por Dilvo Rodrigues
O Período de páscoa havia chegado e, Dona Ondina começou a se preocupar com os presentes de páscoa dos netos. Ela educava Robertinho, Augusto e Mônica, já que os pais das crianças foram presos ao tentar entrar nos EUA ilegalmente. Dona Ondina trabalha de doméstica, durante o dia. Nos fins de semana, faz bico de cozinheira no Bar do Tião, preparando desde carne de sol com mandioca à coxinha com catupiry. É uma cozinheira de mão cheia, como dizem os mais entendidos da gastronomia popular.
Muito religiosa, dona Ondina não liga muito para os costumes mundanos. Gosta de frequentar a Igreja aos domingo. Quando pode, realiza trabalhos voluntários na Associação dos Moradores da Vila Celeste. Ás vezes sente falta do pagode e da cervejinha do domingo, no bar do Joca, que foi abandonado quando as crianças ficaram na responsabilidade dela. Quer dar um futuro melhor aos três, mas não sabe se vai conseguir.
– Talvez, seja culpa mesmo da Dilma. Mas, eu não tenho dúvida que a culpa é de todo mundo -, disse outro dia, enquanto eu assistia na TV o discurso da presidenta aqui em casa e ela arrumava as roupas no meu guarda-roupa. Quando a vizinha começou a bater os talheres, em forma de protesto. Ela riu da cena.
– Se Diminuir o ritmo da até pra cantar um samba. “Tire o seu sorriso do caminho, que eu vou passar com a minha dor. Hoje pra você eu sou espinho, espinho não machuca a flor. Eu só errei quando juntei minh’alma à sua. O sol não pode viver perto da lua.”. Fiquei sem entender, achei que Dona Ondina estava sofrendo de uma dor de cotovelo qualquer. Depois, disse comigo que era melhor não achar nada.
Quando os ovos de páscoa chegaram aqui em casa, percebi que o olhar dela mudou. Do mesmo jeito que ela sempre percebia quando eu ficava deprimido demais e era necessário pegar pesado na dosagem dos remédios para loucura. Com ela, não tinha escapatória. Sem remédio, sem coxinha! Mais tarde ela me contou a questão dos meninos e da preocupação.
– Sabe, se dependesse de mim, não precisava de nada. Mas, sabe como é criança, né!? Vê na Televisão, com um colega e já quer também. Criança é bicho “pidão”, nunca vi igual!
A Alessandra sempre traz muito chocolate nessa época. Ela é viciada! E eu não como nada de chocolate. Então, peguei os ovos e bombons e entreguei tudo pra Ondina. Ela se recusou a aceitar. Ofereci dinheiro e ela quase me bateu.
– Então, Ondina, você pega e doa pra associação dos moradores -, aí ela aceitou. – Como você vai fazer com seus netos?
Ela tinha umas galinhas no terreiro de casa e tinha pensado num plano mirabolante. Naquele mesmo dia, noite de sábado, Ondina chegou em casa, deu banho nas crianças e colocou todo mundo pra dormir mais cedo. Antes, havia passado no bar para pedir um dia de folga. O que só aconteceu depois de usar muita saliva. Quando ela percebeu que os três não iriam acordar nem com a vaca tossindo, foi ao galinheiro e pegou doze ovos. Ondina então passou a madrugada pintando e decorando os ovos de galinha, para que eles se parecessem com ovos de páscoa. E pintou as pegadas do coelho no chão. Escreveu também numa folha algumas instruções para que as crianças procurassem os ovos escondidos no interior da casa. O Domingo já ia raiando quando já estava tudo preparado. Ela então resolveu ir descansar.
Já de manhã, Mônica acordou primeiro e viu a casa todo cheia de pegadas de coelho. Chamou os irmãos na hora, que ficaram surpresos com o que viram. Robertinho achou as folhar com as instruções. “Doze ovos de páscoa escondidos pela casa, quatro pra cada um, hein!?”. Augusto foi abrir a cortina e a janela, para a luz do dia entrar e as pegadas ficarem mais fáceis de seguir, quando viu um coelho todo sujo de lama, passando correndo pelo quintal. Saiu correndo em direção aos irmãos.
– Eu vi, eu vi, eu vi! O Coelho, o coelho!
Procuraram os ovos por toda a casa, acharam todos eles, um a um. Dividiram os ovos entre eles e cada um foi fazer o que achava que deveria fazer com os ovos de páscoa. Mônica foi brincar com as bonecas e levou os ovos juntos. Robertinho colocou os ovos na caçamba de um dos carrinhos, amarrou uma corda nele e ficou puxando o carrinho pelo quintal. Augusto resolveu levar os ovos para o fogão. O garoto tava com fome. Primeiro ele achou os ovos duros demais para poder comer. Então, pegou uma panela, colocou no fogão, ascendeu a chama e jogou o ovo lá dentro. Não aconteceu nada.
– Tem de quebrar ele, pra ver o que tem dentro -, pensou!
Daí sentou uma colher no ovo, que quebrou todo.
– Olhaaaa! -, e saiu correndo atrás dos outros dois pra mostrar o que tinha descoberto.
Dona Ondina começava a acordar com um certo barulho na cozinha. Ela ouvia barulho de panelas sendo mexidas por lá e saiu correndo até lá desesperada.
– Meu Deus! Vocês não podem mexer no fogão. Já não disse!? – disse no automático.
Ela se deparou com os três comendo e fritando os ovos de páscoa. Felizes com a brincadeira que o Coelho da páscoa tinha feito. Ela apagou a chama do fogão, quando a Mônica não se conteve.
– Poxa Vó, deixa! Esses ovos do coelho da páscoa são de fritar. Igual os da galinha, os de codorna!
Belíssima história Dilvo, isto é q é infância verdadeira, na alegria das coisas simples, criatividade e inocência. D. Ondina exemplo de vó, na dedicação à vida pelos netos. E como diz a música do Vinícius de Moraes e Chico Buarque :” E aí me dá, uma inveja dessa gente…É gente humilde,
que vontade de chorar… “
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Nem ela contava com a criatividade e inocência dos netos. No final das histórias todos se salvaram.
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