Cacos Quebrados, Cacos Colados

por Dilvo Rodrigues

Uma promessa quebrada é impossível de restituir. Não tem jeito. Os espelhos também são impraticáveis de conserto, depois que se partem em pedacinhos chão afora. Bem, nunca me deparei com um espelho todo colado, quer seja de Super Bond. Algumas outras coisas são coláveis, acredito. Na verdade, acho que quase tudo é passível de uma resina, uma cola ou uma fita adesiva. Não fica novo, mas perfeitamente usual.

Pra você ver. No século XV, os japoneses desenvolveram uma técnica de restauração de cerâmicas, conhecida como Kintsugi. Nessa técnica, as partes danificadas do objeto recebem uma mistura da resina produzida por organismos presentes nas cascas de certas árvores (laca) e pó de ouro. O Kintsugi acentua a complexidade estética da peça, tornando-a ainda mais valiosa, dizem alguns especialistas. Há casos em que alguns colecionadores de cerâmicas quebravam seus itens de forma intencional para, posteriormente, consertá-las com ouro. Se nos ensinassem a praticar o Kintsugi quando nossas emoções ou sentimentos fossem quebrados, despedaçados, fico pensando. Os psicólogos, psiquiatras e seus anti-depressivos estariam extintos. O desabafo dos ex-amantes dizendo que há outros amores, outras paixões e tanta gente no mundo seriam menos frequentes. Amores, amizades, sentimentos fraternais, esperança e consideração com um fiapo de ouro ali, outro acolá, a vida seguiria, e eles estariam cada vez mais bonitos e valiosos a cada colagem, ainda que não puramente intactos.

Acabei de ler “Adeus às Armas”, do escritor americano Ernest Hemingway. Será que vale a pena abrir mão de tudo para viver um sonho? E se, depois, sem mais nem menos, o sonho for arrancado das suas mãos e você descobrir que perdeu tudo? Ainda valeria a pena? São perguntas que veem à cabeça depois do último ponto final do livro. “Aos que trazem coragem a este mundo, o mundo precisa quebrá-los para conseguir eliminá-los, e é o que faz. O mundo os quebra, a todos; no entanto, muitos deles tornam-se mais fortes, justamente no ponto onde foram quebrados. Mas aos que não se deixam quebrar, o mundo os mata. Mata os muito bons, os muito meigos, os muito bravos – indiferentemente. Se vocês não estão em nenhuma dessas categorias, o mundo vai matar vocês, do mesmo modo. Apenas não terá pressa em fazer isso.”. É uma dúvida cruel. Melhor se manter intacto ou, às vezes, deixa cair alguns cacos? Eu poderia acreditar que Che Guevara tenha já elucidado a questão. “Hay que endurecer, pero si perder la ternura jamás.” De certeza temos que tudo um dia vira pó.

Não precisa chegar ao ponto das cinzas. Mas é possível também reconstruir algo de lá. Encarnar a Fênix, ressurgir com a força de poder carregar elefantes sobre as asas. É preciso ter coragem para se consumir em fogo ao fim de cada período de vida. É a sina da Fênix! “Quem é forjado no fogo e na tempestade jamais é derrotado por ventos e pedradas”, isso eu ouvi outro dia de um anônimo, que na mesma noite enchia a boca cantando que se fez em mil pedaços para alguém juntar. Então, que a pessoa que for colar os pedacinhos dele pelo menos conheça um pouco do Kintsugi.

2 comentários sobre “Cacos Quebrados, Cacos Colados

  1. A ideia de colar pedaços me parece boa a princípio mas nem o ouro nos fortalece tanto como o perdão.Aceitar a nossa essência e a partir dela forjar um crescimento aceitando nossas limitações mas lutando sempre para vencer e perdoar a nós mesmos por não sermos perfeitos.Amar ainda é a melhor escolha com nossos cacos. kkkkkkkkkkkkk.A vida é assim….choro e alegria…

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    • O perdão vale ouro, né!? Não quer dizer que tudo vai ser como antes, mas é uma escolha de seguir em frente assumindo mesmo nossas limitações e erros, como você disse. O engraçado é que todo mundo só que seguir na alegria. Mas, muitas vezes, a alegria só vem através ou depois do choro.

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