heroína, é sim fotogênica, gosta de se ver nas fotos, é linda! (aposto! Caetano diria). De que vale um selfie solitário, de caras e bocas e olhares, quando se pode mesmo registrar momentos com os amigos, com os familiares, comigo! Uma pena! Não registramos o momento do encontro, da conversa. Mas, parafraseando Milton Nascimento (música Sentinela), revejo nessa hora em que escrevo tudo o que ocorreu. Memória não morrerá! Algo bom, especialmente para um cronista.

Impossível é lembrar de todas as fotos, de todas as noivas e noivos, as debutantes, as crianças ou modelos. Como também é impossível eleger uma foto preferida em todo o universo de clicks dados desde o primeiro contato com a fotografia. Porém, há fotos que trazem emoção, fotos em que ela mesma é um dos personagens estampados no papel. Essas emoções foram tantas! Mesmo dizendo e olhando nos olhos deste sujeito que lhes escreve que não é saudosista ou nostálgica. Para ela, é o presente que importa e nada mais certo do que marcar presença nos acontecimentos do agora. É o agora que importa ao olhar do fotógrafo. Que ao contrário do que muita gente pensa, e é o que ela acredita, vem da simplicidade. Uma simplicidade que se sobressai ao racionalismo puro das técnicas.

Eu tinha me convencido de que aquele disparo que tive na boate, ao som de arrocha, produziria uma “foto” digna de alguma contemplação. Eu poderia ir embora com o que já tinha. Mas, assim como os fotógrafos querem porque querem registrar certos momentos, eu precisava saber.

– Camila, você tem alguma tatuagem a ver com a fotografia?

Era o coração! Que poderia ter sido uma máquina fotográfica. Mas era ele, modesto e lá, marcando presença. Depois eu me despedi, agradeci e saí caminhando pela rua. Seguindo por um calçadão, com canteiros bem cuidados, um rio passando do lado e o sol brilhando nem mais, nem menos. Eu olhava para a história que eu tinha nas mãos, com todo esse quadro de fundo. Não resisti, disparei mais um click e pensei comigo: “Aquele coração deve estar mesmo é na ponta do dedo.”

4 comentários sobre “Um Coração na Ponta do Dedo

  1. A simplicidade é realmente o mais importante na vida, Dilvo. Gostei da sua crônica com descrições sobre a fotografia, do trabalho desta bela fotógrafa.

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