Tem Um Pessoal em Linhares

por Dilvo Rodrigues

Lembra daqueles modelos de chinelo da Rider, com uma alça cobrindo a parte frontal do pé e com uma telinha para entrar ar? Aqueles estrelados pelo craque de futebol Careca, na década de 1990. Pois é, eles são moda entre alguns jovens de Linhares, cidade do litoral norte do Espírito Santo. Já tive um chinelo desses, o que já nem me lembrava mais. Muitos deles também usam bonés de aba reta, só que de uma forma peculiar. É como se a pessoa pegasse o boné e soltasse no topo do cabeça e o dito cujo ficasse lá, se equilibrando. Eu não tenho nada contra as pessoas usarem boné da maneira como lhes convir. E nem acho uma pena, porque se o boné não esconde a nuca toda, então da para sentir aquela brisa de mar marota que agita os cabelos dos menos carecas por aqui. Entre as meninas, é moda os shorts que deixam meia banda do bumbum de fora, tanto entre as mocinhas da periferia como entre as frequentadoras das lojas mais badaladas do Pátio Shopping. Essa história de sentir vento na banda da bunda não tenho interesse de descobrir se é bom. Mas aquela brisa que bate na nuca, toda manhã e toda noite, não tem preço!

Se você estiver “dando um perdido” com seu “caso secreto”, pode atender o telefone numa boa e dizer que você está por aí, com “um pessoal aí”. “Tô com um pessoal aí”, me desculpe, mas vou usar muito pelo mundo afora. Para atrair atenção de alguém durante um bate-papo, antes de qualquer palavra tem que ter “hein”. Alguns puxam aquele S (Parece X também) e tem o ritmo de falar “marrentinho” dos cariocas. Muita gente torce para o Vasco, muita gente torce para o Fluminense e para o Flamengo. Porém, a cidade fica mais perto da Bahia. Eu só torço para o Democrata e todo mundo ria de mim. Mas, mineiro é gente boa, dizem.

No senso comum local, Linhares abriga o maior bairro do Brasil, o que é difícil de acreditar, levando em consideração que o município tem pouco mais de 160 mil habitantes. Um turista ou um migrante recém chegado pensaria duas vezes antes de colocar os pés em um bairro chamado Canivete ou no Pó do Shell, que tem esse nome devido uma antiga serraria responsável por espalhar pó de serra aos quatro ventos. Quem é de fora também fica encucado de chegar ao Linhares V, sem mesmo passar pelos bairros Linhares I, II, III e IV. Eles não existem.  Eu sei que a graça do Novo Horizonte é a moqueca no restaurante do Piu, tomar uns goles na pracinha e comer espetinho de carne moída. Tem wi-fi na pracinha. Bacana! No outro dia, com a ressaca, não falta opção de açaí.  E não tive coragem de perguntar aos moradores do Canivete o porquê do nome. Aprovei o açaí.

Em uma semana aprendi a letra de grandes composições de sertanejo e arrocha. É o que toca nos carros passando, nos bares e casas noturnas. Me disseram que o povo aqui é chegado numa camisa de marca e uma chave de veículo automotor pendurado na calça. Se gosta, eu não sei. Não deu pra saber. Só não curti mesmo ser confundido com um tal de Le Cameron, um sujeito que tem quatro músicas e que, provavelmente, não vai gostar nada, nada de ser confundido com um Dilvo, que não tem música alguma. Normal ser confundido! Também não compareci às famosas lagoas particulares, locais onde o pessoal vai andar de lancha, jet ski e, certamente, postar uns nudes e belfies no Instagram. Na pista de skate, a galera andava legal. Marquei presença no barzinho em frente a faculdade e morri de raiva duma “facada” financeira do moto-táxi, com uma conversinha mole igual a todo canto “de nesse horário é mais complicado.” Ônibus em Linhares só até 23 horas, cumpadi. Vixe! Foi o que pensei quando soube.

Quando desci em Linhares um desconhecido me ofereceu uma carona. Eu aceitei e ele não cobrou nada. Me levou na porta de casa. No churrasco, um amigo emprestou o carro para outro amigo ir me busca e levar em casa. Fez questão! Eu agradei demais. Pena não ter sobrado costela! Outro dia, um sujeito pagou nossa conta no bar porque o primo dele, o mesmo que me confundiu com o Le Cameron, “importunou” por demais a rapaziada. Não precisava, mas… Paguei cerveja para um sujeito, sem ser naquele, mas no outro dia. Depois, fui no bar dele, e ele “desceu” outras pra mim. Conheci uma garota que se formou aos 15 anos na faculdade de jornalismo e um frango com polenta nunca antes visto na história. E aquele pessoal lá, hein!? Ah, preciso voltar a Linhares.

4 comentários sobre “Tem Um Pessoal em Linhares

  1. Eu tb quero voltar lá! Gostei por demais da linda cidade. Achei uma graça! Tomar milk shake de ovomaltine, ver a lagoa do meio… Só não me adaptei ao happy hour! Nem às noitadas sózinha…
    o pessoal de lá dorme mto cedo e eu, sabe como é, né?, sou valadarense!

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