Velho, Caduco e Cego

por Dilvo Rodrigues

Além de velho e caduco, estou ficando cego. Constatação essa dada por um doutor de reconhecido diploma e talento na arte do diagnóstico das doenças oculares mais indesejadas. Saí do consultório triste com a notícia indicada pela receita: uma par de óculos. Invoquei Santa Luzia, queria estar no 13 de dezembro, época em que a santa protetora dos olhos é celebrada, fazer uma oração prodigiosa para que meus olhos voltassem a ser meninas e não mais jovens senhoras. Como era bom poder ver tudo alto e claro, discernir todas as cores, todas as faces mais belas das moças mais belas à distância, atravessar a rua ao ver de longe um desafeto caminhando na mesma calçada. Como era bom!

E se falando que nascer no mesmo dia dedicado a Santa Luzia não me trouxe vantagens. Sob a tutela do seu manto estaria eu condicionado a ver o mundo sempre em High Definition, pensava inocentemente. Não foi o que aconteceu. Não acontecerá cada vez a cada dia que as minhas janelas da alma são atacadas pelos cupins imperdoáveis e insaciáveis do tempo. Sim, a velhice e suas incontáveis mudanças. Não bastasse os cabelos brancos, a falta de cabelo, as doenças as mais incuráveis, dor nas juntas, falta de sexo, falha na memória, solidão e o incansável péssimo hábito de pensar: “Ah, no meu tempo era diferente.”. E era mesmo! As moças eram mais recatadas, as pessoas mais educadas e não existia tanta violência, meu deus! E olhas que nós, senhores de idade, devido à sabedoria adquirida, deveríamos questionar nosso umbigo, que já anda mais a frente do que imaginávamos dez anos atrás. Na minha época, estava eu cego pelo presente porque estava tudo muito bem e tudo muito bom. O futuro a gente não vê e, por isso, chega até viver de uma maneira que se faça entender que ele tardará ou mesmo não chegará. Sem dúvida, esse é o pior tipo de cegueira! Temo eu agora sofrer da cegueira do passado, aquela que me faz amar “o passado e não vê que o novo sempre vem.”, para a qual médico nenhum tem remédio. Rezemos então em busca de um milagre!

Quando era criança, ficar cego era divertido. A gente amarrava uma faixa em volta da cabeça, vendava os olhos e tentava adivinhar o que ou quem estava por perto. Cabra Cega, que alguns chamavam também de Cobra Cega e Pata Cega. Você já viu uma pata cega? Uma cabra cega? É cada coisa! Pata cega funciona melhor para xingar a vizinha que esbarra na gente no elevador. “Ow, sua Pata Cega! Acorda!” Salada Mista era outra brincadeira que acontecia de olhos vendados, no escuro. Conheço muita gente que brincou demais, muito mesmo, de salada mista. Hoje, crescido, se recusa ir a encontros as escuras. Nem tanto as escuras assim, né!? Você acaba vendo ali a foto do sujeito ou da fulana. Vê que tem um cabelo punk, uma barba mal feita pra danar, um cabelo despenteado, cara de terrorista. Sem chance! Com ele não vale nem uma pera.

Disse minha mãe que devo ter puxado a “cegueira” do meu avô, que sempre reclamava de não enxergar muito bem.

-Novo desse jeito e já com problema de visão? Na sua idade minha visão ainda era muito boa. Agora é que capengando também.

-Talvez seja culpa da leitura compulsiva e do uso abusivo de computadores, tablets e celulares, acumulado com avanço excessivo da velhice.No seu tempo não tinha isso, né Dona Maria?

– É mesmo! A gente nem sabia se tava enxergando mal ou não, se era cego ou não.

Daqui a alguns anos, sentarei novamente nessa poltrona, lembrando das brincadeiras de criança, de quanto o tempo de hoje era melhor do que aquele em que estarei. Tenho certeza da minha cegueira, até me conformarei inconscientemente com esse fato, mesmo que esteja tentando enxergar melhor através de um fundo de garrafa qualquer.

8 comentários sobre “Velho, Caduco e Cego

  1. Muito bom o texto!
    Tive que fazer meu primeiro óculos aos 15 anos, mas era um grau baixíssimo. Recentemente tive que fazer uma visita mais séria ao oftalmo e descobri que já estou com os dois pés na cegueira. Agora
    é óculos pra tudo e não tem jeito.

    Vamos pensar que por um lado, todo mundo diz que parece que ficamos mais inteligentes com o uso do acessório.

    Beijo
    http://resenhandosonhos.com

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    • Obrigado Tamirez!
      Seja bem-vinda por aqui.
      Tem esse lado bacana, parecemos mais responsáveis e confiáveis também.
      Poxa, mas, se você começa a usar um “fundo de garrafa”, acredito que esse efeito causado nas pessoa é diferente de parecer mais inteligente etc. rs

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  2. Você estava sumido com as suas crônicas Dilvo, mas voltou com a corda toda, rs. Muito boa sua crônica, como coloca os problemas que vão surgindo em nossas vidas, as boas lembranças de brincadeiras de crianças, as frases das mães, pessoas tão importantes em nossas vidas. Cegueira nada, Dilvo, você sabe enxergar muito bem a vida.

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